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Pressão por levar presidente pode ter sido motivo de insistência de piloto polonês, afirma especialista

Guardas de honra transportam o caixão de Kaczynski no aeroporto de Smolensk, na Rússia.  - Mikhail Metzel/AP
Guardas de honra transportam o caixão de Kaczynski no aeroporto de Smolensk, na Rússia. Imagem: Mikhail Metzel/AP

Carlos Iavelberg<br>Do UOL Notícias*

Em São Paulo

13/04/2010 19h51

A pressão por levar altos cargos do governo polonês pode ser a causa da insistência do piloto em pousar o avião que levava o presidente Lech Kaczynski e que caiu matando 96 pessoas no último sábado (10) na Rússia.

À medida que surgem novas pistas, as investigações levam a crer que a causa do acidente tenha sido uma falha humana. Antes de o avião se chocar contra o solo, o piloto tentou pousar quatro vezes sem sucesso mesmo após a torre de controle do aeroporto de Smolensk ter informado que não havia condições meteorológicas adequadas.

“Duvidávamos que pudesse aterrissar normalmente. O chefe dos controladores aéreos disse três vezes para que fosse aterrissar em outro lugar, mas a tripulação não obedeceu”, afirmou ao jornal popular russo Komsomolskaya Pravda um controlador aéreo que estava na torre.

Por que, então, o pilotou insistiu no pouso ao invés de seguir as orientações passadas pela torre de controle para aterrissar em outro aeroporto?

“Quando se trata da presença de autoridades, não é incomum que o piloto force a barra para pousar e assim não atrasar os compromissos previstos”, opina o comandante Décio Corrêa, especialista em aviação.

“A partir do momento que a aeronave está em voo, a maior autoridade é piloto. É ele quem decide onde vai pousar, mesmo que a torre o informe que o aeroporto está fechado para pousos”, explica Corrêa.

Segundo o especialista, neste caso a torre de controle está obrigada a passar ao comandante as informações para aterrissar. O piloto, entretanto, estará sujeito a sofrer uma infração de tráfego aéreo.

A própria imprensa polonesa não descarta que o piloto insistiu no pouso para cumprir uma ordem direta do presidente Kaczynski, que era aguardado por milhares de pessoas na floresta de Katyn, onde prestaria homenagens aos milhares de poloneses executados a mando do então ditador soviético Josef Stalin há 70 anos.

Entretanto, até o momento, o governo polonês tem afirmado que nada indica que o piloto do avião tivesse sofrido tais pressões.

Falta de comunicação
De acordo com o chefe da torre de controle do aeroporto de Smolensk, após insistir no pouso e dar início ao procedimento, o piloto não transmitiu os dados sobre a altitude da aeronave.

Segundo explica Corrêa, os radares mais modernos informam a altitude do avião para a torre de controle. “Mas pode ser que esse aeroporto operasse com um sistema primário no qual o radar não conseguisse determinar a altitude”. Neste caso, o piloto tem de transmitir a informação.

O especialista, entretanto, ressalta que a importância de a torre saber a altitude do avião é para guiar a aeronave para que ela não colida contra  nenhum obstáculo alto como, por exemplo, uma montanha. Como o avião já havia tentado pousar quatro vezes, essa informação não era essencial, segundo Corrêa.

“Nesta situação, informar a altitude não é tão importante. Pode ter sido um esquecimento do piloto ou uma falha devido à pressão que a equipe sofria na hora. O piloto provavelmente já estava confuso”, analisa Corrêa.

Ainda segundo relatos de um controlador aéreo que estava na torre de controle no momento do acidente, o piloto teria dito: “Tenho bastante combustível, vou iniciar uma aproximação e, se não puder aterrissar, vou para outro aeroporto”.

“Se você tem combustível suficiente, o correto é você seguir para a alternativa [passada pela torre]”, afirma o especialista brasileiro.

*Com informações de agências internacionais

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