Hillary vem ao Brasil recuperar o "terreno perdido" após atritos do primeiro ano de Obama

Thiago Chaves-Scarelli
Do UOL Notícias
Em São Paulo

A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, não está na América Latina para “derrotar dragões” – nas condições atuais, ela prefere ser pragmática e recuperar o terreno que foi perdido com as questões espinhosas do primeiro ano do governo Obama, para depois poder buscar apoio do Brasil em “questões globais”.

A análise é de Andrew Hurrell, diretor do Centro de Estudos Internacionais da Universidade de Oxford (Reino Unido) e coautor dos livros “Brazil in the World” (Palgrave USA) e “The United States and Brazil” (Routledge USA).

Em entrevista exclusiva ao UOL Notícias, Hurrel explica que a política externa de Obama tem sido dominada pelos “grandes temas herdados de seu antecessor”, e por isso a América Latina está longe de ser uma prioridade. Ainda assim, alerta o especialista, Washington precisa “responder à percepção de que está ‘perdendo’ a região”.

Relembre no infográfico abaixo os temas que provocaram desentendimentos recentes entre Brasil e Estados Unidos, e leia a íntegra da entrevista.


UOL Notícias: Qual o significado diplomático da visita de Hillary à América Latina?

Andrew Hurrell: A política dos EUA com a região sempre foi moldada por seus objetivos e interesses externos mais amplos. A política externa de Obama tem sido dominada pelos grandes temas herdados de seu antecessor: Irã, Afeganistão, Coreia do Norte. A inquietação do mundo ao poder dos EUA e aos propósitos dos EUA mostram que houve um significativo grau de continuidade. Obama superestimou o poder da diplomacia pessoal (especialmente no Oriente Médio e com o Irã) e descobriu que o multilateralismo é delicado – não por razões ideológicas (como era para Bush), mas por razões práticas e pragmáticas (o que foi visível na reação dos EUA a Copenhague). A política externa sofre muita pressão doméstica, e os funcionários do governo Clinton que retornaram ao governo foram obrigados a se ajustar para o estágio que o mundo atingiu desde a década de 1990. Os valores tradicionais dos direitos humanos e da democracia foram manchados pelos excessos da era Bush; e os encantos ‘soft power’ do livre mercado capitalista foram solapados pela crise financeira. O liberalismo global, portanto, se encontra em tempos muito mais difíceis. Por isso a diplomacia norte-americana se tornou ainda mais pragmática (com uma secretária de Estado de pensamento muito pragmático), buscando acomodação onde possível, mesmo às custas dos direitos humanos (como na Rússia) e evitando criar mais problemas em uma agenda que já está cheia (e que as crescentes tensões com a China encheram ainda mais).

Assim, a chanceler não está chegando na América Latina em busca de dragões para derrotar ou proclamando grandes propósitos. Muitos no Brasil ficaram desapontados com as primeiras fases da política externa do governo Obama: a timidez na ‘abertura’ com Cuba, os sinais ambíguos com Honduras e a dificuldade em entender como a questão das bases colombianas seria percebida na região. Por isso, os principais objetivos deverão ser, primeiro, tentar recuperar o terreno perdido, e então administrar as tensões regionais, para depois buscar apoio do Brasil em questões globais.

UOL Notícias: O Brasil se tornou um líder regional no governo Lula?
Andrew Hurrell: O Brasil é obviamente um ator regional. Mas não é o poder regional dominante, nem é hegemônico. Sua política regional é marcada há tempos por ambivalências: políticas muito assertivas geram resistência em outras partes da região; recursos materiais para uma política regional ativa aumentaram significativamente, mas continuam limitados, especialmente em questões de segurança; a região por si só é complexa tanto por existirem outros demandando influência regional (sobretudo a Venezuela) quanto em termos da seriedade de seus problemas sociais, econômicos e políticos. A opinião da elite doméstica brasileira é muito dividida sobre quanto peso se deve dar à região e, principalmente, a retórica sobre cooperação regional – o Brasil tem sido ambíguo quanto a construir sérias e efetivas instituições regionais, e decepcionantemente fraco em apoiar algumas instituições cruciais que já existem, como o sistema interamericano de direitos humanos.

Ignorando a região

A ideia nacionalista brasileira de que os EUA persistentemente aspiraram a dominar a América do Sul de uma forma que sobrepujasse o papel regional do Brasil e sua projeção mundial tem pouquíssima base histórica. Igualmente errada é a visão de que a América do Sul tem sido consistentemente de importância estratégica crítica para Washington. O elemento definidor da política norte-americana tem sido sua habilidade de ignorar
a região

Andrew Hurrell

UOL Notícias: Como Washington enxerga o Brasil – um importante aliado ou um crescente rival?
Andrew Hurrell: Muito raramente o Brasil foi visto por Washington como um aliado importante – nos anos 1940, por razões estratégicas; nos primeiros anos após 1964, por razões ideológicas ligadas à Guerra Fria, no período Kissinger. Mas o ponto é que esses períodos nunca se mostraram duráveis. Mesmo quando se poderia esperar uma relação próxima, houve sempre algum grau de distanciamento e faltaram bases sólidas para uma aliança ou um relacionamento especial. A ideia de uma relação próxima tampouco aparece no pensamento de política externa do Brasil, incluindo os governos de FHC e de Lula. Ao mesmo tempo, a ideia nacionalista brasileira de que os EUA persistentemente aspiraram a dominar a América do Sul de uma forma que sobrepujasse o papel regional do Brasil e sua projeção mundial tem pouquíssima base histórica. Igualmente errada é a visão de que a América do Sul tem sido consistentemente de importância estratégica crítica para Washington. O elemento definidor da política norte-americana tem sido sua habilidade de ignorar a região e sua discrição em decidir quando e como se envolver. Ou seja, o Brasil não é nem um importante aliado, nem um crescente rival. E essa situação tem funcionado principalmente a favor do Brasil.

Mas Washington precisa sim responder à percepção de que está ‘perdendo’ a região e precisa evitar que conflitos e tensões regionais se tornem mais sérios. Às vezes o Brasil foi visto por Washington como uma força potencialmente moderadora na região. Embora formalmente rejeitem a noção de ‘ponte’, os próprios diplomatas brasileiros destacam a influência moderadora e o papel de bombeiro do país. Mas a ideia de um Brasil ‘administrador regional’ agindo lado a lado com Washington não tem base histórica, nem na realidade presente, nem em um futuro provável.

Brasil e Irã

O argumento de Brasília de que outras vozes precisam ser ouvidas no Irã e no Oriente Médio em geral é correto, considerando o caráter extremamente estreito dos debates políticos nos EUA. O governo brasileiro também está certo ao sugerir que as sanções dificilmente se mostrarão efetivas. (...) Ao mesmo tempo, não está claro como a exposição do Brasil com o Irã combina com os interesses sérios do país, especialmente considerando que a posição doméstica do atual governo iraniano dificilmente sugere um parceiro estável e confiável

Andrew Hurrell

UOL Notícias: Quão séria é a preocupação dos EUA com as posições moderadas do Brasil com o Irã? Washington precisa convencer o governo Lula a condenar o programa nuclear iraniano?
Andrew Hurrell: Washington claramente está buscando suporte para sanções mais duras contra o Irã e precisa da legitimidade do Conselho de Segurança da ONU para torná-las tanto efetivas quanto legítimas. E a política do Brasil com o Irã causou ao mesmo tempo perplexidade e irritação dentro dos Estados Unidos. Para o Brasil, o Irã se tornou um símbolo de sua crescente autoestima na diplomacia internacional. O argumento de Brasília de que outras vozes precisam ser ouvidas no Irã e no Oriente Médio em geral é correto, considerando o caráter extremamente estreito dos debates políticos nos EUA. O governo brasileiro também está certo ao sugerir que as sanções dificilmente se mostrarão efetivas. A melhor coisa que Washington pode fazer com relação ao Irã é reconhecer os limites de todas as iniciativas externas de influência. Ao mesmo tempo, não está claro como a exposição do Brasil com o Irã combina com os interesses sérios do país, especialmente considerando que a posição doméstica do atual governo iraniano dificilmente sugere um parceiro estável e confiável. Tampouco está claro como a relação entre uma suposta política externa cada vez mais progressista de um governo do PT pode ser continuada ao se aproximar de um regime reacionário e intolerante. A ideia de um Irã (e de uma Venezuela) como modelos políticos e econômicos alternativos aos Estados Unidos e como bases viáveis de um ‘poder de resistência’, como no livro recente de Dilip Hiro "After Empire", caem na categoria do que Lênin chamaria de ‘infantilismo político’.

UOL Notícias: A questão das Ilhas Malvinas estará presente na visita? Por que os Estados Unidos se declaram ‘neutros’?
Andrew Hurrell: A questão já apareceu na agenda da visita da chanceler. O mais importante objetivo deve ser evitar uma repetição da situação de 1982, quando Washington se viu forçado a escolher o Reino Unido, em detrimento da Argentina e da região. A situação hoje é diferente por uma razão importante – em 1982 a América do Sul estava profundamente dividida. Chile era um ativo aliado dos britânicos em questões militares e de inteligência; e a política brasileira era ambígua, especialmente em relação à decisão da Argentina de recorrer à força. Hoje a política regional é de longe mais unida e os EUA portanto querem evitar quaisquer ações ou declarações que alimentem a ideia de uma América do Sul unida em oposição a Washington.

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