Para especialistas, posição brasileira sobre urânio iraniano é conciliadora e não prejudica relação com parceiros

Talita Boros
Do UOL Notícias
Em São Paulo

A posição do Brasil é muito clara quando o assunto é o programa de enriquecimento de urânio iraniano: o Itamaraty busca o acordo entre o país e a Agência Internacional de Energia Atômica, da ONU. Apesar de os Estados Unidos e aliados defenderem sanções econômicas e diplomáticas à República Islâmica, especialistas não acreditam que a posição brasileira favorável ao Irã deva interferir nas relações do país com parceiros.

“O Brasil está exercendo uma autonomia importante”, disse o professor de relações internacionais da UnB (Universidade de Braília) Carlos Eduardo Vidigal. “A posição brasileira também defende o próprio interesse do país em desenvolver tecnologia nuclear”, completou.

O professor José Flávio Sombra Saraiva, também da UnB, lembra que a posição brasileira prima pelo equilíbrio e pela preferência pelo diálogo. “Com certeza essa decisão não vai prejudicar a imagem do país internacionalmente. O Brasil tem uma posição conciliadora consolidada e nem deve tomar lado em um ‘diálogo de surdos’ como este”, disse.

Saraiva também destacou que, além do Brasil, outros países apoiam o acordo e a soberania do Irã na pesquisa nuclear para fins pacíficos. “Argentina, México, Venezuela, China e Índia, por exemplo, também se manifestaram a favor. A posição brasileira não é isolada, portanto, o país não deve sofrer nenhum tipo de retaliação”, disse.

Para Vidigal, a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva só será afetada se o conflito se complicar e o país mantiver o apoio ao Irã. “Se a crise evoluir, aí sim Brasil teria sua imagem internacional danificada. Acho que se isso acontecer o governo provavelmente deve mudar seu posicionamento”, disse.

O governo brasileiro acredita que o Irã utilizará o urânio enriquecido para fins pacíficos. Nesta terça-feira (9), o ministro da Defesa, Nelson Jobim, explicou que o enriquecimento de urânio a 20% é necessário para a fabricação de fármacos e alimentos, enquanto o procedimento a 5% serve para a produção de energia elétrica, o que também é feito na Usina de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

Quando questionado se o Brasil deveria comprar a briga em favor do Irã, Jobim atestou a ideia de que o país também está defendendo interesses próprios: “Não sei se seria a favor do Irã ou a favor de nós”.

O ministro criticou o que chamou de “radicalizações” e destacou a posição do país. “O Brasil não é contra ninguém. Nós temos a tradição de resolver as coisas no diálogo”, ponderou.
 


Brasil na ONU

Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores, também defendeu a posição brasileira nesta terça-feira (9). Questionado se isso poderia prejudicar as aspirações do país em conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança - já que países que têm vaga cativa no órgão como Estados Unidos e França defendem sanções -, o ministro respondeu: "Se eu fosse condicionar as posições do Brasil em função de ambições, não dava um passo. Porque tudo que você faz descontenta alguém", respondeu.

O Brasil ocupa atualmente uma das 10 vagas rotativas no Conselho de Segurança da ONU. EUA, França, Grã-Bretanha, Rússia e China são integrantes permanentes do órgão e possuem poder de veto sobre as decisões do colegiado.

Sanções não vão impedir programa nuclear, diz Irã
O porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores do Irã, Ramin Mehmanparast, disse nesta terça-feira (9) que novas sanções não impedirão que o país siga em frente com seu programa nuclear. Cientistas iranianos iniciaram hoje o processo de enriquecimento de urânio a 20% na usina nuclear de Natanz, na região central do país, informou a televisão estatal. O processo teve início no começo da manhã na presença de inspetores internacionais, segundo a emissora oficial em árabe "Alalam".

"Não vamos abandonar nosso programa nuclear pacífico", disse Mehmanparast durante uma entrevista coletiva concedida nesta manhã em Teerã. O porta-voz disse ainda que "as resoluções (que incluírem sanções) contra o Irã não serão capazes de solucionar problemas, mas provocarão vários aos países que as aprovarem".

"Se pensam que com estas resoluções o povo iraniano dará um passo atrás (em seu programa nuclear), estão enganados", acrescentou.

Mehmanparast afirmou que políticas desse tipo aplicadas contra o Irã nos últimos 31 anos fracassaram, já que os países que as adotaram "não conhecem bem o povo iraniano".

O porta-voz também voltou a dizer que o programa nuclear de seu país é totalmente pacífico e respeita as normas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

EUA e Rússia descontentes
O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, defendeu a adoção, nas próximas semanas, de uma resolução da ONU que permita novas sanções contra o Irã.

"Gates acredita que precisamos e podemos fazê-lo dentro deste prazo", disse o porta-voz do secretário a um grupo de jornalistas após a visita que ele fez a Paris, durante a qual se reuniu com o presidente francês Nicolas Sarkozy, que também é favorável a um reforço das sanções contra Teerã.

Nas reuniões em Paris, Gates insistiu na urgência das decisões, depois que o Irã anunciou o início da produção de urânio altamente enriquecido.

A China, que tem direito a veto no Conselho de Segurança, se mostrou reticente e favorável ao prosseguimento do diálogo.

A Rússia, por sua vez, vê dúvidas sobre as intenções do Irã. "O anúncio do Irã sobre o início do processo de enriquecimento de urânio a 20% cria dúvidas sobre a finalidade das ambições nucleares do país", afirmou o secretário do Conselho Russo de Segurança, Nikolai Patruchev.

"O Irã afirma que não se esforça para produzir arma atômica, e sim que busca a energia nuclear civil. Mas os passos que dá, sobretudo no enriquecimento de urânio a 20%, gera dúvidas nos demais países. E estas dúvidas têm fundamento", afirmou Patruchev.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, pressionou por sanções imediatas e severas contra o Irã nesta terça-feira. "O Irã está acelerando para produzir armas nucleares... Acredito que o que é necessário no momento é uma ação severa por parte da comunidade internacional", disse Netanyahu a diplomatas europeus. "Isso significa sanções que debilitem o país e essas sanções devem ser aplicadas agora", acrescentou.
 

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