EUA tomaram cuidado no acordo militar com Brasil para não repetir a polêmica das bases colombianas, diz cônsul

Thiago Chaves-Scarelli
Do UOL Notícias

São Paulo

  • Cherie Cullen/EFE

    Ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim (esq.), e secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, após assinatura de acordo de cooperação, em 12 de abril, em Washington (EUA)

    Ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim (esq.), e secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, após assinatura de acordo de cooperação, em 12 de abril, em Washington (EUA)

O cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, Thomas White, confirmou nesta quinta-feira (15) que Washington tomou cuidados adicionais ao assinar um acordo militar com Brasília, depois da polêmica desencadeada no ano passado em torno de um tratado com a Colômbia.

“Temos capacidade de aprender. Consultamos – acho que os dois países consultaram – os vizinhos aqui na região antes do anúncio do acordo, uma coisa que não foi feita muito bem no caso da Colômbia”, afirmou White.

O acordo entre Washington e Bogotá, assinado no ano passado, autoriza a presença de militares norte-americanos em território colombiano, o que foi entendido por governos da América do Sul como uma ofensa à soberania da região. De acordo com os EUA, o objetivo é permitir operações de combate a guerrilheiros e a narcotraficantes, sem ingerência.

“[O acordo com Bogotá] provocou muitas perguntas, eu acho que respondemos às maioria delas, e há bem menos preocupação agora sobre a situação na Colômbia, mas aprendemos alguma coisa com essa experiência”, acrescentou o cônsul.

Questionado pelo UOL Notícias, White afirmou que a possibilidade de militares americanos em bases brasileiras “nunca” foi cogitada para o acordo com Brasília. “É uma situação diferente. Temos uma colaboração ampla com a Colômbia, especialmente com o problema das Farc. Foi um pedido do governo colombiano fazer esse tipo de relacionamento. Essa não é uma questão aqui no Brasil”, acrescentou.

O Acordo entre Brasil e Estados Unidos sobre Cooperação em matéria de Defesa foi assinado em Washington (EUA) em 12 de abril pelo ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim, e pelo secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, e prevê maior troca de experiências entre os dois países nesta área.

Para justificar a importância do acordo, o cônsul explicou que "os dois países temos preocupações com questões de tráfico de drogas, temos questões de imigração ilegal, temos interesse em proteger o próprio território nacional".

“Temos a intenção de ampliar o intercâmbio de militares, o intercâmbio de estudantes militares, especialistas e um intercâmbio também de ideias e experiências porque estamos trabalhando em várias partes do mundo junto com o governo brasileiro”, explicou White. “O exemplo mais claro, mais evidente, é o Haiti. É o engajamento maior entre nossos militares desde a Segunda Guerra Mundial”.

“Eu acho que o Brasil tem experiência no Haiti que pode ser muito útil para os Estados Unidos. Nós temos experiências em operações de manutenção da paz em outras partes do mundo”, afirmou o cônsul, citando o que cada país poderia oferecer.

Podemos imaginar militares brasileiros no Afeganistão a partir desse acordo? “Não, não se trata do Afeganistão. Podemos imaginar mais alunos brasileiros nas escolas militares dos Estados Unidos ou outras instituições acadêmicas do setor de defesa, provavelmente mais alunos americanos aqui no Brasil, queremos ampliar os intercâmbios entre os dois lados nessa área mas não estamos tratando aqui de coisas operacionais”.

Comércio de aviões militares

O primeiro artigo do documento afirma que o objetivo é promover “a cooperação entre as partes em assuntos relativos à Defesa, particularmente nas áreas de pesquisa e desenvolvimento, apoio logístico, segurança tecnológica e aquisição de produtos e serviços de Defesa.” A partir dessa proposição, o ministro Jobim estimou que será mais fácil para o Brasil vender os aviões militares Super Tucano, fabricados pela Embraer.

“Existe a possibilidade de os Estados Unidos dispensarem a licitação para a compra de aviões se o país tiver um acordo militar”, declarou o ministro brasileiro após a assinatura do acordo.

Questionado pelo UOL Notícias, o cônsul americano estimou que haverá maior proximidade entre os dois países, mas as licitações não devem ser suspensas.

“Os dois governos vão continuar com um processo público durante as compras”, tanto em relação á compra de caças pelo Brasil quanto na negociação de Super Tucanos como avião de treinamento para o exército americano, respondeu Thomas White.

“Aqui [no acordo] a ideia é que vamos conversar sempre mais sobre aquisições militares, isso vai fazer parte do diálogo, mas não tem nada aqui [definido] com a questão dos caças, ou com a questão dos Super Tucanos”, afirmou.

O Brasil está próximo de concluir a compra de novos aviões militares, em um negócio que alcança a cifra dos US$ 4 bilhões. Competem por essa compra do governo federal a companhia norte-americana Boeing, a francesa Dassault e a sueca Saab.

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