Novo acordo de desarmamento nuclear russo-americano também mira questão iraniana, afirmam analistas

Thiago Chaves-Scarelli
Do UOL Notícias

Em São Paulo

O novo acordo de desarmamento nuclear entre Estados Unidos e Rússia, que deve ser assinado dentro de 15 dias, chega em um momento propício para Washington, já que pode funcionar como argumento moral para o país lançar novas sanções ao programa atômico iraniano, de acordo com a análise de especialistas entrevistados pelo UOL Notícias.

 

Arsenal nuclear estimado dos países atualmente*

  • UOL

    De acordo com o Tratado de Não Proliferação Nuclear de 1968, os países oficialmente detentores de ogivas nucleares antes de 1967 - EUA, Reino Unido, Rússia, China e França - se comprometem em não transferir a tecnologia da bomba atômica a outro país. Índia, Israel e Paquistão nunca assinaram o tratado; Coreia do Norte firmou o documento, mas se retirou em 2003. De modo paralelo e complementar, o Start I de 1991 foi um tratado bilateral entre EUA e a ex-URSS no qual os dois países se comprometiam a reduzir seu arsenal de armas nucleares

    *Estimativas do Center for Defense Information e Nuclear Threat Iniciative (2009)

 

Representantes dos serviços diplomáticos de Estados Unidos e Rússia indicaram que um novo acordo está pronto e será validado em 8 de abril, em Praga (República Tcheca). O documento sucede o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start I, na sigla em inglês), firmado em 1991 com o objetivo de reduzir a presença de armas nucleares no mundo após a Guerra Fria, e cuja validade expirou em dezembro passado.

Para especialistas em política internacional, esse acordo bilateral chega em um momento propício para os Estados Unidos e será utilizado como argumento para promover sanções contra o Irã, acusado por Washington de desenvolver tecnologia nuclear com interesses bélicos.

“É ‘politicamente correto’ que esse assunto venha à tona agora”, afirma a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de São Paulo (USP).

“Os primeiros tratados sobre controle de armamento nuclear são da década de 1960”, lembra Aquino, citando o multilateral Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP). “Em nenhum momento eles [EUA e Rússia] tomaram iniciativas para colocar os acordos em prática desde então. Por que se incomodar com isso agora?”

Para a analista, a iniciativa estaria relacionada com uma política “agressiva” da diplomacia norte-americana para impor novas punições ao Irã.

“Os Estados Unidos estão colocando os outros países na parede” para que apóiem as sanções, explica a pesquisadora. “A secretária de Estado, Hillary Clinton, fez isso aqui no Brasil e repetiu a mesma ladainha agora no México”.

“Mas a primeira coisa que se pergunta é: e vocês? O que vocês fazem a respeito das suas ogivas nucleares? O novo tratado é uma resposta às críticas”, afirma Aquino.

Dois pesos, duas medidas

Paulo Edgar Resende, coordenador do Núcleo de Análise de Conjuntura Internacional da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), também vê o contexto das sanções contra o Irã nesse novo tratado. “Sem dúvida nenhuma os Estados Unidos vão usar esse argumento”, afirma

O analista também afirma que o documento é um avanço, mas com reservas. “É um fato positivo que EUA e Rússia tenham chegado a um acordo, sinalizando que a Rússia superou o sentimento de ameaça que ela sentia com o projeto de escudo antimísseis do governo [do ex-presidente George W.] Bush. A questão é que esses tratados jamais foram seguidos à risca, EUA e Rússia não deixaram de ser potências atômicas, e por isso são cobrados”.

“A indicação de ‘não proliferar’ vale mais para os outros do que para eles”, explica Resende. “O acordo será ainda mais positivo se isso significar efetivamente uma observação maior desses preceitos”.

De olho na próxima revisão do TNP

Gunter Rudzit, coordenador do curso de Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e ex-assessor do Ministério da Defesa, defende que os tratados de contenção atômica precisam ser vistos em uma perspectiva realista.

“Depois que você tira o gênio da lâmpada, é difícil colocar ele de volta. Ou seja, quando vários países controlam a tecnologia nuclear, é impossível imaginar que todos vão abrir mão de todas as bombas”, afirma. “De qualquer forma, o acordo mostra que americanos e russos estariam tentando caminhar para um número mínimo de bombas, somente para defesa estratégica”.

Assim como Aquino e Resende, Rudzit admite que o novo tratado é também um “argumento defensivo” para os EUA, acusados de um duplo discurso com relação à tecnologia nuclear bélica. O especialista destaca ainda que Washington tem em vista a próxima conferência periódica de revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear, agendada para maio, ao assinar seu pacto com a Rússia em abril.

“Não foi à toa que os Estados Unidos se esforçaram para concluir esse acordo antes da nova reunião do TNP”, afirma Rudzit, explicando que nessa reunião Washington pode usar seu “bom exemplo” para defender inspeções mais intrusivas a instalações nucleares de outros países – um tema que está na pauta da conferência.

A Conferência de Revisão das Partes para o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares 2010 acontece de 3 a 28 de maio, no quartel general da Organização das Nações Unidas, em Nova York.

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