Sanções não vão impedir o programa nuclear, diz governo iraniano

Do UOL Notícias*

Em São Paulo

O porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores do Irã, Ramin Mehmanparast, disse nesta terça-feira (9) que novas sanções não impedirão que o país siga em frente com seu programa nuclear. Cientistas iranianos iniciaram hoje o processo de enriquecimento de urânio a 20% na usina nuclear de Natanz, na região central do país, informou a televisão estatal. O processo teve início no começo da manhã na presença de inspetores internacionais, segundo a emissora oficial em árabe "Alalam".

"Não vamos abandonar nosso programa nuclear pacífico", disse Mehmanparast durante uma entrevista coletiva concedida esta manhã em Teerã. O porta-voz disse ainda que "as resoluções (que incluírem sanções) contra o Irã não serão capazes de solucionar problemas, mas provocarão vários aos países que as aprovarem".

"Se pensam que com estas resoluções o povo iraniano dará um passo atrás (em seu programa nuclear), estão enganados", acrescentou.

Mehmanparast afirmou que políticas desse tipo aplicadas contra o Irã nos últimos 31 anos fracassaram, já que os países que as adotaram "não conhecem bem o povo iraniano".

  • Henghamen Fahimi/AFP - 30.mar.2005

    Foto de 2005 mostra a usina de Natanz, onde está sendo feito o enriquecimento de urânio

O porta-voz também voltou a dizer que o programa nuclear de seu país é totalmente pacífico e respeita as normas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Repercussão internacional

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, defendeu a adoção nas próximas semanas, e não nos próximos meses, de uma resolução da ONU que permita novas sanções contra o Irã.

"Gates acredita que precisamos e podemos fazê-lo dentro deste prazo", disse o porta-voz do secretário a um grupo de jornalistas após a visita que ele fez a Paris, durante a qual se reuniu com o presidente francês Nicolas Sarkozy, que também é favorável a um reforço das sanções contra Teerã.

Nas reuniões em Paris, Gates insistiu na urgência das decisões, depois que o Irã anunciou o início da produção de urânio altamente enriquecido.

Em uma entrevista ao canal americano Fox na noite de segunda-feira, o secretário de Defesa afirmou que "levará semanas, não meses, para ver se obtemos outra resolução do Conselho de Segurança da ONU que permita sanções contra o Irã".

A China, que tem direito a veto no Conselho de Segurança, se mostrou reticente e favorável ao prosseguimento do diálogo.

A Rússia, por sua vez, vê dúvidas sobre as intenções do Irã. "O anúncio do Irã sobre o início do processo de enriquecimento de urânio a 20% cria dúvidas sobre a finalidade das ambições nucleares do país", afirmou o secretário do Conselho Russo de Segurança, Nikolai Patruchev.

"O Irã afirma que não se esforça para produzir arma atômica, e sim que busca a energia nuclear civil. Mas os passos que dá, sobretudo no enriquecimento de urânio a 20%, gera dúvidas nos demais países. E estas dúvidas têm fundamento", afirmou Patruchev.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, pressionou por sanções imediatas e severas contra o Irã nesta terça-feira. "O Irã está acelerando para produzir armas nucleares... Acredito que o que é necessário no momento é uma ação severa por parte da comunidade internacional", disse Netanyahu a diplomatas europeus. "Isso significa sanções que debilitem o país e essas sanções devem ser aplicadas agora", acrescentou.

Embaixador no Brasil minimiza repercussão

O embaixador do Irã no Brasil, Mohsen Shaterzadeh, minimizou a reação da comunidade internacional à decisão do governo iraniano de enriquecer urânio a 20%.

Em entrevista à "Agência Brasil", o embaixador afirmou ontem (8) que cabe à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) inspecionar o programa nuclear de seu país e que o presidente Mahmoud Ahmadinejad não quer fechar as portas às negociações para a compra de combustíveis de outros países.

“Não fizemos nenhum ato ilegal. O enriquecimento de urânio é feito sob a supervisão da AIEA. Países opressores não podem governar outros países independentes e soberanos como o Irã”, disse Shaterzadeh sobre a iniciativa dos Estados Unidos e da França em pedir sanções ao Irã. “A AIEA deve se ocupar desse assunto. Nenhum país tem o direito de impor opinião ou pensamento a nós.”

O embaixador iraniano declarou que mantém confiança no apoio brasileiro, embora não tenha conversado com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, sobre as mudanças.

“Não vimos razão para conversar com o ministro Celso Amorim, mas o presidente Lula certamente tem convicção de que o programa nuclear, assim como o brasileiro, tem fins pacíficos”, declarou. “Nós acreditamos completamente no Brasil. Temos interesses comuns e nenhum país poderia intervir para desfazer essa colaboração.”

Shaterzadeh acrescentou que o governo iraniano manterá o diálogo com a comunidade internacional para a compra de combustíveis para seus reatores nucleares, mas não aceitará imposições. “As condições, nós deveremos colocar. Dissemos o que precisamos e esperamos dois meses. O vendedor não tem direito de colocar condições”, afirmou.

Suspeitas sobre o programa nuclear

A decisão do Irã de enriquecer urânio a 20% anunciada no domingo passado pelo presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, após meses de infrutíferas negociações com países do Ocidente, multiplicaram as suspeitas sobre o programa nuclear do Irã.

Países como Estados Unidos, Israel, França, Alemanha e Reino Unido acusam Teerã de esconder um projeto de natureza clandestina e aplicações bélicas cujo objetivo seria a aquisição de um arsenal nuclear, o que o Irã desmente.

O conflito se agravou no final do ano passado depois que Teerã rejeitou uma proposta de Washington, Paris e Moscou para enviar seu urânio a 3,5% ao exterior e recuperá-lo depois enriquecido a 20%, nas condições necessárias para manter seu reator nuclear civil na capital em operação.

O Irã afirma ser a favor da troca, mas exige que esta se produza em seu território e se faça de maneira escalonada, condições que a outra parte não aceita.

As autoridades iranianas afirmam que precisam de 120 quilos de urânio enriquecido para manter o reator em operação e exigiu isso da Agência Internacional de Energia Atômica, como é direito do Irã por ser signatária do Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

Segundo as autoridades iranianas, o reator do país foi criado para produzir isótopos para o tratamento de câncer.

*Com as agências internacionais e a Agência Brasil

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