Os dois lados cometeram um golpe em Honduras, diz analista

Silvana Salles Do UOL Notícias* Em São Paulo

Tanto o líder do governo interino de Honduras, Roberto Micheletti, quanto o presidente deposto Manuel Zelaya cometeram excessos que podem ser considerados golpes. De um lado, a coalização liderada por Micheletti expulsou um cidadão hondurenho de seu país, em uma manobra para tirá-lo da presidência. Por outro, Zelaya tentava promover um referendo para votar a criação de uma Constituinte que lhe daria a possibilidade de concorrer à reeleição, passando por cima do Congresso e da Justiça. A opinião é do pesquisador Alberto Pfeiffer, do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da USP (Universidade de São Paulo).

"Golpe é um nome coloquial. Um golpe é uma operação brusca de um determinado movimento em busca do poder. O ato de sacar o presidente do poder pode ser visto como um golpe contra uma instância democrática. Mas também pode ser vista como um golpe institucional a tentativa de Zelaya de realizar o referendo", disse Pfeiffer.

Segundo o pesquisador, a crise em Honduras é uma disputa de poder entre duas correntes políticas antagônicas. De um lado está o grupo de Manuel Zelaya, de tendência mais populista, e de outro está a ala da política tradicional, que defende a ordem das instituições republicanas.

"Micheletti é de um partido tradicional, do legislativo; representa essas instituições", explica o professor. "Os poderes legislativo e judiciário viram que o poder executivo de Zelaya tentava assumir atribuições constitucionais do jurídico e do legislativo, e isso levou ao golpe".

OEA perde com crise em Honduras
Para Pfeiffer, a crise hondurenha deve mudar pouca coisa no país, pois a instabilidade política já existia antes da deposição de Zelaya. "Mesmo que sejam feitas novas eleições agora, o clima de antagonismo vai existir", diz. Segundo o professor, quem sai perdendo com no plano internacional é a OEA (Organização dos Estados Americanos). "Ela instou de uma maneira muito firme a volta de Zelaya, e isso não aconteceu", disse.

Uma reunião na Costa Rica neste fim de semana entre Manuel Zelaya e o governo interino hondurenho terminou sem soluções para a disputa política. Óscar Arias, presidente costa-riquenho e mediador do encontro, havia sugerido o retorno imediato do presidente deposto ao poder, mas o governo liderado por Micheletti rejeitou enfaticamente a proposta. O governo interino somente aceita a volta de Zelaya a Honduras para julgamento pela suposta violação da Constituição ao tentar estender seu mandato presidencial.

Nesta segunda-feira (20), o secretário-geral do órgão, José Miguel Insulza, disse ser "quase impossível evitar (o confronto) ou pedir calma quando a ditadura pretende ficar no poder". A declaração foi feita à rádio Cooperativa, do Chile.

Fracassa o diálogo sobre crise política



Insulza disse também que o foco da OEA é impedir um conflito civil entre os hondurenhos, e criticou Micheletti por não se mostrar "disposto a restabelecer a legalidade e a constitucionalidade" no país.

Observadores temem que o aprofundamento do impasse possa gerar violência no país da América Central.

A OEA teme a explosão de uma guerra civil, e os Estados Unidos pedem à entidade e seus Estados-membros que apoiem os esforços de Arias para ajudar a encontrar uma solução para a crise.

Doris Gutiérrez, deputada do partido Unificação Democrática, disse à BBC que existe a possibilidade de o fracasso nas negociações do fim de semana acirrar ainda mais os ânimos dos hondurenhos.

"Poderia haver um enfrentamento entre a população, o que seria extremamente desastroso", afirmou ela.

Oscar deu 72 horas para que os dois lados do conflito flexibilizem suas posições, mas o presidente deposto deu hoje como "esgotado" o diálogo para resolver a crise.

Zelaya já anunciou que pretende retornar a Honduras no próximo fim de semana. Rivais políticos do presidente deposto já avisam que ele poderá ser preso caso insista em voltar ao país.

*Com informações de Efe, Reuters e BBC Brasil

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