Favorito, Mujica afasta ar de ex-guerrilheiro para ser presidente moderado do Uruguai

Maurício Savarese Do UOL Notícias Em São Paulo

Ex-guerrilheiro, agricultor, senador mais votado do país, boquirroto, septuagenário e piloto de lambretas. Muitas são as facetas de José "Pepe" Mujica, 74, favorito para se eleger presidente do Uruguai - neste domingo (28) contra o conservador ex-presidente Luis Alberto Lacalle, do Partido Nacional. Neste ano, o mesmo em que vestiu um terno pela primeira vez na vida, uma transformação gradual diminui sua aparência histórica de esquerdista para fazer dele um líder moderado para suceder Tabaré Vázquez, também do partido Frente Ampla.

Nascido em Montevidéu em 20 de maio de 1935, Mujica começou sua trajetória no Partido Nacional, chamado pelos uruguaios de Blanco, hoje de centro-direita. Mas logo passou a integrar o grupo guerrilheiro Tupamaros, que combateu governos ditatoriais do país usando assaltos e sequestros como instrumento de pressão. Depois de participar de ações ousadas, passou à clandestinidade em 1963 e anos mais tarde acabou preso pela primeira vez.

Na cadeia, diz ele, os maiores sinais de vida que via eram pequenas rãs que se aninhavam em um buraco em sua cela. Fugiu em 1971, mas acabou recapturado pouco depois de conhecer sua mulher, a também ex-militante socialista Lucía Topolansky, com quem se casou oficialmente apenas há quatro anos - o casal não teve filhos. Só deixaria a prisão em 1985, com o fim da ditadura.

Assim que saiu da cadeia, Mujica se instalou com sua mulher em uma fazenda que ganhou o nome de "Pueblada" (Povão em tradução livre), onde vive até hoje - agora na companhia de alguns sem-teto que lhe pediram abrigo. Nesse lugar, ele se dedica a suas paixões: a agricultura e a floricultura, que aprendeu com a mãe e repassou a Lucía.

Se perder as eleições presidenciais apesar de todas as previsões apontarem sua vitória, ele promete voltar para o lugar de onde saiu em sua lambreta - uma mania uruguaia da qual não abre mão apesar da idade - e plantar acelgas até o fim da vida.

Mujica venceu o primeiro turno, em outubro, com 47,96% dos votos, contra 29,07% de Lacalle. Seu partido ainda conquistou sob sua liderança a maioria parlamentar na Câmara e no Senado.

Reabertura
Com a reabertura democrática, Mujica fundou o Movimento de Participação Popular (MPP), que é um dos principais integrantes da esquerdista Frente Ampla, que até então era uma coadjuvante nas eleições entre os blancos e os multifacetados do Partido Colorado, o mais tradicional do país.

Desde aquele momento defende investigações contra membros da ditadura por crimes supostamente cometidos em represália a militantes políticos como ele. Neste domingo, um referendo pode não apenas dar ao esquerdista sua eleição para a Presidência como fazer o Uruguai revogar a Lei de Prescrição que barrava investigações sobre o assunto.

Mujica elegeu-se deputado em 1994 e em 2000 passou ao Senado como o parlamentar mais votado do Uruguai, em grande parte por conta da articulação com grupos esquerdistas, críticas aos argentinos - outra mania uruguaia - e uma série de viagens por um país que já não é nada camponês como ele, no qual 92% da população vive em cidades, segundo dados oficiais.

Para suportar a série de visitas, passou a ler mais, de acordo com sua mulher, e sua obra preferida é Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. "É o princípio da utopia do qual gosto tanto", costuma dizer ele.

No governo Vázquez, cuja aprovação superior a 60% é responsável em grande parte pela vantagem do ex-guerrilheiro nas pesquisas de intenção de voto, foi ministro da Agricultura e Pecuária, cargo que deixou para concorrer ao Palácio Estévez.

Quem deveria vencer a eleição no Uruguai?

A candidatura presidencial veio depois de uma disputa com aquele que viria a ser seu companheiro de chapa, o ministro da Economia, Danilo Astori, de perfil mais técnico do que o do líder popular que não raro usa palavrões e jargões camponeses para se expressar.

Promessas
Com Astori ao seu lado, Mujica teve contido qualquer ímpeto de se aproximar de líderes esquerdistas como o presidente venezuelano, Hugo Chávez, por quem já disse ter "grande respeito e admiração". Agora, guiado também pelas pesquisas, promete um governo mais parecido com o do brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, em quem afirma se inspirar.

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Para dar continuidade e aprofundar a inclinação à esquerda do governo Vázquez, Mujica espera crescimento econômico acumulado de 30% nos próximos cinco anos, com criação de cerca de 200 mil novos postos de trabalho e retirada de 350 mil pessoas das camadas mais pobres. Ele também se comprometeu a ampliar o acesso à internet - a gestão atual ganhou popularidade com um programa de entrega de um computador para cada criança na escola.

Um dos focos de sua campanha é a criação de uma espécie de Sistema Único de Saúde, com ênfase nas crianças e nos mais velhos - os recursos para pagar por isso ele não detalha, o que lhe causou pesadas críticas de seu principal adversário Lacalle. Outro ponto de discórdia é a expectativa de política externa no caso de Mujica ser eleito presidente.

Os conservadores preveem que ele se aproximará da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas), composta por Chávez e seus aliados regionais. A possibilidade causa temor entre os eleitores de um país que é a sede do Parlamento do Mercosul.

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