Itália vai investigar areia utilizada nos prédios que desabaram; bombeiros encontram sobrevivente

Do UOL Notícias* Em São Paulo

Atualizada às 18h09

A Procuradoria de L'Aquila, uma das cidades italianas mais afetadas pelo terremoto que atingiu o centro no país na última segunda-feira (6), anunciou nesta sexta que vai abrir um inquérito sobre o material utilizado nas construções que desabaram durante os tremores. A investigação foi anunciada depois da denúncia feita pela imprensa local de que algumas construções teriam sido erguidas com cimento misturado a areia do mar. Também nesta sexta (10), bombeiros anunciaram ter encontrado um sobrevivente em L'Aquila.

Funeral coletivo na Itália

  • AFP

    Premiê italiano, Silvio Berlusconi (direita), participa de cerimônia em homenagem às vítimas dos tremores na Itália

"Investigaremos se os edifícios foram construídos com areia marinha", declarou Alfredo Rossini, procurador-geral de L'Aquila ao jornal "La Repubblica". "Devemos dar uma resposta imediata às vítimas e seus parentes."

O inquérito iniciado hoje pode acusar os responsáveis pelas construções de homicídio culposo, caso seja constatado que os edifícios ofereceram pouca resistência ao terremoto de 6,3 graus na escala Richter do último dia 6.

O mesmo jornal publicou hoje dois artigos que questionam as condições sob as quais foram construídas as casas que desmoronaram. O primeiro questiona por que o tremor atingiu de forma diferente dois prédios vizinhos: um deles se manteve em pé, o outro desabou, matando 26 pessoas.

Segundo o presidente da Associação Nacional de Construtores italiana (Ance), Paolo Buzzetti, "o cimento armado, se tivesse cumprido as normas, teria que resistir".

Bombeiros encontram sobrevivente em escombros

Eles estão tentando retirar a pessoa --que tem mostrado sinais de respiração-- do local, o que pode demorar algum tempo, segundo os Bombeiros



O segundo texto denuncia a utilização de areia do mar nas construções. "Normalmente, os maus construtores utilizam areia do mar. Não custa quase nada, em comparação com a areia adequada. O problema é que, além das muitas impurezas, ela é cheia de cloreto de sódio e, com o tempo, 'come' o ferro [das estruturas]", explica o engenheiro Paolo Clemente, da Defesa Civil italiana.

Funeral coletivo
A Itália promoveu nesta sexta-feira um funeral de Estado para as vítimas de seu pior terremoto em três décadas, que deixou pela menos 289 mortos. Os sobreviventes expressavam revolta pelo fato de as casas terem simplesmente desabado.

Milhares de pessoas se reuniram diante de 205 féretros, muitos cobertos de flores e fotos dos mortos, dispostos em fileiras no pátio de desfiles de uma academia de polícia de L'Aquila.

Pequenos caixões brancos com os corpos de crianças foram colocados sobre os caixões de seus pais, alguns com um de seus brinquedos favoritos sobre o caixão. A vítima mais jovem era um menino de cinco meses de idade que morreu com sua mãe.

"O clima hoje é de muita tristeza, mas também de muita revolta", disse Piero Faro, que veio prestar condolências à amiga da família Paola Pugliesi, 65, que morreu com seu filho Giuseppe, 45. "O prédio em que eles viviam simplesmente se desintegrou. Isso não deveria ter acontecido."

Alguns dos presentes beijaram os caixões e foram confortados pelo primeiro-ministro Silvio Berlusconi, antes de uma missa católica oficiada pelo segundo mais alto clérigo do Vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone.

Em mensagem lida para os presentes, o papa Bento disse: "Eu me sinto espiritualmente presente entre vocês e compartilho sua dor."
Bandeiras foram hasteadas a meio-pau num dia de luto nacional, as lojas fecharam suas portas, os aeroportos suspenderam as decolagens para um minuto de silêncio, e os policiais do trânsito tiraram seus coletes coloridos.

Cinco dias após o terremoto, os serviços de resgate continuam a vasculhar os escombros. Nas últimas horas foram encontrados os corpos de uma mulher de 53 anos e sua filha adolescente nos escombros de sua casa.

Mas a agência de Proteção Civil informou que as buscas estão quase encerradas. Bombeiros acompanharam algumas pessoas a suas casas para recuperar objetos pessoais, enquanto policiais montavam guarda para prevenir saques.

  • Arte UOL

    Epicentro do terremoto que matou dezenas na Itália

A casa de Berlusconi
Em visita à cidade para participar do funeral oficial, Silvio Berlusconi, o primeiro-ministro bilionário da Itália, ofereceu abrigo em suas próprias residências a alguns dos milhares de desabrigados vítimas do terremoto.

"Vou fazer o que posso, oferecendo algumas de minhas casas", disse Berlusconi, chefe de governo italiano que na quarta-feira havia comparado a situação dos desabrigados a um acampamento de fim-de-semana.

Cerca de 17 mil sobreviventes estão abrigados em barracas em L'Aquila e em outras cidades na região de Abruzzo, centro da Itália. Milhares estão sendo colocados em hotéis ou encontraram abrigo com suas famílias.

As residências de Berlusconi incluem uma mansão em Arcore, próxima a Milão, casas de praia na Sardenha e em Portofino na Riviera, outra no lago Maggiore, um apartamento no centro de Roma e muito mais. A revista Forbes indica o primeiro-ministro como o segundo homem mais rico da Itália.

Ajuda internacional
Depois de anunciar que dispensava toda a ajuda internacional, Berlusconi propôs hoje ao presidente do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, que a Espanha assuma a restauração da "Fortaleza Espanhola", em L'Aquila.

"Seria lindo se Zapatero e seu Governo tomassem conta" do monumento, declarou Berlusconi durante sua visita ao centro de operações da Defesa Civil em L'Aquila, pouco antes de conceder uma entrevista coletiva com novos detalhes sobre a atual situação da catástrofe.

O primeiro-ministro da Itália considerou que, vistas as "generosas ofertas" recebidas de vários chefes de Estado e de Governo, "todos os países amigos poderiam tomar sob seus cuidados a restauração de uma igreja ou de um bem arquitetônico, talvez dando nome a eles".

A "Fortaleza Espanhola" é um dos monumentos que lembram a dominação espanhola sobre a cidade de L'Aquila no século 16.

Por sua vez, o chanceler alemão, Frank-Walter Steinmeier, ofereceu a seu colega italiano, Franco Frattini, ajuda econômica para a reconstrução da igreja de Onna, que ficou destruída devido ao terremoto em Abruzzo.

A igreja, que data do século 18, fica em Onna, vilarejo sob o qual esteve o epicentro do tremor, e que perdeu 40 de seus 250 habitantes.

Segundo informou hoje o Ministério de Exteriores, em sua conversa com seu colega italiano, Steinmeier renovou também a oferta de Berlim de participar da reconstrução da região afetada.

Cálculos do governo italiano estimam que a reconstrução das dezenas de milhares de casas destruídas custará cerca de 1,2 bilhão de euros.

*Com agências internacionais

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