OEA readmite Cuba no grupo, após 47 anos de expulsão

Do UOL Notícias* Em São Paulo

Atualizada às 17h57

A Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovou por consenso nesta quarta-feira a readmissão de Cuba no grupo, revogando a expulsão da ilha comunista realizada em 1962 por pressão dos Estados Unidos, no cenário da Guerra Fria.

Reunião da OEA aprova retorno de Cuba

  • EFE

    A chanceler de honduras, Patricia Rodas (centro), fala durante o último dia da 39ª Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos, em San Pedro Sula (Honduras)

Os chanceleres do grupo de trabalho instituído para debater a questão cubana apresentaram a proposta de readmitir Cuba na OEA à chanceler hondurenha, Patrícia Rodas, que preside a 39ª Assembleia Geral da organização. Em seguida, a proposta foi ratificada por aclamação pelos países presentes.

Leia íntegra da resolução que revogou a suspensão de Cuba à OEA

"Hoje demos um passo histórico", disse Ruy de Lima Casaes e Silva, embaixador brasileiro na OEA. "Enterramos o cadáver insepulto que era um obstáculo para um sistema interamericano inclusivo e solidário."

Para o presidente de Honduras, Manuel Zelaya, a medida corrige um "erro histórico". "Todos os Estados têm o direito de eleger, sem ingerência externa, seus sistema político, econômico e social", afirmou Zelaya, logo após a leitura da resolução. "A Guerra Fria terminou hoje, aqui em San Pedro Sula. O erro cometido não poderia ser eterno."

O ministro das Relações Exteriores do Equador, Fander Falconí, também comemorou a decisão. "Já foi aprovada neste momento por todos os chanceleres, por consenso. Essa é uma notícia muito boa, reflete a mudança de época que se está vivendo na América Latina", disse Falconí.

O ministro equatoriano disse que se chegou "a um consenso sobre um texto que não impõe condições" para a reincorporação de Havana.

"Muitos de nós não tinham nascido naquele momento [em que a expulsão foi decidida] e o que esta geração está fazendo é basicamente emendar a história, e aqui temos um desafio de construir uma história diferente", acrescentou.

Sem Hillary Clinton
A decisão surpreendeu as expectativas dos chanceleres reunidos em San Pedro Sula, no nordeste de Honduras. Mais cedo, o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, havia admitido que um acordo entre os países neste momento seria "um milagre".

Ontem, chanceleres do grupo de trabalho se reuniram por mais de seis horas, sem chegar a acordo. Enquanto diversos países pressionavam para uma readmissão incondicional, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, defendia a inclusão da ilha mediante um compromisso cubano por reformas democráticas e maior respeito aos direitos humanos.

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Hillary Clinton, no entanto, deixou Honduras antes do voto final, anunciando que a organização não tinha conseguido alcançar um consenso sobre a questão. As reuniões tomaram tanto tempo que ela não teria tido tempo sequer para ler sua declaração, preparada antecipadamente, antes de embarcar para o Egito para se encontrar com Barack Obama.

A decisão de hoje estabelece um mecanismo para que Cuba seja reincorporada caso manifeste vontade, explicou um diplomata entrevistado pela agência AP. Contudo, Havana já declarou em repetidas ocasiões não ter interesse em retornar ao que chama de "instrumento dos Estados Unidos".

O ex-presidente cubano Fidel Castro escreveu no jornal oficial cubano de hoje que a OEA não deveria existir e que "abriu as portas ao cavalo de troia [dos Estados]", cujo objetivo seria destruir a América Latina.

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47 anos depois
Os Estados Unidos conseguiram a expulsão de Cuba da OEA em 1962, em um momento no qual Havana se aproximava do bloco socialista soviético. Contudo, nos últimos anos, todos os governos americanos restabeleceram contato com a ilha, com exceção de Washington.

O status de membro garante voz em discussões de diversos acordos regionais mediados pela OEA, que também é responsável por políticas de saúde e defesa dos direitos humanos no continente. Nos últimos anos, governos de esquerda da América Latina defenderam a formação de um grupo regional alternativo à OEA, sem a presença dos EUA, por considerarem que este país é uma força heterogênea dentro da América, com interesses e preocupações diferentes dos demais países, ditos latinos.

Por sua vez, a administração de Obama espera que as recentes aberturas concedidas a Cuba possam amenizar os ressentimentos com relação à longa política de isolamento da Havana promovida por Washington. Recentemente, o governo cubano aceitou o convite dos EUA para retomar as negociações sobre assuntos migratórios e estabelecer um sistema de correio direto entre este país e a ilha.

Em uma coletiva de imprensa, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, deixou claro que a aproximação de Obama ainda não é o bastante para superar as décadas de políticas conservadoras com os demais países do continente. "O presidente mudou, mas a política norte-americana não", declarou o líder sandinista.

*Com informações da AP, da EFE e BBC

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