O mais difícil não é acabar com a guerra, é ajudar as vítimas, diz brasileiro que cuida de campo de refugiados no Sri Lanka

Thiago Varella
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Há seis meses, Vavuniya, cidade ao norte do Sri Lanka, tinha o governo dividido entre cingaleses e a guerrilha Tigres de Libertação da Pátria Tâmil (LTTE, em inglês). Agora, após o presidente do Sri Lanka, Mahinda Rajapaksa, declarar aniquilação do exército rival e o fim do conflito de mais de 25 anos, a cidade está tomada por refugiados tâmeis. E cabe a um brasileiro assegurar a organização do campo de refugiados da ONU em Vavuniya: o carioca Gerson Brandão, 36 anos.
  • Gerson Brandão visita barraca de refugiados no campo de Vavuniya, norte do Sri Lanka


Mesmo com a experiência de quem vive no Sri Lanka desde 2006 e já presenciou atrocidades no Congo, Brandão está preocupado. Ele sabe que o propagado fim da guerra não dá garantias nenhuma de paz no país.

"O mais difícil não é acabar com a guerra. O desafio maior é poder assistir todas as vítimas do conflito", afirmou ao UOL Notícias.

Saiba mais sobre o Sri Lanka

  • UOL Mapas

    População: 21.324.791
    Área: 65.610 km²
    Composição étnica: 82% cingalês; 8,2% tâmil; 7,7% árabe; outras minorias


Cerca de 265 mil tâmeis que viviam em áreas controladas pela LTTE já vivem em campos de refugiados. O número pode subir para 300 mil, segundo o brasileiro.

O papel de Brandão no país é o de organizar os campos de refugiado com a infraestrutura necessária para viver. Escolas e templos estão sendo construídos ao lado das barracas, onde milhares de tâmeis se aglomeram.

"Temos de oferecer o mínimo necessário às pessoas que perderam tudo", explica o brasileiro.

Brandão conta que, nos últimos dois anos, algumas famílias tiveram de se deslocar mais de 15 vezes pelo país. Cada vez que o exército cingalês encurralava a LTTE, centenas de famílias tâmeis fugiam para outra região. Com isso, suas posses se restringem à roupa do corpo.

"O governo sempre diz que consegue distinguir 'tigres' de tâmeis, mas nós sabemos a discriminação que esta etnia sofre no resto do país. Resta ao governo fazer um processo amplo de reconciliação", diz Brandão.

Não há previsão de quando os tâmeis poderão voltar a viver em suas casas, em seu território. O governo do Sri Lanka, com ajuda da ONU, irá retirar todas as minas terrestres espalhadas pelo país.

Além disso, ninguém garante que a morte dos líderes do LTTE colocou realmente um ponto final no conflito. "Esse é o maior ponto de interrogação que temos no momento", conta Brandão.

Enquanto o sul, cingalês, comemora o fim do conflito pelas ruas, o norte, tâmil, está assustado. O medo é reflexo da morte de quase 100 mil pessoas durante os mais de 25 anos de guerra, nos quais os direitos humanos foram constantemente violados. A ONU e a União Europeia estão pedindo a instauração de uma comissão internacional de inquérito para investigar possíveis crimes de guerra.

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