Eleições britânicas podem sepultar "onda rosa" europeia dos anos 90

Maurício Savarese
Do UOL Notícias

Em São Paulo

  • AFP

    Líder conservador britânico, David Cameron, deu força a seu partido contra os trabalhistas

    Líder conservador britânico, David Cameron, deu força a seu partido contra os trabalhistas

Quando as principais potências europeias elegeram governos de centro-esquerda, no fim dos anos 90, todas adotaram políticas econômicas conservadoras, mas intensificaram gastos sociais. Uma década depois, o Reino Unido, último reduto ligado ao trabalhismo na parte rica do Velho Continente, pode dar fim à chamada “onda rosa” que inspirou movimentos semelhantes na América Latina.

A poucas semanas das eleições de 6 de maio, o atual premiê, Gordon Brown, do Partido Trabalhista, está em uma acirrada disputa com o líder conservador, David Cameron. Se não houver maioria clara no Parlamento de 650 assentos, pode haver um claudicante governo de unidade nacional ou uma coalizão com os liberais-democratas.

O Partido Conservador liderou a disputa por 15 meses, mas sua vantagem minguou. A falta de compromissos claros reduziu o interesse pela oposição e equilibrou a disputa com os governistas, que buscam seu quarto mandato consecutivo. Mas se o jovial Cameron, 43, bater o sisudo Brown, 59, haverá governo conservador em todas as potências europeias: Alemanha, França e Itália já fizeram esse movimento.

Progressistas e conservadores na União Europeia nos últimos anos

Desde que os trabalhistas se afastaram de sua plataforma original, os conservadores se dividem entre uma posição centrista e menos ideológica e um retorno à direita dura dos tempos de Margaret Thatcher, premiê de 1979 a 1990). Se os oposicionistas voltarem a Downing Street 10, endereço do governo britânico, haverá um efeito no mínimo simbólico sobre a Europa, hoje mais avessa a esquerdistas.

“A influência do Reino Unido sobre o resto da Europa é estranha, porque estamos fora da zona do euro. E o líder Cameron não é exatamente próximo dos movimentos populares de direita no resto da Europa. Mas seria um símbolo da derrota de uma esquerda que perdeu influência no país e no resto do continente”, disse Paul Kelly, professor de Ciência Política da LSE (London School of Economics).

James Denselow, especialista em política britânica e europeia do King's College, concorda: "Na Europa é notório o crescimento dos governos de direita, a 'onda rosa' já se foi. Mas temos no Reino Unido uma direita popular de tendência diferente da do Partido Conservador, que ainda é muito vago sobre o que quer", disse.

"Essa falta de definição ideológica certamente não ajuda Cameron, que teve de praticamente rebatizar seu partido e iniciar um debate sobre o papel do Reino Unido na Europa. Mas não há dúvida de que ele é de centro-direita e que suas preocupações estão ainda mais distantes do âmbito social do que a de parte da base do Partido Trabalhista."

Pêndulo
O auge da centro-esquerda europeia veio em 1998, quando França, Itália, Alemanha e Reino Unido tinham governos ligados ao trabalhismo ou ao socialismo. A esses países, somaram-se nações de economias médias para os padrões do continente, como Holanda e Suécia. Com exceção dos britânicos, todos esses citados elegeram líderes conservadores para substituir os progressistas.

Apesar do simbolismo de fim da “onda rosa”, o professor da London School diz que Brown, seu antecessor, Tony Blair, e antigos líderes supostamente progressistas do Velho Continente já governavam como centro-direita.

“Em termos de política real, as eleições não empolgaram nem aqui nem no exterior porque ninguém fará algo realmente diferente. Falta substância no debate, como tem faltado em todas as disputas recentes da Europa”, avalia Kelly. “Mas também por isso muita gente decidiu algo menos ideológico. Algo como ‘vamos tirar esse cara daí’. No fim dos anos 90, o ambiente era mais ideológico, apesar da insatisfação.”

Há doze anos, a França, que divide o governo com fortes poderes para o presidente e para o premiê, tinha o socialista Lionel Jospin como primeiro-ministro. Agora, o conservador Nicolas Sarkozy detém o poder, ao contrário do que acontecia com o antecessor, o conservador Jacques Chirac.

A Itália que hoje paira ao redor de Silvio Berlusconi estava sob o comando de Romano Prodi e seus aliados comunistas. Se a dura Angela Merkel é a atual chanceler alemã, antes estava no poder o moderado Gerhard Schröeder e seu “novo centro”.

No Reino Unido, o Novo Trabalhismo, moderado e amigável para o mercado, tomou conta em 1997, liderado por Tony Blair. “Todos esses países já queriam políticas fiscais responsáveis, bons serviços públicos e controle da imigração. Mas havia mais discussão sobre como fazer”, diz Kelly.

Dia D
A força da centro-esquerda governista na Europa começou ruir quando Giuliano Amato, premiê italiano da coalizão que sustentou Prodi, deu lugar a Berlusconi. Nas eleições de 2001, o barão da mídia nacional venceu Francesco Rutelli com a ajuda de políticos da Liga do Norte, uma facção anticomunista da região mais rica do país. Mas a derrocada da onda rosa ganhou corpo no dia 21 de abril de 2002.

Foi então que o francês Jospin, do Partido Socialista, assombrosamente ficou fora do segundo turno das eleições presidenciais. Em primeiro lugar, ficou o conservador Chirac, que acabaria reeleito. Em segundo, apareceu Jean-Marie Le Pen, da extrema direita.

Atônitos, os progressistas franceses defenderam um slogan incomum: “Vote no ladrão, não no racista”, referindo-se a escândalos do governo Chirac e à ideologia de Le Pen. Na eleição seguinte, Nicolas Sarkozy foi eleito com relativa tranquilidade no embate com a socialista Segolène Royal.

A exceção para a centro-esquerda europeia é a Espanha. O contexto das vitórias, no entanto, é diferente: José Luis Zapatero se elegeu pela primeira vez em 2004 na esteira dos ataques terroristas em Madri, que fragilizaram o governo conservador.

Até a Suécia, por décadas um reduto social-democrata, viu um político de mais conservador chegar ao cargo de primeiro-ministro. Dentro de três semanas, o Reino Unido decide se a história iniciada na década passada terá seu ponto final.
 

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