Com documento, igreja reconhece o problema dos abusos sexuais, diz especialista

Carlos Iavelberg
Do UOL Notícias

Em São Paulo

  • 17.01.2009 - Osservatore Romano /Reuters

    O papa Bento 16 (à esq.) celebra o aniversário de 85 anos de seu irmão Monsignor Georg Ratzinger no Vaticano

    O papa Bento 16 (à esq.) celebra o aniversário de 85 anos de seu irmão Monsignor Georg Ratzinger no Vaticano

A um mês de completar 5 anos de pontificado e em meio a uma crise envolvendo denúncias de abusos físicos e sexuais contra padres católicos, o papa Bento 16 tenta dar uma resposta às críticas que vem sofrendo com a divulgação, neste sábado (20), da "Carta Pastoral" aos irlandeses.

O documento, o primeiro escrito por um papa sobre a pedofilia, vem sendo interpretado como o fim do silêncio da Igreja Católica com relação ao tema.

“Acho que é um movimento da igreja de dizer que está reconhecendo o problema. A própria população católica pede uma atitude mais enérgica ou, pelo menos, mais transparente”, afirma Luiz Felipe Pondé, professor do Departamento de Teologia da PUC-SP e da Faculdade de Comunicação da Faap.

O especialista, entretanto, não acredita que a igreja vá adotar alguma medida de impacto para resolver o tema. “Esse problema [dos abusos sexuais] está intimamente associado à questão do celibato e à questão de você ter muito homem junto. Não acredito que isso vá mudar tão cedo”, afirma.

“O fato é que a condição do celibato atrai muito homossexual. A maior parte dos abusos sexuais, pelo menos nos Estados Unidos, está associada a abusos de meninos. Se sabe que tem um número significativo de homossexuais na igreja pelo fato do celibato e da exclusão do sexo oposto”, analisa.

Para Pondé, a igreja age "de forma humana" quando busca abafar os casos de abusos envolvendo sacerdotes. “A igreja sempre foi cuidadosa com relação a esses escândalos de abuso sexual como todo mundo seria se fosse na própria família. Imagina se na família o tio é acusado de cometer abuso sexual, provavelmente ninguém iria querer expor essa pessoa a execração pública. A igreja age dessa forma, ela age como se fosse uma família e isso muita gente não entende”, compara.

Pondé lembra ainda que abusos sexuais não são exclusividade da igreja, embora deixe claro que isso não os justifiquem. “A atenção excessiva dada a igreja é porque a igreja é a igreja. O problema é que a gente espera da igreja um comportamento santo, aquele que ninguém tem. Ela não tem, ela é uma instituição como qualquer outra”, explica.

A divulgação do documento chega após reportagens publicadas nas últimas semanas ligarem a figura do papa a casos de pedofilia.

Na década de 80 do século passado, Bento 16, então arcebispo das cidades de Munique e Freising, na Alemanha, envolveu-se na decisão de enviar um padre acusado de pedofilia para tratamento em Munique. Mesmo após sua condenação, em 1986, o padre continuou trabalhando com coroinhas por muitos anos e só foi suspenso na última segunda-feira (15).

Em outro caso de abuso, ex-cantores do coro de Regensburger, também na Alemanha, denunciaram ao logo da semana passada que sofreram violência física e sexual. Na época, quem liderava o coro era o sacerdote Georg Ratzinger, irmão do papa Bento 16, que negou saber dos abusos sexuais, mas confessou que deu tapas no rosto de alunos.

Para o professor Pondé, não há coincidência no fato de que a publicação do documento ocorra justamente quando há casos tão próximos ao papa. “O fato de chegar muito perto do Vaticano acelera sem dúvida nenhuma a preocupação com o tema”, afirma.

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