Com Chávez, Venezuela estreita laços comerciais com o Brasil

Edilson Saçashima Do UOL Notícias Em São Paulo*

Quando Chávez assumiu a presidência da Venezuela, em 2 de fevereiro de 1999, o mundo passava por uma crise financeira deflagrada na Rússia e que se espalhou pelo planeta. No Brasil, FHC iniciava o segundo mandato como presidente e tentava contornar os ataques especulativos ao Real. Dez anos depois, o mundo vive uma nova crise financeira, que alguns classificam como sem precedentes na história. O Brasil, agora sob o comando de Lula, em seu segundo mandato, busca minimizar os efeitos da crise em sua economia. E na Venezuela, bem, Chávez ainda está lá...

O governo venezuelano criou neste domingo um novo feriado nacional no dia 2 de fevereiro, para comemorar a chegada ao poder do presidente Hugo Chávez. O anúncio foi feito na tarde de domingo, menos de 24 horas antes do início do feriado.

Para o Brasil, o período de dez anos de governo Chávez pode ser resumido em números. Em 1999, as exportações brasileiras para a Venezuela somaram US$ 536,67 milhões. Em 2006, o volume saltou para US$ 3,555 bilhões, um aumento de 562,4%, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

No primeiro semestre de 2007, a venda de carne bovina desossada brasileira aumentou 449% em relação ao mesmo período de 2006. Já a venda de automóveis, o principal produto de exportação brasileiro para a Venezuela, aumentou 147,55%. As exportações venezuelanas ao Brasil no primeiro semestre de 2007, no entanto, sofreram uma diminuição de 23,8%.

Em uma comparação entre FHC e Lula, nota-se que o governo do petista foi aquele que promoveu o maior aumento do comércio bilateral entre o Brasil e a Venezuela. Entre 1999 e 2002, período em que Fernando Henrique Cardoso era o presidente, as vendas brasileiras aumentaram 48%. No governo Lula, entre os anos 2003 e 2006, o aumento foi de 492%.

Ultimato ao Brasil
Foram alguns desses números que Chávez, conhecido por suas frases de efeito e suas atitudes polêmicas, usou para dar uma das poucas alfinetadas no Brasil. Em julho de 2007, Chávez deu um ultimato ao Congresso brasileiro para a adesão da Venezuela no Mercosul. "Vamos esperar até setembro. Não esperaremos mais, porque os Congressos do Brasil e do Paraguai não têm razão política nem moral para não aprovar nossa entrada. Se não o fizerem, vamos nos retirar até que haja novas condições", disse Chávez durante discurso transmitido pela televisão venezuelana. "Empresários venezuelanos, não vou deixá-los desamparados diante de ninguém, nem diante do Brasil, nem diante dos Estados Unidos, nem diante da Europa, nem diante do Irã, nem diante de ninguém", acrescentou.

Em reação ao pronunciamento, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse que ninguém estabelecia prazos para nenhum país. "Ninguém estabelece prazo para nós nem nós estabelecemos prazo para ninguém", afirmou.

Poucos meses depois, em setembro de 2007, Lula e Chávez se encontravam para uma reunião bilateral, o que foi considerado como uma espécie de marco do fim do distanciamento entre os dois líderes. Desde então, os dois presidentes já tiveram outros cinco encontros bilaterais.

Se Chávez elegeu os EUA como o "grande satã" do mundo, o Brasil parece ser visto pelo líder venezuelano como parceiro comercial. A entrada no Mercosul, defendida por Chávez, permitiria à Venezuela superar algumas barreiras burocráticas e aumentar as vendas ao Brasil.

Chávez na Sapucaí
O Brasil pode não ter peso como comprador de produtos venezuelanos, no entanto, já foi um garoto-propaganda (consciente ou inconscientemente, é difícil saber) da mais valiosa mercadoria da Venezuela: o petróleo.

Em 2006, a estatal venezuelana de petróleo PDVSA (Petróleos de Venezuela) foi a patrocinadora da escola de samba Vila Isabel. Estima-se que ela tenha investido entre US$ 500 mil e US$ 1,5 milhão na escola, que foi a campeã do carnaval carioca naquele ano com o enredo "Soy loco por ti, América: A Vila canta a latinidade".

Entre os homenageados pela escola estava Simon Bolívar, o herói da independência da Venezuela e de outros países do continente. É esta figura histórica que Chávez se inspira para conduzir a sua política. Um dos primeiros atos de Chávez como presidente foi rebatizar o nome do país como República Bolivariana da Venezuela.

"Congresso brasileiro é papagaio de Washington"
Mas nem tudo é festa e negócios na relação entre Venezuela e Brasil. Em maio de 2007, Hugo Chávez disse que o Congresso brasileiro "repete como um papagaio" o que diz o Congresso dos EUA. Essa foi a resposta a uma monção do Senado brasileiro que pedia a Chávez para reconsiderar a decisão de não renovar a concessão da RCTV, uma rede de televisão oposicionista na Venezuela.

Em resposta, Lula disse que Chávez "tem que cuidar da Venezuela". O Itamaraty se manifestou em nota em que afirmava que o governo brasileiro repudiava o questionamento da independência e dignidade do Congresso.

A crise diplomática durou alguns dias e terminou com uma declaração conciliadora de Lula. "Chávez é parceiro, não um perigo para a América Latina. Chávez tem suas razões para brigar com os Estados Unidos. E os Estados Unidos têm suas razões para brigar com a Venezuela. O Brasil não tem nenhuma razão para brigar com os Estados Unidos ou a Venezuela", disse.

FHC negocia trégua com Bush
Apesar de EUA e Venezuela "terem suas razões para brigar", o primeiro encontro entre George W. Bush e Hugo Chávez foi pautado pela diplomacia e contou com a intervenção de Fernando Henrique Cardoso.

O ex-presidente brasileiro conta em seu livro "A Arte da Política" que Bush manifestou a ele o temor de ser hostilizado por Chávez, inimigo declarado da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), o acordo comercial idealizado pelos EUA, durante a Cúpula das Américas, em Quebéc, Canadá, em 2001. Seria a primeira viagem internacional de George W. Bush como presidente.

FHC, então, expôs sua opinião a Chávez durante uma reunião. "Expus a Chávez a opinião de que, se ele fosse cortês, desarmaria o interlocutor, mesmo porque não acreditava que o Presidente da Venezuela viesse a ser agressivo com o Presidente norte-americano", escreve FHC no livro.

A resposta de Chávez, segundo FHC, foi: "Você me conhece. Eu sou ardoroso. Quando, nas reuniões da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), começo a me entusiasmar, o sultão de Qatar, que é meu amigo, tem uma combinação comigo: olha para mim com as mãos postas perto do rosto, em forma de oração, e eu modero minha fala, antes de proclamar a República nas monarquias árabes. Vamos fazer o mesmo em Québec".

Na Cúpula, FHC fez um discurso em que afirmava: "A Alca será bem-vinda se a sua criação for um passo para dar acesso aos mercados mais dinâmicos". Ao terminar o discurso, FHC dirigiu-se à sua cadeira. Hugo Chávez se aproximou do brasileiro e, com as mãos em sentido de oração, saudou FHC "efusivamente". O gesto valeu um comentário do ex-presidente em seu livro. "Nós, latino-americanos, podemos até não ser bons negociadores, mas não perdemos o senso de humor".

* atualizado às 11h26

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