Ocidente teme influência do Irã sobre produtores de petróleo com plano de enriquecimento de urânio, diz especialista

Talita Boros*
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Atualizada às 19h23

Depois do anúncio oficial do Irã de que começaria o plano de enriquecimento do urânio a partir desta terça-feira (9), os Estados Unidos e a França anunciaram o fracasso das negociações e defenderam sanções econômicas e diplomáticas, para o qual buscarão consenso da comunidade internacional. Mas para o professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas, em São Paulo), Pedro Paulo Funari, o interesse da comunidade ocidental é outro. Para ele, com o desenvolvimento de tecnologia nuclear, o poder do Irã sobre os países árabes aliados aos EUA cresceria muito. “Países produtores de petróleo ligados aos Estados Unidos como a Arábia Saudita, por exemplo, teriam que ficar mais favoráveis ao governo iraniano. O poder do país cresceria na região e é isso que os EUA não querem que aconteça”, diz.

Embaixador do Irã diz que confia em posição do Brasil sobre programa nuclear

Após reações internacionais à decisão do Irã de enriquecer urânio em 20%, o embaixador do Irã no Brasil, Mohsen Shaterzadeh, afirmou nesta segunda-feira (9) que confia no papel do Brasil como interlocutor na crise. De acordo com ele, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acredita que o país obedece a leis internacionais em sua tentativa de gerar energia nuclear – o que o Ocidente interpreta como busca disfarçada por uma bomba atômica.

Para Funari o Irã pretende usar o plano de enriquecimento de urânio como forma de prevenir qualquer ataque em seu território e conseguir vantagens em negociações internacionais, assim como fez a Coreia do Norte.

Nesta segunda-feira (8) o Irã enviou uma carta à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) informando oficialmente os planos de começar o enriquecimento de urânio a 20%. "Hoje enviamos a carta", disse o enviado do Irã à AIEA, Ali Asghar Soltanieh à televisão em língua árabe al Alam.

“O Irã não tem nada a perder com o enriquecimento do urânio em 20% e até mesmo com a construção de armas nucleares”, diz Funari. Para o professor, o temor do desenvolvimento de tecnologia nuclear do regime de Teerã é esperado, mas não justificado. “Desenvolver a tecnologia nuclear não é o problema. A Coreia do Norte, considerada muito mais instável, possui armas nucleares e jamais sofreu retaliações da comunidade internacional”, disse. Funari explica que depois dos testes atômicos realizados pelos norte-coreanos em 2006, o governo comunista ganhou ainda mais concessões de países como os Estados Unidos e seus aliados.

O professor de relações internacionais da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo),  Reginaldo Nasser, diz que não se sabe ao certo as reais intenções de Ahmadinejad, mas ressalta que os países ocidentais também têm interesses ao barrar o programa nuclear iraniano. “É um assunto complexo. De um lado os Estados Unidos e Israel querem barrar o programa e de outro o Irã que pretende se valorizar com o desenvolvimento. Há interesse em todos os lados. É muito complicado entrar neste campo”, disse.

Itamaraty

Procurado pelo UOL Notícias, o Itamaraty afirmou que "considera que não estão esgotadas as possibilidades de um acordo entre o Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica". Durante a visita do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao país, em novembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o direito de Teerã de desenvolver energia nuclear para fins pacíficos.

O programa nuclear iraniano levantou suspeitas da comunidade internacional. Países como os EUA, Israel, França, Alemanha e Reino Unido acusam o regime iraniano de esconder, sob seu esforço atômico civil, um projeto de natureza clandestina e aplicações bélicas, cujo objetivo seria a aquisição de um arsenal nuclear, uma alegação que o Irã rejeita.

O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad reiterou hoje que, apesar dos esforços e das conspirações, os "inimigos" da República Islâmica não conseguirão deter o progresso tecnológico e científico do país. "Vocês não são capazes de impor obstáculos ao desenvolvimento do Irã... Se acham que (com atos como) eliminar [o cientista nuclear iraniano] Ali Mohammadi conseguirão fechar nosso caminho rumo ao desenvolvimento, estão enganados", ressaltou o presidente a um grupo de jovens iranianos, incentivados por Ahmadinejad a iniciarem uma carreira científica.

A esse respeito, Ahmadinejad destacou que a ciência sem fé é inútil, mas que, "quando estes dois elementos se juntam, ocorrem grandes eventos". "Apesar de todos os esforços, não conseguiram derrotar a República Islâmica nos últimos 30 anos porque aqui desfrutamos desses dois elementos", acrescentou.

Sanções

O secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, e o ministro da França, Hervé Morin, disseram que o anúncio feito pelo Irã de que vai enriquecer urânio a 20% ignora todas as ofertas de diálogo feitas ao país pela comunidade internacional.

"O Irã rechaçou tudo", lamentou Gates em uma entrevista conjunta à imprensa com Morin, que ressaltou a "total convergência" de posições sobre a análise da situação e os passos que são necessários.

"Toda a comunidade internacional tentou estabelecer condições de diálogo durante meses" com o regime iraniano, mas "não se conseguiu nada", explicou o titular francês de Defesa, que disse ter "a certeza e a convicção" de que os programas nucleares iranianos "têm um alvo militar".

Por isso, Morin considerou que "infelizmente será necessário um diálogo internacional que levará a novas sanções", já que não há alternativa a "trabalhar com novas medidas" contra o Irã no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

"Temos que encontrar uma forma pacífica de resolver esta questão", o que exige que toda a comunidade internacional se una para pressionar Teerã, afirmou Gates.
 


* Com informações das agências internacionais

 

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