Em nota, FHC diz que "Lévi-Strauss foi um dos maiores antropólogos de todos os tempos"

Guilherme Balza e Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias*
Em São Paulo

Sociólogo e ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso divulgou na tarde desta terça-feira (3) uma nota sobre o falecimento do antropólogo Claude Lévi-Strauss. FHC formou-se em 1952 em Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (Universidade de São Paulo), mesma faculdade em que o antropólogo lecionou entre 1934 e 1939.
  • Nascido em Bruxelas, na Bélgica, Lévi-Strauss foi um dos grandes pensadores do século 20


"Lévi-Strauss foi um dos maiores antropólogos de todos os tempos. Suas contribuições, especialmente depois que publicou 'As Formas Elementares do Parentesco', revolucionaram a antropologia contemporânea. A partir de então, a corrente chamada 'estruturalista' passou a exercer enorme influência em todas as universidades", diz FHC na nota.

O antropólogo passou mais da metade de sua vida estudando o comportamento dos índios americanos. Ao método usado por ele para estudar a organização social dessas tribos deu-se o nome de estruturalismo. "Estruturalismo", diz Lévi-Strauss, "é a procura por harmonias inovadoras".

Lévi-Strauss morreu na noite de sábado para domingo (1º) aos 100 anos, de acordo com um porta-voz da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris, na França. Ainda não há informações sobre a causa da morte do antropólogo. O falecimento foi divulgado pela editora Plon.

Veja imagens de Lévi-Strauss

O ex-presidente não chegou a ser aluno de Lévi-Strauss, mas a sua mulher, Ruth Cardoso, o teve como professor no Museu do Homem, em 1961, e, no Collège de France, entre 1967e 69, segundo Fernando Henrique. "Eu o conheci em Paris quando estudei na Sorbonne, em 1961, assim como fui visitá-lo, mais de uma vez, no Collège de France na década de 1970 para render-lhe o tributo devido, a quem teve uma vida intelectual tão fecunda", afirma FHC.

Imagens da vida do antopólogo (AFP)


Nascido em Bruxelas, na Bélgica, Lévi-Strauss foi um dos grandes pensadores do século 20. Ele, que completaria 101 anos no próximo dia 28, tornou-se conhecido na França, onde seus estudos foram fundamentais para o desenvolvimento da antropologia. Filho de um artista e membro de uma família judia francesa intelectual, estudou na Universidade de Paris.

De início, cursou leis e filosofia, mas descobriu na etnologia sua verdadeira paixão. No Brasil, lecionou sociologia na recém-fundada Universidade de São Paulo, de 1935 a 1939, e fez várias expedições ao Brasil central. É o registro dessas viagens, publicado no livro "Tristes Trópicos" (1955) que lhe trará a fama. Nessa obra ele conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do Brasil.

"Ele soube partir do empirismo para dialogar e colocar a antropologia em pé de igualdade com outras ciências humanas, como a filosofia. Lévi-Strauss é um autor fundamental", afirma Renato Sztutman, professor do Departamento de Antropologia da USP e mestre e doutor em Antropologia Social na área de etnologia indígena.

Valorização da cultura não-ocidental
A corrente estruturalista da antropologia surgiu na década de 40 com uma proposta diferente da antropologia de viés funcionalista, predominante até então. "O funcionalismo se preocupava com o funcionamento de cada sociedade e em saber como as coisas existiam na sua função social. O estruturalismo queria saber do trabalho intelectual. Olhar para os povos indígenas e buscar uma racionalidade e uma reflexão propriamente nativa", diz Sztutman.

Entrevista sobre o pensador

Um dos principais antropólogos brasileiros, Eduardo Viveiros de Castro se notabilizou também pela retomada criativa, em livros como "A Inconstância da Alma Selvagem" (ed. Cosac Naify), dos métodos e do projeto teórico de Claude Lévi-Strauss. Leia entrevista com o antropólogo brasileiro sobre pensador francês que morreu no sábado passado.

Suas pesquisas, iniciadas a partir de premissas linguísticas, deram à ciência contemporânea a teoria de como a mente humana trabalha. O indivíduo passa do estado natural ao cultural enquanto usa a linguagem, aprende a cozinhar, produz objetos etc. Nessa passagem, o homem obedece a leis que ele não criou: elas pertencem a um mecanismo do cérebro. Escreveu, em "O Pensamento Selvagem", que a língua é uma razão que tem suas razões - e estas são desconhecidas pelo ser humano.

"Ele abriu um caminho para pensar a filosofia indígena, valorizar o lado intelectual dos povos estudados, e não ficar naquela coisa 'nós (ocidentais) temos uma grande teoria e eles não'. Lévi-Strauss abriu caminho para valorizar o aspecto intelectual de outras populações", acrescenta Sztutman.

Professora guarda carta como "troféu"
Lilia Moritz Schwarcz, professora de antropologia da USP e editora da Companhia das Letras, também lamentou a morte do pensador. Ela disse que guarda como "troféu" uma carta que recebeu dele após a publicação por sua editora do livro "Saudades do Brasil".

Para Schwarcz, o estruturalismo de Lévi-Strauss está sendo resgatado nos últimos anos. "Já aconteceram várias vogas, principalmente com a popularização nos anos 60. Depois vieram as críticas, apontando como um teoria em que a possibilidade de mudança está ausente. Agora está voltando, principalmente mostrando que os elementos não se explicam sozinhos e sim em relação aos outros", argumenta a antropóloga.

Ela conta que a influência da obra do francês extrapolou sua área de estudo. "Ele foi influenciado e influenciou a linguística. Mas todas as áreas das ciências humanas têm Lévi-Strauss como referência, como a sociologia, a filosofia e até a história", afirma.

Segunda Schwarcz, o principal papel dele foi ajudar na "compreensão do outro, o que levou ao estranhamento de nós mesmos".

"Era um homem extremamente delicado", diz ex-aluna
"Lévi-Strauss disse certa vez que tivera a infelicidade de viver o suficiente para presenciar o esquecimento e recusa que geralmente ocorrem após a morte de um autor. Espero que as muitas homenagens pelo seu centenário, no ano passado, tenham amenizado esse sentimento, pois sua obra parece hoje mais viva do que em décadas anteriores", escreveu em e-mail a professora e antropóloga da USP Beatriz Perrone-Moisés, em resposta a solicitação do UOL Notícias para repercutir a morte do último sábado.

"Embora Lévi-Strauss tenha influenciado a reflexão na antropologia e para além dela, são os etnólogos americanistas, como ele, que recebem (e têm valorizado) seu maior legado. Querendo tornar-me americanista, assisti a seus seminários no Collège de France por alguns meses. Anos mais tarde, tive o privilégio de encontrar-me com ele, para uma entrevista", relembrou Perrone-Moisés sobre seus contatos com o pensador.

"O homem extremamente delicado e atencioso sabia como evitar que o interlocutor se sentisse abafado por sua evidente sabedoria. Foi-se o homem. O que ele deixa, porém, ainda por muito tempo irá propor desafios e novos modos de pensar", concluiu a professora.

Brasil ajudou pensador a formar seu sistema, diz antropólogo
Outro antropólogo influenciado pela obra do francês que estudou o Brasil é José Guilherme Magnani, que se especializou em antropologia urbana, área que aplicou os métodos, usados inicialmente para estudar inicialmente os povos rurais e silvícolas, para entender os grupos nas grandes cidades.

"Tendo partido da lingüística, sua obra firmou-se no campo da antropologia mas teve repercussão em outras áreas como a psicanálise, semiótica, história etc", aponta o professor da USP que fez seu mestrado tendo como base o estruturalismo, como teoria e método, para estudar os contos orais camponeses no Chile, sob orientação da ex-primeira-dama Ruth Cardoso.

"No fim dos anos sessenta e começo dos setenta houve uma espécie de `modismoŽ do estruturalismo, uma profusão de análises `estruturaisŽ do vestuário, da literatura, do cinema. Como toda moda, passou; o que não passou foi a influência duradoura da proposta de Lévi-Strauss, agora mais restrita à antropologia", analisa Magnani, que afirma que o Brasil ajudou o francês. " Na verdade, foi o Brasil, seus caboclos, índios, imigrantes, com os quais ele teve contato, ainda que curto, que o ajudou a construir seu sistema de pensamento", completa.

Professora da Universidade de Chicago lembra primeiro encontro
Manuela Carneiro da Cunha, professora de antropologia da Universidade de Chicago (EUA), frequentou os famosos seminários de Lévi-Strauss por três anos.

"Ele me aceitou no seu seminário ao saber que eu vinha da matemática. Meu primeiro contato com ele foi essa aceitação, no gabinete do Collège de France, então ainda no velho prédio da place Marcellin Berthelot. Eu estava tão intimidada que mal consegui dizer alguma coisa. Frequentei seus seminários por três anos, depois voltei ao Brasil e escrevi meu primeiro artigo que lhe enviei. Desde então, escrevemo-nos com alguma regularidade », lembrou do período de estudante na França.

A professora guarda outras recordações de seu mestre. ``Lévi-Strauss era um homem extremamente cortês, que sempre respondia a cartas. Quando ele veio ao Brasil em 1985, por ocasião da visita oficial de François Mitterrand, o jornal o `Estado de São PauloŽ ofereceu-lhe e à mulher, Monique, uma ida de avião até os Bororós, que ele havia estudado na década de 1930. Ele pediu que eu os acompanhasse. Foi uma viagem memorável. Mas todas as vezes em que conversei com ele ou simplesmente o ouvi dar uma aula foram marcantes. Ele tinha um espantoso poder de sínteseŽŽ, relatou.

A antropóloga também comentou os fluxos e refluxos estruturalistas. ``O estruturalismo sofreu as consequências de ter se tornado uma moda nos anos 60. Nessa década, autores que pouco tinham em comum entre si, gente como [Louis] Althusser e [Jacques] Lacan, por exemplo, foram classificados como estruturalistas. Lembro que Lévi-Strauss, que era amigo pessoal de Lacan, confessou nunca o ter entendido. O estruturalismo enquanto moda passou e outras modas lhe sucederam. Mas a grandeza de Lévi-Strauss e de seu estruturalismo específico não diminuiram e seu legado e influência estão aí para quem souber lê-lo. Curiosamente, parecem ser os filósofos franceses contemporâneos até às vezes mais do que os antropólogos que o estão redescobrindo e acho que se pode falar hoje de um neo-estruturalismo", comentou

Para Carneiro da Cunha, mesmo sem ser sua intenção, Lévi-Strauss ajudou os brasileiros a pensar o país. ``Indiretamente, por ter posto em realce o pensamento dos índios, ter tido um olhar etnográfico sobre São Paulo dos anos 30 e sobre os sertões da Amazônia, ele forneceu ao Brasil uma imagem nova de si mesmo."

*Com informações do UOL Educação

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