OEA prepara tentativa de diálogo entre Micheletti e Zelaya para solucionar crise em Honduras

Do UOL Notícias* Em São Paulo

Em separado, o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, e o governo golpista de Roberto Micheletti, discutem a possibilidade de um diálogo com mediação da Organização dos Estados Americanos (OEA), ao mesmo tempo que crescem as críticas à suspensão das liberdades civis no país.

Que medidas o Brasil deveria adotar em relação ao presidente deposto?



O enviado do secretário-geral da OEA, o chileno John Biehl, que se reuniu na quarta-feira (30) com Zelaya na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, se encontrará nesta quinta-feira com Micheletti.

O diplomata chileno prepara a chegada a Tegucigalpa em 7 de outubro de uma missão de chanceleres da OEA, liderada pelo secretário-geral José Miguel Insulza, que poderia marcar oficialmente a abertura de uma mesa de negociação.

"Vemos em ambos os lados um desejo de um diálogo sério, de solucionar o problema. Honduras não merece o estado em que está. O grande desejo da comunidade internacional é que a democracia saia fortalecida dessa situação", disse Biehl.

Veja a cronologia da crise

  • Desde que foi eleito, em 2005, Manuel Zelaya se aproximou cada vez mais dos governos de esquerda da América Latina, promovendo políticas sociais no país. Ao mesmo tempo, seus críticos argumentam que Zelaya teria se tornado um fantoche do líder venezuelano Hugo Chávez e acabou sendo deposto porque estava promovendo uma tentativa ilegal de reformar a constituição



Após várias tentativas fracassadas de uma saída negociada do conflito, a delegação de chanceleres da OEA pretende acelerar um acordo que coloque um fim à crise institucional deflagrada com o golpe de Estado de 28 de junho.

Micheletti admite possibilidade de deixar o poder
O presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, assegurou que, se as instituições determinam que se deve restituir ao deposto Manuel Zelaya, imediatamente deixará o cargo e se queixou que há gente que está fazendo propostas "inauditas" para resolver a crise.

Em entrevista para a agência de notícias EFE, Micheletti assegurou que o estado de sítio em que se encontra o país não vai durar 45 dias e que alguns políticos se estão distanciando para "trazer água a seu moinho" perante as eleições de 29 de novembro.

"No momento em que a população, no momento no qual a Corte Suprema, no momento em que a Promotoria, no momento em que o Congresso diga que eu não devo seguir, eu imediatamente saco as fotografias que tenho aí e me vou para minha casa", disse Micheletti.

"Eu fui posto como presidente e me responsabilizam por tudo", acrescentou.

O homem que dirige Honduras desde que os militares expulsaram pela força do país e do poder a Manuel Zelaya no dia 28 de junho assegurou que se sente respaldado pelos partidos políticos.

"Eles são os responsáveis que eu esteja aqui. Não foram eles os que votaram no Congresso para que eu pudesse aceder a esta posição?", disse.

No entanto, Micheletti indicou que esses mesmos partidos políticos "possivelmente não estejam muito de acordo" com ele "porque têm aspirações de atrair todos os eleitores do país".

Justificou o estado de sítio em que Zelaya "estava chamando à insurreição à guerra de guerrilhas, ao pleito, às armas, que se pode considerar um chamado de sedição em um país" e imediatamente assegurou que "não vai durar 45 dias, vão se restituir as garantias o mais breve possível".

"Sexta-feira possivelmente chamamos ao Conselho de Ministros e entre todos decidiremos qual é a situação que vamos viver, a decisão será tomada na sexta-feira", anunciou menos de uma semana após ditar o decreto.

No entanto, Micheletti manteve que a decisão "em nenhum momento se fez precipitada".

Manifestou que entende as queixas dos setores políticos pelo estado de sítio, mas assinalou que o governo fez sua própria pesquisa entre a população "e 87%, 90% diz que está conforme com o que passou".

"Nós não tivemos nunca nenhum temor (...) sempre achamos que a chegada dele podia ser em qualquer momento", respondeu ao ser perguntado pelo retorno de Zelaya, com quem, afirmou, não tem "nenhuma inimizade pessoal" e compartilhou "amizade nas últimas épocas".

No entanto, afirmou que "o povo está sumamente preocupado com o retorno deste senhor".

Nesse sentido, indicou que as propostas que surgiram nos últimos dias, como a apresentada pelo empresário Adolfo Facussé - que prevê a reposição de Zelaya para passar a ser confinado em seu domicílio e o desdobramento de uma força multinacional - são "inauditas, não têm nenhum sentido verdadeiramente legal".

"Aqui se puderam confundir os sentimentos e começam logicamente estas ideias para que não haja derramamento de sangue", advertiu.

Insistiu, como em todo este tempo, em que Zelaya tem que apresentar-se nos tribunais para responder por acusações que se lhe acusam de caráter econômico e político.

"Se os tribunais o deixam em liberdade eu imediatamente saio daqui para que ele se instale", disse.

Raio-X de Honduras

  • UOL Arte

    Nome oficial: República de Honduras
    Capital: Tegucigalpa
    Divisão política: 18 Estados
    Línguas: espanhol, garifuna, dialetos ameríndios
    Religião: católica 97%, protestantes 3%
    Natureza do Estado: república presidencialista
    Independência: da Espanha, em 1821
    Área: 112.088 km²
    Fronteiras: com Guatemala (256 km), El Salvador (342 km), Nicarágua (922 km)
    População: 7.792.854 de pessoas
    Grupos étnicos: mestiços 90%, ameríndios 7%, negros 2%, brancos 1%
    Economia: segundo país mais pobre da América Central; dependente de exportação de café e banana; principal parceiro econômico é EUA
    Taxa de desemprego: 27,8%
    População abaixo da linha da pobreza: 50,7%



Declarou que acredita no Pacto de San José impulsionado pelo presidente costarriquenho, Óscar Arias, e que contempla a reposição no poder de Zelaya, mas assinalou que "também o diálogo de San José não vai dizer: os senhores têm que fazer isto".

Micheletti disse que quer "ser otimista" sobre a missão de chanceleres da Organização dos Estados Americanos que foi convidada ao país no próximo dia 7.

"Escutaremos o que tem a dizer os que preparam o palco e daí é que veremos o que se pode fazer para o diálogo, se há alguma mesa para o diálogo. Não acho que virão passear aqui para ver nossas caras, para brigar conosco de novo", continuou.

Na semana passada, o Conselho de Segurança da ONU se pronunciou contra os "atos de intimidação" do governo golpista hondurenho contra a Embaixada do Brasil.

"Quais atos de intimidação? Mantemos isolado (o lugar) de toda a população para que não haja absolutamente ninguém que possa chegar a agredí-los ou a insultá-los; eles estão tranquilos lá dentro", afirmou. Micheletti acrescentou que Zelaya está "usando o internet para todo tipo de coisas, inclusive para transmitir mensagens".

Zelaya ameaça ir aos tribunais
Em uma entrevista publicada hoje por um jornal uruguaio, o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, disse que está disposto a apresentar-se à Justiça para se defender das acusações que pesam contra si, de violação da Constituição de seu país.

Em uma conversa pelo telefone com o jornal "El Observador", Zelaya comentou também o papel dos Estados Unidos na crise hondurenha e assegurou que não acredita que o presidente interino Roberto Micheletti se arriscará a invadir a embaixada do Brasil em Tegucigalpa, onde está abrigado.

"Já repeti muitíssimas vezes, milhares de vezes: a solução desta crise passa pela minha restituição, pelo respeito à democracia", afirma Zelaya.

"Estou disposto a ir aos tribunais. Não me permitiram (depois do golpe de Estado, em 28 de junho), porque me tiraram do país. Estou disposto a responder às acusações contra mim. Não tenho problema com isso", disse Zelaya ao jornal. "Por isso voltei, porque sou inocente", acrescentou.

Zelaya se encontra desde 21 de setembro na embaixada brasileira em Tegucigalpa com mais 50 pessoas, após ter entrado em Honduras clandestinamente.


*Com as agências internacionais

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos