Donos de "coffeeshops" organizam greve para o dia das eleições na Holanda

Carlos Iavelberg
Do UOL Notícias

Em São Paulo

  • 24.09.2004 - Peter Dejong/AP

    Turista fuma cigarro de maconha em um "coffeeshop" de Amsterdã, na Holanda.

    Turista fuma cigarro de maconha em um "coffeeshop" de Amsterdã, na Holanda.

Temerosos com o resultado que pode sair das urnas nas eleições parlamentares holandesas de 9 de junho, alguns donos de "coffeeshops" decidiram organizar uma greve para o dia do pleito.

O temor dos proprietários desses estabelecimentos, onde a venda e o consumo de pequenas quantidades de maconha e haxixe são permitidos, é de que a vitória da direita culmine no fim da comercialização das chamadas “drogas leves”.

Com a greve, os donos de "coffeeshops" esperam que seus clientes optem por ir às urnas votar. E que, preferencialmente, votem nos partidos simpáticos à atual política de tolerância às drogas leves.

“Queremos ter certeza de que eles [os consumidores] votem. Assim não têm aquela desculpa: ‘Antes eu fumo e depois eu voto’. Não é isso que queremos. ‘Você vota agora e depois fuma’”, explica o holandês Nol van Schaik, dono de um “coffeeshop” na cidade de Haarlem (a 12 km a oeste de Amsterdã) e organizador da greve.

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coffeeshop na Holanda

“Muitas pessoas na Holanda, especialmente as que frenquentam os ‘coffeeshops’, perderam a confiança nos políticos e não têm votado. Por isso, estamos tentando mostrar a elas que, se tivermos um governo conservador, os ‘coffeeshops’ serão fechados”, justifica Van Schaik, que torce pela vitória do Partido Trabalhista (PvdA).

Há anos que o debate sobre a existência dos “coffeeshops” tem divido a atual coligação de sustentação do governo holandês formada por três partidos. O principal partido da coalizão, o CDA (Apelo Democrata Cristão), e a União Cristã (CU) defendem o fim desses estabelecimentos. Já os trabalhistas, com apoio de partidos esquerdistas da oposição, não aceitam discutir mudanças.

Entenda como funciona a lei na Holanda

Desde 1976, os “coffeeshops” estão autorizados a vender até cinco gramas de haxixe ou maconha por pessoa e ter um máximo de 500 gramas no estoque. Para obter uma licença, estes estabelecimentos não podem vender álcool nem drogas pesadas.

Ao contrário da imagem corrente no exterior, a Holanda nunca legalizou as drogas brandas. O funcionamento dos “coffeeshops” é apenas tolerado pelos legisladores, que permitem seu funcionamento sob estas estritas condições.

Pela lei em vigência, embora a venda seja permitida, a produção continua proibida. De acordo com alguns especialistas, o fato de parte da "cadeia da cannabis" - cultivo, distribuição e venda - seguir na ilegalidade provoca uma contradição que coloca em xeque a política holandesa de tolerância às drogas.

Além dos 16 “coffeeshops” existentes em Haarlem, Van Schaik garante que a greve já conta com o apoio de diversos estabelecimentos espalhados pelo país, incluindo os localizados em Roterdã, a segunda maior cidade do país.

Já na capital Amsterdã, a adesão deve ser pequena. “Enquanto no meu ‘coffeeshop’ 90% dos clientes são locais e 10%, turistas, em Amsterdã, 80% dos clientes são turistas”, justifica Van Schaik.

Essa presença de turistas, não apenas na capital, mas também em diversas cidades fronteiriças, é um dos motivos alegados pelos que defendem o fim da política de tolerância às drogas leves para acabar com o chamado “turismo da droga”.

Cansados dos problemas causados pelos 25 mil turistas, em especial belgas, franceses e alemães, que viajavam todas as semanas a Bergen-op-Zoom e Roosendaal, os prefeitos dessas duas cidades fronteiriças no sul ordenaram que seus oito “coffeeshops” deixassem de vender maconha em dezembro de 2008.

“O problema é que a Alemanha e a Bélgica permitem as pessoas fumarem, mas não permitem os ‘coffeeshops’. Então, eles [os consumidores] vêm até nós para comprar”, explica Van Schaik.

No fim do ano passado, o governo holandês apresentou um projeto de lei que restringe a venda de maconha e haxixe a pessoas que morem na região mediante a apresentação de uma carteirinha.

A proposta, entretanto, tem sido criticada uma vez que, segundo as leis vigentes na União Europeia, todos os cidadãos do bloco devem ser tratados por igual dentro dos países membros. “Isso não pode ser feito porque vai contra as leis holandesas e europeias. Não podemos deixar de vender para pessoas com base em sua nacionalidade”, justifica Van Schaik.

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