Ao receber o Nobel da Paz, Obama justifica a guerra como instrumento para manter a paz

Do UOL Notícias* Em São Paulo

Atualizado às 12h42

O presidente Barack Obama disse que a guerra às vezes é necessária e justificável ao receber o Prêmio Nobel da Paz, em cerimônia no auditório municipal de Oslo, Noruega, nesta quinta-feira (10). Obama afirmou que "os instrumentos da guerra têm um papel a desempenhar para manter a paz".

Nobel da Paz para Obama
foi merecido?



O presidente reconheceu que muitas pessoas acreditam que ele não fez muito para merecer o prêmio. Também destacou que ele recentemente ordenou o envio de 30.000 soldados dos EUA para combater no Afeganistão. Mas Obama, em seu discurso, disse que as pessoas devem aceitar "uma dura verdade" de que a violência não pode ser erradicada e as nações às vezes devem financiar a guerra para proteger seus cidadãos de regimes repressivos e grupos terroristas.

"O que sei é que, para responder a estes desafios, precisaremos da mesma visão, trabalho duro e persistência daqueles homens e mulheres que agiram de forma tão ousada há décadas", disse Obama. "E será necessário que pensemos de uma nova maneira a respeito da ideia de guerra justa e os imperativos de uma paz justa."
  • Veja a cerimônia de entrega do Prêmio Nobel da Paz e trecho do discurso de Obama (em inglês)



O Nobel da Paz também lamentou o elevado custo humano dos conflitos humanos. "EUA não devem comprometer seus ideais e devem cumprir com as regras da guerra ao combater seus inimigos", acrescentou.

Obama disse que o movimento de não-volência não poderia derrotar os exércitos de Hitler e negociações não podem persuadir os líderes da Al Qaeda a se desarmarem. O presidente dos EUA acrescentou que a aceitação disso não é um chamado ao cinismo, mas o reconhecimento das imperfeições humanas.

O presidente norte-americano lembrou outros que receberam o Nobel da Paz, como Nelson Mandela e Martin Luther King. Mas disse que a questão mais profunda é que ele (Obama) é o comandante em chefe da nação que está imersa em duas guerras. "E uma dessas guerras está aumentando e sou responsável pelo deslocamento de milhares de americanos, sendo que alguns serão mortos", disse.

Durante a cerimônia, o presidente voltou a lembrar que ele talvez não fosse o mais qualificado para receber o prêmio. Obama disse que recebe o prêmio "com profunda gratidão e uma grande humildade", ao se referir às críticas dos que consideram que o prêmio é prematuro, já que ele está há apenas 11 meses na Casa Branca.

"Mais qualificados" que Obama
Obama afirmou nesta quinta-feira (10), antes da cerimônia no auditório municipal de Oslo, que outros candidatos poderiam ser "mais qualificados" do que ele para o Prêmio Nobel da Paz.

Em uma breve entrevista coletiva junto com o primeiro-ministro norueguês, Jens Stoltenberg, Obama se referiu, assim, às críticas de muitos que consideram a concessão do prêmio prematura, já que o presidente americano está há apenas 11 meses no cargo.

"Não resta dúvida de que há outros candidatos que poderiam estar mais qualificados do que eu", disse o presidente americano, acrescentando que seu objetivo não é "ganhar um concurso de popularidade", mas promover os interesses de seu país.

Obama disse que a concessão do prêmio lhe serve de estímulo para continuar seu trabalho em assuntos que são importantes para os EUA e para tentar conseguir uma paz e segurança duradouras no mundo.

Se for bem-sucedido, ressaltou, todas as críticas que está recebendo agora pela concessão do prêmio serão caladas.

Neste sentido, citou entre suas prioridades a luta contra a proliferação nuclear e a mudança climática, e a estabilização do Afeganistão.

Obama, que na semana passada ordenou o envio de mais 30 mil soldados ao Afeganistão, ressaltou que "não há nada ambíguo" na data que fixada para começar a saída das tropas americanas desse país, em julho de 2011.

Nos últimos dias, funcionários de sua Administração tinham destacado que essa data representa apenas o começo de um processo de transição, não o momento em que as tropas dos EUA sairão maciçamente do país asiático.

O primeiro-ministro norueguês disse que a concessão do Nobel a Obama é "merecida e importante".

"Não posso pensar em outra pessoa que tenha feito mais pela paz ao longo deste ano que se passou", disse Stoltenberg.

A chegada do presidente a Oslo ocorreu em meio a fortes medidas de segurança, na operação de maiores dimensões já desenvolvida na Noruega e que teve custo de quase 92 milhões de coroas (US$ 16 milhões). Cerca de 2,5 mil policiais estão mobilizados e foram colocadas barreiras ao longo das principais avenidas da cidade.

  • John McConnico/AP

    Barack Obama chega para a cerimônia de entrega do Prêmio Nobel da Paz, em Oslo


Anúncio do Nobel da Paz surpreendeu
O comitê Nobel causou estupor no planeta - e no próprio Obama - no dia 9 de outubro, quando anunciou o vencedor de seu prêmio. Afinal, o presidente americano havia chegado ao poder há menos de nove meses e ainda está afundado até o pescoço em duas guerras, deixadas por seu predecessor.

Dois meses depois, muitos consideram a escolha do comitê prematura, e mesmo injustificada.

Uma pesquisa publicada na terça-feira nos Estados Unidos pela Universidade de Quinnipiac mostra que dois em cada três americanos consideram que seu presidente não merece o Nobel da Paz.

Da Cruz Vermelha a Barack Obama



Na Noruega, onde aconteceu a entrega dos prêmios, as reações variam. Segundo uma pesquisa publicada nesta quarta-feira (9) pelo jornal Verdens Gang (VG), apenas 35,9% dos noruegueses acham que Obama merece o prêmio, contra 33,5% que consideram o contrário.

No dia 1º de dezembro, Obama anunciou oficialmente que mandaria mais 30.000 soldados para o Afeganistão, o que aumetará o efetivo americano no país para 100.000 homens. O anúncio obrigou o Comitê Nobel a justificar mais uma vez sua opção pelo presidente americano.

"A maioria dos presidentes precisa lidar com conflitos, inclusive guerras", declarou o secretário do comitê, Geir Lundestad, à rádio NRK.

"Mas o que Obama tentou fazer é comprometer-se de uma nova maneira em matéria de política externa, destacando a cooperação internacional, a ONU, o diálogo, a negociação, a luta contra as mudanças climáticas e o desarmamento, e isso foi decisório" para a seleção do júri.

Polêmica envolve o comitê
Esta não é a primeira vez que o Comitê Nobel, formado por cinco personalidades designadas pelo Parlamento norueguês, levanta controvérsias desde a criação do prêmio em 1901.

"A primeira surgiu em 1906 com Theodore Roosevelt", explica o especialista na história do Nobel, Asle Sveen, porque, apesar de sua mediação na guerra russo-japonesa, o presidente americano foi um adepto da política da força.

Em 1919, o Nobel foi atribuído a um de seus sucessores, Thomas Woodrow Wilson, apesar das ameaças de demissão de um dos membros do comitê, contrário a Tratado de Versalhes que favoreceu a Segunda Guerra Mundial e que teve participação do presidente americano em sua criação.

O prêmio de 1935 foi dado ao militante antinazista Carl von Ossietzky, prisioneiro em um campo de concentração de Hitler. Mas dois membros do comitê se retiraram antes da tomada da decisão final para não dar a impressão de que o governo norueguês compartilhava da mesma opinião.

"Hitler proibiu que todos os alemães aceitassem o Prêmio Nobel e, para não aborrecê-lo, o rei norueguês se absteve de participar na cerimônia oficial de entrega", recorda Sveen.

Por outro lado, o júri do Nobel ignorou Gandhi, "seu maior pecado, cometido por omissão", segundo Lundestad.

"Foi o maior homem da paz do século 20 e é evidentemente triste que não tenha recebido um Nobel", admitiu o diretor.

O comitê se mostrou disposto a concedê-lo, em 1948, no ano de seu assassinato, mas desistiu da ideia para que o prêmio não fosse póstumo.

"O Prêmio Nobel da guerra", foi a manchete do jornal "New York Times" pelo Nobel da Paz de 1973, atribuído ao vietnamita Le Duc Tho e ao americano Henry Kissinger.

Le Duc Tho, que já planejava a grande ofensiva de 1975, foi o único a rejeitar o Prêmio Nobel da Paz. Kissinger propôs em vão devolvê-lo e dois membros do comitê se demitiram.

"Esperava-se incentivar um processo de paz, mas foi um fracasso total", afirmou Sveen.

Em 1974, as coisas não foram muito melhores. O primeiro-ministro japonês Eisaku Sato, viu recompensados seus supostos esforços contra a proliferação nuclear. Favorável ao escudo nuclear americano, na verdade considerava a oposição à arma atômica como algo sem sentido.

Em 1994, o prêmio compensou os acordos de paz israelense-palestinos concluídos no ano anterior.

E, de novo, um membro do comitê se demitiu porque junto aos israelenses Shimon Peres e Isaac Rabin, foi também premiado o palestino Yasser Arafat, considerado então por muitos um terrorista.

"Obama não é tão controvertido quanto todos esses precedentes, mas seu prêmio tem uma parte de polêmica que o futuro balanço de sua gestão poderá calar ou amplificar", prognostica Sveen.

*Com agências internacionais

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