Eutanásia de mulher em coma há 17 anos é decisão inédita na Itália e divide sociedade

Thiago Varella e Edilson Saçashima Do UOL Notícias Em São Paulo

Uma mulher em coma há 17 anos virou o centro de uma disputa carregada de questões emocionais, que dividiu a Itália e mobilizou o conservador governo de Berlusconi e a alta cúpula da Igreja Católica.


O que você acha da eutanásia? Existem casos em que ela deve ser permitida?


Eluana Englaro, 38 anos, está em estado vegetativo desde que sofreu um acidente de carro em 1992. Seu pai, Beppino Englaro, conseguiu na Justiça provar que o estado de saúde da sua filha é irreversível e que era da vontade de Eluana morrer se estivesse em coma e, assim, recebeu uma sentença, em 2007, que autoriza o hospital a retirar o tubo de alimentação que a mantém viva.

A decisão é inédita no país. Conhecida por ser uma sociedade conservadora e intimamente ligada aos valores católicos, a Itália proíbe a eutanásia em seu território.

Na última terça-feira (dia 3), Englaro autorizou a transferência de sua filha de Lecco, cidade onde vive, para a clínica La Quiete, em Udine, onde a alimentação de Eluana será gradativamente cortada até sua morte.

"Eluana, acorde"
A transferência de Eluana foi o estopim de uma calorosa discussão que tomou conta da Itália. Já na terça-feira (dia 3), na porta da clínica, alguns manifestantes antieutanásia tentaram impedir a entrada da ambulância que transportava a paciente. Aos gritos de "Eluana, acorde. Eles querem matá-la", os manifestantes tentaram, sem sucesso, interditar a clínica.

Alguns manifestantes do comitê denominado "Per Eluana e Tutti Noi" (Para Eluana e Todos Nós) fundado pelo Movimento pela Vida estudam entrar em greve de fome quando a alimentação de Eluana for interrompida.

O conservador governo de Silvio Berlusconi também entrou no caso. Maurizio Sacconi, ministro da Saúde, baixou uma portaria proibindo todos os hospitais públicos e privados de retirarem a alimentação de pacientes em coma. A medida dificultou a busca por uma clínica onde Eluana pudesse morrer, mas não evitou sua internação em Udine.

Isso porque a medida não tem valor legal, pois o Executivo não pode se sobrepor às decisões judiciais, segundo explicam os críticos.

O subsecretário do Ministério do Interior da Itália declarou que "em poucos dias a Itália executará sua primeira sentença de morte desde 1948". Já a Procuradoria Geral da Itália convocou o chefe da equipe médica responsável pela morte de Eluana Englaro.

Vaticano expressa indignação
O Vaticano também expressou toda sua indignação com o caso. Como já havia feito durante a polêmica morte de Terry Schiavo - um caso de morte de uma paciente em coma, ocorrido nos Estados Unidos e que se assemelha muito com a situação da família Englaro - a Igreja Católica afirma que a eutanásia é um crime anticristão.

Segundo o papa Bento 16 a eutanásia é uma "solução falsa" para o sofrimento.

Italiana é levada a clínica para morrer



Outros membros do alto clero católico também emitiram opiniões contrárias à morte de Eluana. "Detenham este assassinato!", clamou o cardeal mexicano Javier Lozano Barragán, 'ministro' da Saúde do Vaticano, em uma entrevista ao jornal italiano "La Repubblica". "Interromper a alimentação e a hidratação de Eluana equivale a um abominável assassinato e a Igreja não cessará de denunciá-lo aos gritos. A Igreja defende a vida e sua posição não muda por veredicto judicial."

A morte
Já na sexta-feira a alimentação oferecida a Eluana será reduzida em 50%, informou o neurologista Carlo Alberto Defanti. O médico acrescentou que será seguido estritamente "o protocolo".

Gradualmente, a alimentação será interrompida. Para aliviar a falta de proteínas, gordura, água e açúcar e evitar convulsões, sedativos serão aplicados. Segundo os especialistas, Eluana levará várias semanas até morrer.

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