Troca de tiros entre navios militares foi provocação da Coreia do Norte aos EUA, diz analista

Guilherme Balza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Às vésperas da visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, à Ásia, embarcações militares de Coreia do Sul e Coreia do Norte trocaram disparos no mar Amarelo nesta terça-feira (10). O governo de Seul afirma que seus navios fizeram tiros "de alerta" pelo fato de uma embarcação norte-coreana ter invadido seu território marítimo. Na versão de Pyongyang, a Coreia do Sul promoveu um ataque direto ao navio norte-coreano que realizava uma patrulha rotineira.

Para Amaury Porto de Oliveira, que durante 45 anos atuou pela diplomacia brasileira, o que houve foi uma provocação do governo norte-coreano para que os Estados Unidos sentem à mesa de negociação com Pyongyang. "Eles sempre fazem esse tipo de provocação. Mostram força, tentam mostrar que possuem um exército forte para impressionar o outro lado e forçar uma negociação. Pode ser uma estratégia equivocada, mas eles fazem isso sistematicamente", diz o analista, embaixador do Brasil em Cingapura entre 1987 e 1990.
  • Sergio Lima / Folha imagem

    Marinha sul-coreana fica em alerta no porto de Incheon após atrito com a Coreia do Norte


Oficialmente as Coreias estão em guerra desde 1950, quando teve início a Guerra da Coreia, na qual os dois países, influenciados pelas potências socialistas e capitalistas, disputaram a soberania do território coreano. Em 1953, foi assinado um armistício que pôs fim ao conflito armado, mas que não trouxe uma solução definitiva para a região, nem acabou oficialmente com a guerra. Desde então, a Coreia do Norte é governada por ditaduras stalinistas, condenadas pelo Ocidente.

Na avaliação de Oliveira, a visita de Obama à Ásia a partir dessa quinta-feira (12) "é mais um motivo" para a suposta provocação dos norte-coreanos. "Eles querem irritar os americanos e chamar a atenção do Obama", opina o analista. "Mas no fundo eles têm um pavor enorme de serem atacados pelos Estados Unidos. Durante a Guerra da Coreia, os norte-coreanos viveram meses embaixo da terra por causa dos bombardeios americanos", acrescenta.

Os Estados Unidos estabeleceram diversas sanções econômicas à Coreia do Norte desde o fim da Guerra da Coreia. Ambos os países não possuem relações diplomáticas. Washington ainda acusa os norte-coreanos de produzirem armas nucleares para fins militares.

Segundo o ex-embaixador, o governo norte-americano esteve prestes a sentar na mesa de negociações com Pyongyang no final do mandato de Bill Clinton, mas a vitória de George W. Bush, com sua retórica do "eixo do mal" (formado por Coreia do Norte, Irã e Iraque, países considerados perigosos para o Ocidente, segundo os EUA), a "situação andou para trás oito anos".

"Os americanos estiveram perto de sentar à mesa de negociação, superar a situação do armistício e alcançar uma solução mais definitiva, mas veio a Era Bush. E a primeira coisa que Bush fez foi acabar com a aproximação entre os países", afirma Oliveira.

Para o analista, o presidente norte-americano ainda não teve tempo suficiente para buscar um diálogo efetivo entre os países e, dessa maneira, recuperar o tempo perdido no governo anterior. "O Obama tem uma visão menos estreita que a do Bush, mas ainda não teve tempo de avançar", avalia.

A troca de disparos entre os navios, para Oliveira, não trará qualquer retrocesso às negociações de paz entre Coreia do Norte e Estados Unidos justamente porque hoje não há qualquer avanço nas relações diplomáticas entre as nações. "Não pode haver um retrocesso porque não houve passos que indiquem uma aproximação. Perdura a mesma situação do governo Bush com pequenas diferenças".

A aproximação, na avaliação de Oliveira, depende sobretudo da política adotada pelos norte-americanos. "É um problema que se arrasta há 50 anos, e é o principal resquício da Guerra Fria. Os Estados Unidos deveriam ter uma política mais positiva", diz.

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