Ahmadinejad tenta desfrutar da reputação do Brasil perante o mundo, diz professor

Fabiana Uchinaka Do UOL Notícias Em São Paulo


O polêmico presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e sua delegação de 110 pessoas chegam ao Brasil no próximo dia 6 (quarta-feira) para tentar se aproximar do grande líder da América do Sul e desfrutar do credenciamento que o governo Lula tem perante o resto do mundo. A análise é do professor de Relações Internacionais da PUC/SP, Reginaldo Nasser, especialista em políticas e conflitos internacionais.

Para Nasser, desde que o Irã se converteu em uma república islâmica, nos anos 70, e passou a ser visto como um Estado problema, que está fora da ordem mundial e que manifesta a intenção de seguir com um projeto de tecnologia nuclear, a mídia internacional passou a dar muito destaque para qualquer coisa que o país faça em suas relações exteriores.

Nesse sentido, a visita de Ahmadinejad ao Brasil ganha destaque, porque serve para mostrar ao mundo uma intenção de unir duas potências regionais e de obter apoio do Brasil em questões internacionais, especialmente nas discutidas na ONU (Organização das Nações Unidas).

O professor explica que o presidente do Irã precisa deste tipo de publicidade, porque vem sendo criticado dentro de seu país. "Ele não tem o apoio que alguns poderiam pensar. O Irã é um país dividido. Nesse momento, Ahmadinejad usa a tática do inimigo externo para conseguir apoio interno e tenta fazer uma política de proximidade com os chamados países da periferia, já que tem muitos problemas em relação à Europa e aos Estados Unidos", diz.

MAIS SOBRE O IRÃ

  • Arte UOL

    Nome oficial: República Islâmica do Irã
    Nacionalidade: iraniana
    Capital: Teerã
    População: 66,4 milhões (julho de 2009, est.)
    Expectativa de vida: 71,14 anos
    Divisão: 28 Províncias
    Línguas: persa (oficial), curdo, azeri, balúchi, árabe, armênio
    Religião: islâmica (xiitas)
    Moeda: rial iraniano
    Natureza do Estado: república islâmica



A velha tática do inimigo externo, ressalta Nasser, foi fortemente adotada durante o discurso que Ahmadinejad proferiu durante conferência da ONU sobre racismo. Na ocasião, ele acusou Israel de ter o "regime mais cruel e racista" e minimizou o Holocausto, enquanto diplomatas deixavam a sala em protesto.

"Ahmadinejad usa sua figura cativante e capaz de provocar paixões, seja de adesão ou de repúdio, para se manter no poder. E em momentos de crise interna, como agora, apela para a retórica. Ele é mais avaliado pelos discursos que faz do que pelas ações que toma. E o que ele faz? Ele vai a todo o momento na ferida, porque sabe que vai provocar e atingir em cheio. Foi o que aconteceu na conferência da ONU", analisa o professor.

Tal atitude, no entanto, não deve afetar as relações com o Brasil. Na opinião de Nasser, o governo brasileiro não tomou partido, apesar de ter boas relações com Israel, mas deixou claro que diverge do Irã no encaminhamento de algumas questões envolvendo o Oriente Médio.

"É uma postura coerente. Da mesma forma que o Brasil se manifestaria contra uma eventual ação dos Estado Unidos no Irã, ele também não concorda com o Irã na questão nuclear e na questão de Israel. O Brasil tem status de um Estado que pode opinar de forma equilibrada em assuntos internacionais", afirma o especialista.

E é com o esse status que o governo brasileiro vai recepcionar Ahmadinejad. Não há uma intenção de se alinhar a Ahmadinejad, como fizeram os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, da Bolívia, Evo Morales, e do Equador, Rafael Correa.

"Os dois países têm um papel de liderança regional, são líderes no seu contexto e são ouvidos - ou deveriam ser ouvidos - em todo e qualquer processo de resolução de conflitos no Oriente Médio e na América do Sul. No caso do Irã, ele não é, mas deveria ser. Até o governo Obama já sinaliza essa necessidade", destaca o analista.

"O Irã hoje tem influência no Líbano, por seu apoio ao Hizbollah, na questão palestina, por ser o grande aliado do Hamas, e na política do Iraque, depois da guerra. Isso, somado à sua estabilidade econômica e política, faz dele uma potência regional e um fator muito importante em tudo o que diz respeito ao Oriente Médio. O Brasil, por sua vez, é um aliado histórico de países como o Irã, a Síria, a Jordânia e o Egito", completa.

Nasser também diz que uma visita política sempre acaba resultando em parcerias econômicas e isso deve acontecer entre Brasil e Irã.

Segundo disse ao UOL Notícias o embaixador brasileiro em Teerã, Antônio Salgado, em 2007, o Brasil exportou mais de US$ 1,7 bilhão ao Irã, principalmente em minérios, cereais e veículos. Já o volume de produtos iranianos importados pelo Brasil é menor, pois consiste basicamente em tapetes e pistache.

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