Argentina deve ser o sócio privilegiado do Brasil, diz candidato opositor de Kirchner

Márcio Resende Especial para o UOL Notícias Em Buenos Aires

O empresário Francisco de Narváez é o principal candidato que pode derrotar o ex-presidente Néstor Kirchner nas eleições legislativas na Argentina, que acontecem neste domingo (28). "El Colorado" (apelido que Narváez ganhou devido ao seu cabelo loiro e à tatuagem no pescoço de uma cobra do horóscopo chinês) sabe que grande parte dos seus votos é por ódio a Kirchner e que o peronismo encontrou nele a forma mais fácil de derrotar o ex-presidente.

Colombiano de nascimento (fato que o impede de almejar a Presidência do país) e dono de meios de comunicação, entre outras empresas, Francisco de Narváez, 55, é o primeiro que pode acabar com o plano de continuidade dos Kirchner e arrebatar o controle do Partido Justicialista (peronista) ainda comandado por Néstor Kirchner, cada vez mais isolado pelos ex-aliados, que sentem que o poder mudou de direção.

Em 2005, o empresário Francisco de Narváez entrava para a política como deputado nacional e poucos traçavam-lhe um destino como este em tão pouco tempo. O playboy das colunas sociais e herdeiro de uma fortuna estimada em US$ 200 milhões (Narváez declara que seu patrimônio pessoal não passa de 10% disso) tem gasto cerca de US$ 15 milhões, segundo a imprensa argentina, para enfrentar a máquina estatal comandada pelos Kirchner.

Nesta entrevista ao UOL Notícias, Narváez sobre a importância de frear o kirchnerismo na Argentina, o futuro do peronismo e a relação de seu país com o Brasil.

UOL Notícias - Por que o senhor acredita que estas eleições podem ser consideradas cruciais?
Francisco de Narváez -
O que se disputa é se os erros do kirchnerismo serão pagos com uma crise e com cinco milhões de argentinos de volta à condição de pobreza ou se vamos pôr um freio a um governo autoritário. A boa notícia para a Argentina e para o mundo é que Kirchner não terá o controle do Parlamento. A oposição unida em temas de consenso terá quorum próprio e poderá impedir que nestes cinco meses perigosos [os novos legisladores assumirão em dezembro] sejam impulsionadas leis contra a propriedade privada e contra a liberdade de expressão. Se o governo não aceitar o diálogo, haverá confronto.

UOL Notícias - Por que o kirchnerismo deve ser freado?
Narváez -
O modelo kirchnerista é um modelo de arrecadação e de extorsão de vontades. Arrecada muito dinheiro e com isso condiciona a sociedade. Enquanto a sociedade vem de uma crise anterior, aceita o autoritarismo. Mas quando entra num processo de ajuste, as pessoas começam a questionar. E o governo, em vez de reconsiderar as suas políticas públicas e de corrigir erros, duplica a sua posição. Graças a Deus, temos uma eleição no meio do mandato para poder evitar que essa condição de autoritarismo leve a Argentina a uma nova crise.

UOL Notícias - Como o peronismo dissidente que o senhor representa pode ser considerado oposição ao peronismo kirchnerista?
Narváez -
Kirchner simboliza o que devemos superar. Mas não se trata de Néstor Kirchner, e sim de uma forma de governar com improvisações, sem planejamento, governar para os amigos, para o curto prazo. O processo de reestatização termina sempre nas mãos de amigos do governo. Isso é uma fonte imensa de ineficiência e de corrupção. O governo é um dos mais corruptos dos últimos 25 anos de democracia na Argentina. Kirchner representa o kirchnerismo, e eu represento o peronismo do futuro.

Surrealismo, uma marca das eleições legislativas argentinas



UOL Notícias - Como o peronismo do futuro mudaria a Argentina de hoje?
Narváez -
Deve haver uma convocação de participação a todas as forças políticas, deve haver um modelo de país que coloque a Argentina no mundo inteligentemente. O kirchnerismo pensa em fechar a economia, pensa em alinhar-se ao eixo Venezuela-Equador-Bolívia e até Irã. Pessoalmente, sou contra a incorporação da Venezuela ao Mercosul. É contrária à política de países como Brasil e como deveria ser a da Argentina. A Venezuela no Mercosul abriria uma ambivalência muito difícil de ser sustentada.

UOL Notícias - E qual o exemplo a ser seguido?
Narváez -
Particularmente, eu acredito que a Argentina tem um destino natural com respeito ao Mercosul e, dentro do Mercosul, com o Brasil. Claramente, o Brasil é hoje uma economia de categoria mundial por vários acertos que teve nos últimos 20 anos. A Argentina tem que se transformar no sócio estratégico e privilegiado do Brasil. Essa é uma estratégia de política internacional em termos do destino que vejo para a Argentina pelos próximos 20 anos. Em vez de brigar para ver quem tem uma história mais frutífera, a Argentina tem que ir à Brasília, ao Itamaraty, sentar-se com o governo brasileiro e combinar: "Como os senhores vão fazer pelos próximos 20 anos? Como nós vamos fazer e construir uma aliança estratégica no tempo?" Se o Brasil fosse os Estados Unidos, eu desejo que a Argentina seja o Canadá dos Estados Unidos. Isto não é perder um milímetro os nossos direitos. É simplesmente atuar inteligentemente no mundo.

UOL Notícias - Qual é o seu plano para tentar mudar a Argentina?
Narváez -
A principal reforma institucional e constitucional que a Argentina tem pela frente é cumprir a lei. Isso é novidade para o mundo. Nós temos engenho para violar sistematicamente as leis. Temos que voltar a ser um país crível. O meu papel em tudo isso é defender o bom senso. Não temos uma fórmula. O nosso plano é voltar à normalidade. Basta de loucura kirchnerista. Queremos estar entre os paises normais e previsíveis do mundo. É essa sensatez que eu acho que está em disputa nessas eleições.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos