Missões de captura de terroristas eram como atacar uma mosca com bazuca, diz brasileiro que lutou no Iraque

Edilson Saçashima Do UOL Notícias Em São Paulo

A partir da próxima terça-feira (30), os EUA começam a retirada de suas tropas das cidades do Iraque, iniciando assim o fim de uma guerra que provocou polêmica em todo o mundo e produziu cenas como a de um jornalista lançando um sapato em direção ao então presidente George W. Bush. Em meio aos conflitos, estava um brasileiro. Fernando Rodrigues, 28 anos, foi marine dos EUA e participou de duas campanhas no Iraque (de fevereiro de 2007 ao final de setembro 2007 e de julho 2008 a fevereiro 2009). Nesta entrevista ao UOL Notícias, Rodrigues conta como foi sua experiência no Oriente Médio, da sua experiência em missões de captura de terroristas e dos momentos de tensão como soldado dos EUA no território iraquiano.

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UOL Notícias - Quando foi convocado para servir no Iraque? Qual foi a sua reação?
Fernando Rodrigues -
Nós não fomos convocados, desde o ínicio das operações de guerra global contra o terrorismo, (no Afeganistão, em 2001, e no Iraque, em 2003) os "infantry marines" já caem na frota sabendo para onde vão e quando. Ainda no campo de treinamento de recrutas de Parris Island todos os marines com contratos de "infantry" já sabiam obviamente que iriam ou para o Iraque ou para o Afeganistão. É que nem o policial que é aceito num grupo de elite como o Bope do Rio de Janeiro. É apenas uma questão de tempo até que você esteja em operação contra o inimigo. No caso do Bope, o inimigo é o crime e o tráfico de drogas, no caso dos marines, são os terroristas radicais islâmicos.
  • Alexander Nemenov/AFP - 11.out.2007

    "A vida de infantaria pesa no corpo ao passar dos anos; o corpo reclama dos abusos físicos"


É algo tão óbvio quanto o cirurgião em treinamento pensando se um dia irá operar algum paciente. Portanto, minha reação foi natural, eu estava ali para servir, preferencialmente em missão de paz, mas como não escolhemos as guerras que participamos (políticos escolhem isso para nós) fazemos o que é necessário no momento, nunca esquecendo que agimos como diplomatas armados pelos Estados Unidos e o mundo ocidental. Cada ação sua pode provocar grandes reações no mundo árabe e isso lhe dá grande responsabilidade, pois você carrega a reputação de todo o Corpo de Fuzileiros que existe desde 10 de novembro de 1775. Eu representava minha unidade. Meu maior medo era errar em alguma situação e que isto trouxesse desonra à mim, aos marines, aos Estados Unidos, ao Brasil (afinal, também sou cidadão brasileiro) e à minha família. Queria fazer um bom trabalho e deixar um Iraque melhor do que encontrei, mesmo que sob meu o ponto de vista particular.

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  • Arquivo pessoal

    Fernando Rodrigues participou de duas campanhas militares como marine dos EUA no Iraque



UOL Notícias - Que missões você fez no Iraque? Quais foram as piores situações que enfrentou no Iraque?
Fernando Rodrigues -
As missões numa campanha como a que vivenciamos no Iraque era a "contra-insurgência", um conflito de baixa intensidade de guerrilha, em que o inimigo (os terroristas) estão ocultos na sociedade e raramente aparecem para lutar. Normalmente, para preservarem suas vidas optam por usar bombas e artefatos explosivos para causar terror e baixas, sejam elas civis ou militares, tanto para americanos como iraquianos que cooperassem com o governo nacional ou coalizão.

Nessa guerra, 60% do tempo dos marines é usado para trabalho braçal relacionadas a bases avançadas (no meio do deserto em locais estratégicos). Você passa a maior parte do tempo queimando lixo e excremento humano (obviamente sem encanação), organizando a logística (helicópteros regularmente traziam pilhas de garrafas de àgua e rações militares). Mais importante, somos responsáveis pela segurança da base, tendo 24 horas por dia ao menos um "Marine Rifle Squad" (grupo de até 13 marines) fazendo guarda, enchendo sacos de areia e comunicando por radio qualquer ocorrência relevante à segurança ao Centro de Operações de Combate; 30% do tempo é usado para patrulhas que fazem checkpoints checando identidades e revistando veículos locais, negando ao inimigo a liberdade de movimentar artefatos explosivos ou armas, procurando arsenais escondidos pelos terroristas, procurando bombas em estradas e pontos de maior trânsito; 5% é usado para operações de ajuda humanitária, incluindo distribuição de comida, cestas básicas, livros escolares, verbas para infraestrutura etc. E os últimos 5% é o momento mais sinistro, quando o setor de Inteligência acha o paradeiro de "HVTs" (High Value Targets, os terroristas mais procurados) e ali montávamos "raids" (buscas de alto risco) para aprender (preferencialmente) ou eliminar (se não tivesse outra alternativa) o terrorista em questão.

Meu maior medo era errar em alguma situação e que isto trouxesse desonra à mim, aos marines, aos Estados Unidos, ao Brasil e à minha família



UOL Notícias - Como era a rotina no Iraque?
Fernando Rodrigues -
A batalha de Fallujah (novembro de 2004) foi a última vez que os terroristas entraram em combate convencional (aparecem para lutar em combate contínuo, ao invés de se esconderem na população e botarem bombas nas estradas que usamos) e sofreram mais de mil baixas devido à ação dos marines que participaram da retomada da cidade. A partir dali, era esse jogo de gato e rato, que é muito cansativo. No segundo dia que estávamos no Iraque em 2007, um terrorista suicida detonou seu carro bomba num checkpoint de outro pelotão da minha companhia ferindo alguns marines. Atravessamos o deserto para a região à margem leste do rio Eufrates a 80 km à noroeste de Bagdá. Essa região não tinha presença de tropas da coalizão havia dois anos, e lá montamos uma base improvisada no meio de uma montanha no deserto. Achamos ao todo mais de sete toneladas de armas e explosivos escondidos, e, com auxílio do pelotão antibombas, desarmamos bombas nas estradas e conduzimos muitas atividades humanitárias às aldeias locais, auxiliando à polícia e exército iraquiano a manter a segurança da região.

Eu estava num HMMWV (ou Hummvee, que significa High Mobility Multi Purpose Wheeled Vehicle. Os militares amam siglas, conforme você pode constar, é o nome do "jipe" blindado que em conjunto com outros veículos como o MRAP, é usado para patrulhas) que capotou montanha abaixo quando procurávamos o melhor local para construir nossa base. Não sofremos ferimentos... E mais importante para a vitória, dos dez terroristas mais procurados da região, o batalhão capturou oito e eliminou os últimos dois, sendo quatro desses capturados pelo meu pelotão. O pelotão de snipers eliminou os últimos dois, enquanto botavam bombas nas estradas.

UOL Notícias - Você participou da captura de terroristas? Como eram essas missões?
Fernando Rodrigues -
Essas missões eram os mais minuciosos planos de ataque no meio da madrugada, às vezes, para os terroristas mais violentos eram usados uns 30 marines com suporte aéreo (helicópteros de ataque AH-1 Cobras e às vezes aeronaves de asa fixa, como F/A-18 Hornet ou o que estivesse disponível). Sendo nosso pelotão o de armamento pesado (Weapons Company) com metralhadoras M2HB .50 Cal e o Mk.19 40mm Automatic Grenade Launcher (que destroi um caminhão com um tiro ou um prédio com uma rajada), era o clássico ataque à mosca com a bazuca...

Nessa guerra, 60% do tempo dos marines é usado para trabalho braçal relacionadas a bases avançadas. Você passa a maior parte do tempo queimando lixo e excremento humano, organizando a logística



Esse poder de fogo e agressividade nos deu a vantagem de tirar qualquer defesa dos terroristas, que foram capturados em maior parte vivos e sem ferimentos. Depois disso, o mais bizarro: o transporte dos terroristas de volta à base e a guarda desses indivíduos, feita pelo pelotão de captura (nós) até que as forças iraquianas viessem buscá-lo para que este fosse julgado pelo processo penal iraquiano, como um criminoso.

Como tudo era improvisado na nossa base no meio do nada, a "prisão" de detentos era um contêiner de madeira com grade de arame, sem fechadura. Você sentava com o fuzil em uma cadeira na frente, guardando normalmente um a três detentos. Se eles tentassem fugir, força letal estava autorizada. Mas tudo correu bem, e eles ficaram quietinhos e comportados, enquanto nós, profissionais, zelávamos também pela segurança e integridade física dos detentos.

UOL Notícias - Durante a missão no Iraque, quais foram os momentos mais tensos para um soldado dos EUA?
Fernando Rodrigues -
Os momentos mais tensos em termos de perigo foram na primeira campanha (2007), pois driblávamos bombas nas estradas e quando respondíamos à ataques com bomba à outras unidades. Vimos alguns marines que não eram "infantry" (eles eram mecânicos ou faziam o transporte de suprimentos) que teimavam em sair das linhas amigas sem escolta de infantaria e volta e meia eram atingidos por alguma bomba bem escondida nas estradas. Nós éramos treinados para isso e era nosso feijão com arroz. Em duas ocasiões houve feridos e mortos que fomos resgatar. O impacto de chegar em uma cena assim com feridos ou corpos carbonizados no chão, ter que juntar um pedaço humano carbonizado, que há pouco era uma pessoa falando, andando e pensando, é algo que mexe com você.

Como tudo era improvisado na nossa base no meio do nada, a "prisão" de detentos era um contêiner de madeira com grade de arame, sem fechadura. Você sentava com o fuzil em uma cadeira na frente, guardando normalmente um a três detentos



UOL Notícias - Você sofreu algum ferimento?
Fernando Rodrigues -
Não sofri nenhum ferimento no meu serviço. Logicamente a vida de infantaria pesa no corpo ao passar dos anos: as costas, o joelho... o corpo todo reclama dos abusos físicos, das temperaturas exóticas (calor infernal no verão e frio abaixo de zero no inverno), muitos tiros de metralhadoras pesadas, não é o melhor para a audição. Para quaisquer fins, não sofri nenhum ferimento no Iraque e tenho profundo respeito pelos verdadeiros heróis, os que perderam amigos, derramaram seu sangue ou por lá deram tudo sem pedir nada em troca, em prol da liberdade contra o terrorismo.

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