Uruguai aponta tendência de ciclo de eleições sul-americanas

Maurício Savarese Enviado especial do UOL Notícias Em Montevidéu

Deste domingo (25), com a ida dos uruguaios às urnas, até 2011, a América do Sul vai decidir continua inclinada à esquerda ou se dá uma guinada para o centro, uma vez que o neoliberalismo no continente entrou em crise definitiva após as turbulências econômicas instaladas nos países desenvolvidos desde setembro do ano passado. Na república cisplatina, os dois modelos se enfrentarão personificados no ex-guerrilheiro José "Pepe" Mujica, favorito para vencer, e o ex-presidente conservador Luis Alberto Lacalle. O cenário mais provável é de um segundo turno entre eles.

Quem deveria vencer a eleição no Uruguai?

Ex-membro dos Tupamaros, grupo que usou assaltos e sequestros para combater a ditadura do Uruguai na década de 1970, Mujica, da Frente Ampla, é considerado mais à esquerda do presidente Tabaré Vázquez. O atual mandatário tem aprovação popular de mais de 60% e que foi o primeiro a romper o domínio dos partidos Blanco (centro-direita) e Colorado (centro), existentes desde a separação do Uruguai do Brasil em 1828. O socialista tem cerca de 45% das intenções de voto e pode vencer no primeiro turno. Se houver segunda votação, é o favorito para vencer, mas nas últimas semanas Lacalle, com 35% do eleitorado, reduziu a diferença.

Tendências na América do Sul


"A eleição do Uruguai vai ser uma boa referência sobre se a onda de esquerda da América do Sul está perto de passar, como passou a da Europa, ou se continua com força", afirmou ao UOL Notícias o cientista político Adolfo Garcé, professor da Universidade da República. "No Chile há possibilidade de um projeto que seria mais de direita, mas o clima ficou tão contra qualquer tentativa mais neoliberal que mesmo que a esquerda perca lá só parece possível um projeto mais de centro. Por isso acho desde o início de que a Frente vai ganhar, independentemente do candidato, mas o percentual que terá o vencedor pode ser referência do que o povo pensa."

No início da campanha, há um ano, Mujica era visto como um aliado do presidente venezuelano, Hugo Chávez e mais distante do atual presidente uruguaio, o esquerdista Tabaré Vázquez, também da Frente Ampla e que conta com 60% de aprovação. Pesquisas de opinião e críticas dos adversários acabaram afastando-no do polêmco mandatário e aproximando suas posições das do brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, tido na região como moderado e contrapeso à influência dos governos adeptos do dito "socialismo do século 21".

Próximos capítulos
Depois do Uruguai, a Bolívia realiza eleições, em 6 de dezembro. O presidente Evo Morales concorrerá ao segundo mandato e, de acordo com pesquisas, supera os 50% das intenções de voto, podendo estar mais de 30 pontos percentuais à frente dos adversários Manfred Reyes Villa (direita) e Samuel Doria Medina (centro-direita). O sistema eleitoral boliviano é de vitória por maioria simples, mas não há garantia de que o segundo mandato do líder indígena, se confirmado, aprofunde o estado de mudanças, uma vez que a nova Constituição do país já foi aprovada.

No Chile, em 11 de dezembro, será realizado o primeiro turno da votação que opõe o candidato da coalizão de centro-esquerda Concertación, o democrata-cristão e ex-presidente Eduardo Frei, o empresário liberal Sebastián Piñera e o esquerdista independente Marco Enríquez-Ominami. Frei e Piñera aparecem empatados na disputa de um provável segundo turno em janeiro de 2010, apesar do apoio da popular presidente Michelle Bachelet ao candidato do grupo governista. Especialistas creem que Ominami ainda pode surpreender e ir à votação decisiva com Piñera.

Quatro meses depois da decisão do Chile, em maio, a Colômbia votará. Os analistas locais dizem que se o atual presidente, o conservador Álvaro Uribe, não tentar a re-reeleição - uma decisão que depende da Justiça -, a esquerda tem mais chances de ocupar o poder, embora os principais candidatos sejam ex-ministros, como Juan Manuel Santos (Defesa). O mandatário tem índice de popularidade que beira os 70%. Os principais partidos oposicionistas do Partido da União (também chamado de Partido do Uribe), o Liberal e Pólo Democrático Alternativo, prometeram boicotar o referendo que permitiria a ele disputar seu terceiro mandato.

Em outubro, o Brasil vai às urnas para decidir o sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Todas as pré-candidaturas, como ele mesmo já disse, são de centro-esquerda: estão no páreo a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT); os governadores paulista, José Serra, e mineiro, Aécio Neves, ambos do PSDB; o deputado federal Ciro Gomes (PSB) e a senadora Marina Silva (PV). Nas pesquisas mais recentes, Serra lidera, mas sua vantagem vem diminuindo desde o início do ano. Sem ele e com Aécio na corrida presidencial, Ciro aparece em 1º lugar.

No Peru, em abril de 2011, o presidente que tem o menor índice de popularidade na América do Sul, Alan Garcia, será substituído. "Esse é o país onde há mais chance de uma reviravolta à esquerda", disse o cientista político uruguaio Agustín Canzani. "O descontentamento, apesar do avanço econômico razoável, é muito grande e a esquerda chegou perto na outra vez com Ollanta Humala." O esquerdista e ex-militar deve voltar a se candidatar. Como adversários, deve ter o ex-primeiro-ministro Yehude Simon, a deputada Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, e o prefeito de Lima, Luis Castañeda. Todos estão à direita de Humala.

Em dezembro de 2011, a Argentina elegerá o sucessor da presidente Cristina Fernández de Kirchner. O cenário ainda não está claro, mas há pré-candidatos com força eleitoral na centro-direita, como o prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, de centro, como o vice-presidente Julio Cobos, e na centro-esquerda, incluindo o ex-presidente Néstor Kirchner e seu maior aliado, Daniel Scioli.

A Venezuela do presidente Hugo Chávez, que pode se candidatar à reeleição indefinidamente, volta às urnas em 2012. O Equador, cujo mandatário é o também esquerdista Rafael Correa, tem votação prevista para 2013.

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