Sátira de "Big Brother" vira antipropaganda política às vésperas das eleições na Argentina

Thiago Varella
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Nem os piquetes na praça de Mayo, muito menos os jornais lidos nos cafés de Buenos Aires. O grande fator de influência das eleições legislativas de 28 de junho na Argentina pode ser um programa de humor da televisão. Uma pesquisa divulgada esta semana pelo instituto Ibarometro mostra que 15,5% dos entrevistados acredita que o quadro satírico "Gran Cuñado" vai influenciar no voto pessoal para as eleições legislativas.
  • Reuters

    Os atores Martin Bossi (esq.) e Freddy Villarreal imitam Cristina e Néstor Kirchner


O "Gran Cuñado", que está na quinta edição no programa de maior audiência do horário nobre argentino, é uma paródia do Big Brother que reúne humoristas que imitam os 19 políticos mais importantes da Argentina e é visto por mais de 3 milhões de pessoas.

O quadro acontece no "Showmatch", um programa diário de variedades - uma espécie de Domingão do Faustão mais picante e debochado - comandado pelo influente Marcelo Tinelli, no canal 13, do grupo Clarín, que edita o principal jornal do país.

O povo decide por telefone, toda semana, o político que sai da casa. Há para todos os gostos: o ex-presidente Néstor Kirchner, o vice-presidente Julio Cobos, o prefeito de Buenos Aires e ex-presidente do Boca Juniors Mauricio Macri, o empresário oposicionista Francisco de Narváez, entre outros. Mas a principal figura é a da presidente Cristina Kirchner, interpretada pelo humorista Martín Bossi.

Veja trecho da participação de 'Cristina' e 'Néstor Kirchner' em Gran Cuñado



O "sucesso" de frases como "hasta la victoria, secret" (um trocadilho com a frase de Che Guevara, "hasta la victoria, siempre", e a famosa marca de lingerie Victoria Secret), de suas caras e bocas e do jeito perua da personagem deixou o governo irritado. O ministro da Justiça, Aníbal Fernández, pediu durante uma entrevista que o Gran Cuñado "deixasse um pouco Cristina de lado". Em vão, ela segue como o maior sucesso do programa.

Roteirista vê intimidação
"Houve uma ameaça direta a mim. Mas faço humor político há 20 anos, nas revistas e nos jornais. Procuro acreditar que as ameaças não vêm diretamente do governo. Por isso não dou valor", conta o cartunista Nik, um dos roteiristas do programa, ao UOL Notícias.

Cristina faz sucesso enquanto personagem do programa, mas na vida real, fora da tela de TV, a situação é outra. "Nem se a gente tentasse o programa conseguiria arranhar ainda mais a imagem dos Kirchner. Humorista nenhum consegue fazer mais do que eles mesmos fizeram para afetar a própria imagem", provoca Nik. A pesquisa do instituto Ibarometro mostra que 16% da população de Buenos Aires acreditam que Cristina é a personalidade política mais prejudicada pelo "Gran Cuñado".

Para Pablo Lopez Fiorito, diretor de projetos da Ibarometro, o resultado da pesquisa não significa muito. "É apenas uma pesquisa. Vários outros fatores vão influenciar as eleições", diz.

"Não é nossa intenção prejudicar ninguém. Queremos representar todos de maneira igual. Mas é difícil saber se o programa irá influenciar alguém na hora do voto", afirma Nik. "Mas a população está com raiva dos Kirchner, isso sim vai influenciar", completa.

Nik justifica o programa como sendo uma ferramenta que apenas mostra como os políticos estão sem credibilidade no país. "Humor político é satírico. Não dá pra fazer humor político em favor de alguém. Mas o político argentino já tem uma imagem ruim perante a sociedade por natureza", diz.

Menem propõe chapa com a falsa Kirchner
O certo é que os políticos da Argentina já percebem o poder do "Gran Cuñado". Muitos citam o episódio do ex-presidente argentino Fernando de la Rua (1999 - 2001). Dizem que o programa ajudou na queda do ex-presidente, sempre retratado como um velho tolo com constantes lapsos de memória em uma edição anterior do "Gran Cuñado".

Este ano, o ex-presidente Carlos Menem tentou capitalizar com o programa. O atual senador pela província de La Rioja afirmou em visita à casa do "Gran Cuñado" que será candidato à presidência da Argentina em 2011. Sentindo-se à vontade, Menem chegou a convidar a falsa Cristina Kirchner para compor a chapa.

Até mesmo o verdadeiro Néstor Kirchner já deu indícios que poderia fazer uma visita ao "Gran Cuñado". Sergio Massa, chefe do gabinete de Cristina, disse que o ex-presidente participaria se não tivesse de encontrar a versão falsa da mulher.

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