Após divulgação de carta, porta-voz do Vaticano afirma que Bento 16 sempre criticou silêncio sobre pedofilia

Do UOL Notícias*

Em São Paulo

  • AFP

    Papa Bento 16 durante celebração na catedral de São Pedro, no Vaticano

    Papa Bento 16 durante celebração na catedral de São Pedro, no Vaticano

O porta-voz e o diário "L'Osservatore Romano", ambos do Vaticano, saíram em defesa do papa Bento 16 neste sábado (20), após o pontífice expressar, por meio de uma carta, "vergonha e remorso" pelos abusos sexuais cometidos por religiosos da Irlanda contra crianças.

Segundo Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, o papa Bento 16 sempre foi um "guia" contra a "cultura do silêncio" na Igreja Católica de esconder os casos de padres pedófilos. Lombardi afirmou ainda que Bento 16 sempre interveio para que os religiosos pedófilos não fossem protegidos, desde quando ele era prefeito regional da Congregação para a Doutrina da Fé. O papa sempre foi contrário "a qualquer ato de encobrimento ou ocultamento (de abusos sexuais de eclesiásticos a menores)", completou.

As afirmações de Lombardi foram feitas pelo porta-voz durante a apresentação da carta do papa aos católicos irlandeses. O porta-voz do Vaticano disse ainda que o ex- cardeal Joseph Ratzinger "sempre foi testemunho da busca da clareza e da coerência" na luta contra a pedofilia na Igreja.

O posicionamento de Bento 16 acontece quatro meses depois após a divulgação de um relatório que detalha os abusos de religiosos católicos na Irlanda.

Com as declarações de hoje, Lombardi responde aos críticos de Bento 16, que o acusam de ter escondido inúmeros casos de padres pedófilos nos quase 24 anos em que foi prefeito regional da Congregação para a Doutrina da Fé, durante o papado de João Paulo 2º.

Em 19 de maio de 2006, um ano após ser eleito papa e após inúmeras investigações, Bento 16 puniu o fundador da poderosa congregação Legionários de Cristo, o mexicano Marcial Maciel, por abusos sexuais durante décadas contra seminaristas e exigiu a ele que renunciasse ao sacerdócio.

Com essa punição, Bento 16 ressaltou a linha de "tolerância zero" adotada para casos desse tipo, como os ocorridos nos Estados Unidos e na Austrália, os quais condenou com contundência durante sua visita a ambos os países.

Quem também expressou apoio a Bento 16 hoje foi o diário "L'Osservatore Romano", do Vaticano, que classificou o conteúdo da carta como "lúcido e severo". Além disso, o jornal disse que a carta do papa Bento 16 aos irlandeses é "totalmente" coerente com o trabalho realizado durante 30 anos pelo cardeal Ratzinger.

Segundo o jornal, esse trabalho de três décadas se resume na declaração que fez na Sexta-Feira Santa de 2005, poucos dias antes da morte de João Paulo 2º: "Quanta imundície há na Igreja, sobretudo entre aqueles que no sacerdócio deveriam pertencer totalmente a Cristo".

"E isso é coerente com o papa", acrescenta editorial do jornal. O papa sempre buscou que os princípios de justiça fossem "plenamente respeitados" e "sobretudo" que as vítimas e todos os afetados "fossem curados desses crimes anômalos", acrescentou o jornal.

Além disso, o periódico ressalta que o papa escreveu aos irlandeses uma carta "com valor sem precedentes" diante da situação "grave e vergonhosa" que atravessa a Igreja irlandesa.

Vian ressalta em seu editorial a "amargura e a severidade" do texto de Bento 16 e afirma que foi escrito "não para esconder o mal realizado (pelos sacerdotes pedófilos) perante Deus e os homens, mas sobretudo para olhar para frente".

O que diz a carta

"Expresso abertamente a vergonha e o remorso que todos provamos", afirmou Bento 16, esclarecendo às vítimas que este também é um "grande dano" à Igreja e "à pública percepção do sacerdócio e da vida religiosa".

"A Justiça de Deus exige que assumamos nossas ações sem ocultar nada", por isso, "reconheçam abertamente a sua culpa, submetam-se às exigências da Justiça", determinou aos envolvidos nas agressões.

Aos padres pedófilos, Bento 16 reiterou que estes devem responder por seus crimes, "perante ao Deus onipotente e também frente aos tribunais devidamente constituídos".

Dirigindo-se especificamente aos "sacerdotes e aos religiosos que abusaram das crianças", ele disse compartilhar do "temor" de tantos fieis, pela "traição" dos abusos e desejou "o renascimento" da Igreja Católica na Irlanda.

Às vítimas, que "sofreram muito" e "que nunca se poderá anular o mal que suportaram", Bento 16 reconheceu que "foi traída a vossa confiança, a vossa dignidade foi violada".

Os casos de abusos contra crianças, cometidos por décadas por integrantes de instituições católicas irlandesas e que foram acobertados pela diocese de Dublin, vieram à tona em novembro do último ano com a divulgação do relatório da Comissão Murphy, elaborado pela juíza Yvonne Murphy.

Atualmente, são investigadas denúncias contra religiosos católicos pedófilos em vários países, como Alemanha, Áustria, Brasil, Holanda e México.

* Com agências internacionais

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