Campanha da Casa Branca no twitter pró reforma da saúde mirou congressistas indecisos, diz especialista

Thiago Chaves-Scarelli
Do UOL Notícias

Em São Paulo

Mobilizada para alavancar a principal ambição política doméstica de Barack Obama, a Casa Branca recorreu às redes sociais online para promover o projeto de reforma do sistema de saúde nos Estados Unidos. A iniciativa, segundo o especialista Marcelo Coutinho, é uma prova de que a internet não é apenas uma ferramenta para época de eleição, mas também um espaço para viabilizar um plano de governo.

  • UOL Arte/AFP/Reprodução

A proposta da campanha “a reforma da saúde em números” era divulgar a cada dia um número sobre a situação do sistema de saúde no país - e esse número era incluído na própria imagem do perfil da Casa Branca no twitter, no facebook e em outras redes sociais. Logo no segundo dia, a campanha estimulou as pessoas a retuitarem a iniciativa, empurrando o tema para os trending topics.

“É mais um exemplo de como as tecnologias sociais estão se tornado centrais no jogo político não somente durante as eleições, mas durante o próprio exercício do mandato - ou da oposição”, explicou Marcelo Coutinho, pesquisador de mídias digitais, em entrevista ao UOL Notícias.

Para o especialista, a campanha “não só aumentou a discussão entre os eleitores, como também serviu para ‘gerar mídia’, em um fenômeno que se autoalimenta e chega à mídia ‘tradicional’, servindo como elemento de pressão adicional sobre os congressistas”.

“É um ciclo: ações em redes sociais viram um fenômeno comportamental que acaba sendo retratado na mídia tradicional, que por sua vez gera mais debate nas próprias redes sociais”, explica. “Verifico sistematicamente este mecanismo nos casos que tenho estudado: se a ação fica restrita as redes sociais, ou a mídia tradicional, perde sua força. O sucesso está na combinação de ambas.”

“Desta forma o agente político recebe uma pressão direta dos seus eleitores, e uma indireta, dos jornalistas, que o procuram para comentar o assunto”, acrescenta o autor do livro “Marketing Eleitoral”.

1,7 milhão de seguidores

Entre os números divulgados na campanha, estão: 1.115 (a média de quanto custou por mês, em dólares, um plano de saúde familiar nos Estados Unidos em 2009), 625 (média de pessoas que perderam a cobertura médica por hora em 2009 no país) e 41 (número de economistas que enviaram uma carta pedindo a aprovação da reforma). Só a página do twitter da Casa Branca é acompanhada por mais de 1,7 milhão de seguidores.

Coutinho lembra que o objetivo explícito da equipe de Obama era esclarecer o ponto de vista do governo, mas aponta que uma intenção não declarada era “utilizar esta mobilização para pressionar congressistas indecisos”.

“Nos últimos dias pude ver entrevistas com deputados que estão indecisos nos quais se mencionou, de uma forma ou de outra, as mensagens que os deputados receberam de seus eleitores através da internet”, acrescentou o pesquisador, que está nos Estados Unidos.

Populismo digital

Coutinho também destaca que a tendência do uso das novas mídias na política carrega em si o benefício de representar um instrumento adicional de pressão sobre deputados e senadores, “mais transparente que os mecanismos tradicionais, com o lobby”.

Existe um dado que me preocupa: o risco de um ‘populismo digital’, no qual a administração no Poder Executivo buscaria o contato direto com ‘as massas’ através dos meios digitais, visando impor sua agenda sobre a do Poder Legislativo

Marcelo Coutinho, pesquisador de mídia

“Mas existe um dado que me preocupa: o risco de um ‘populismo digital’, no qual a administração no Poder Executivo buscaria o contato direto com ‘as massas’ através dos meios digitais, visando impor sua agenda sobre a do Poder Legislativo”, destaca. “Claro que isto depende de outros fatores – número de pessoas com acesso sobre a população total do país, grau de interesse despertado pela reforma entre os segmentos mais ativos dos internautas etc. – mas é um risco”.

“Quanto ao fato da ‘aproximação’ dos políticos com estas ferramentas, ela depende muito do país e do político. Varia bastante dentro do Congresso brasileiro e americano. De maneira geral, todos têm alguma ‘presença’ nestas redes, mas neste momento isto me parece muito mais voltado para procurar passar uma imagem de ‘modernidade’ do que um uso efetivo de ‘diálogo com as bases’, como eles gostam de dizer”, conclui.
 

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