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Em julgamento de Karadzic, testemunha relata torturas praticadas por tropas sérvias

Imagem de televisão mostra Radovan Karadzic durante seu julgamento nesta terça (13) - ICTY
Imagem de televisão mostra Radovan Karadzic durante seu julgamento nesta terça (13) Imagem: ICTY

Do UOL Notícias*

Em São Paulo

13/04/2010 15h38

O processo contra o ex-líder sérvio da Bósnia Radovan Karadzic, acusado de coordenar a perseguição contra a população muçulmana e croata, foi reiniciado nesta terça-feira (13), no Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII), que tem sede em Haia, na Holanda.

O sérvio muçulmano Ahmet Zulic, preso nos campos de detenção sérvios durante a guerra da Bósnia, foi a primeira testemunha a depor hoje e relatou a brutalidade das condições da prisão onde esteve e a forma como foi tratado pelas tropas sérvias.

Quanto tempo vai
durar o julgamento?

É difícil saber por quanto tempo vai durar o julgamento de Karadzic, mas a corte estima que ele não será concluído antes de 2012.

O réu de 64 anos, que está apresentando sua própria defesa no tribunal, tentou adiar o início do processo afirmando que não teve tempo suficiente para se preparar.

Os juízes da corte pediram à promotoria para reduzir o escopo das acusações, que, segundo Karadzic, constituem mais de um milhão de páginas de depoimentos.

A corte quer evitar a repetição do que ocorreu no julgamento do ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O ex-presidente iugoslavo conseguiu adiar seu processo em várias ocasiões e acabou morrendo repentinamente, antes que ele fosse concluído.

Sua morte foi um golpe para a promotoria, que o via como o principal responsável pelo banho de sangue que dividiu a Iugoslávia.

“Diante da falta de água, durante a prisão só podíamos beber nossa própria urina”, narrou o ex-prisioneiro.

Zulic explicou que viveu junto a dezenas de outros prisioneiros em uma pequena garagem. “Às vezes um homem nos segurava enquanto outro nos batia com um taco”.

“Quando alguma criança os observava, os sérvios diziam estar praticando caratê”, disse.

Zulic contou que sem água e amontoados em pequenos espaços, muitos prisioneiros morreram por desidratação. “Alguns morriam no meio da noite entre gritos, em dez minutos que pareciam uma eternidade”, acrescentou.

O ex-prisioneiro foi a primeira testemunha no julgamento de Radovan Karadzic, 64, ex-presidente da autoproclamada República dos Sérvios da Bósnia, acusado de genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade durante a guerra da Bósnia (1992-1995).

Karadzic, que se declara inocente e é o responsável pela sua defesa, pode ser condenado a prisão perpétua caso seja declarado culpado de ser o “comandante supremo” de uma campanha de limpeza étnica contra os muçulmanos, como acusa o promotor Alan Tieger.

Histórico

Com o final da guerra, Karadzic fugiu para Belgrado, onde trabalhou como médico com uma identidade falsa, até ser detido em julho de 2008. O processo em Haia contra ele teve início em outubro do ano seguinte, mas acabou adiado por causa da ausência de Karadzic, que alegou não ter tido tempo de preparar sua defesa.

Em março de 2010 o processo foi retomado, e novamente bloqueado por um recurso movido pelo acusado. O tribunal decidiu, depois disso, que as sessões seriam retomadas em três dias por semana, a partir do dia 13 de abril.

Karadzic é acusado por 11 crimes no conflito civil da Bósnia-Herzegovina, entre os quais duas acusações de genocídio: o massacre de Srebrenica, onde oito mil homens e meninos muçulmanos morreram em 1995, e o cerco de 44 meses de Sarajevo, que causou mais de dez mil mortos.

*Com informações de agências internacionais, BBC e Rádio ONU

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