Igreja Católica é criticada por demora em responder a casos de abuso

Carlos Iavelberg
Do UOL Notícias

Em São Paulo

Em meio à crise que vive a Igreja Católica por conta dos abusos sexuais cometidos por padres, o papa Bento 16, que hoje comemora cinco anos de pontificado, tem sido duramente criticado por tardar em dar uma resposta ao problema.

A situação se agravou quando foram publicadas reportagens sobre o envolvimento direto de Bento 16, quando ainda era o cardeal Joseph Ratzinger, na demora em investigar denúncias. Os casos ocorreram na época em que ele era arcebispo de Munique, na Alemanha, entre 1977 e 1981, e durante os 25 anos em que foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

“O cardeal Ratzinger assumiu naquela época o mesmo comportamento que todos os bispos no mundo assumiam diante daqueles casos. Não se esqueça que ele era um teólogo, e não um psicólogo ou um especialista em casos desse tipo. Ele seguiu a diretriz geral. O erro da igreja foi ter demorado muito em entender o que eram de verdade os casos de pedofilia”, afirma Francisco Borba Ribeiro Neto, sociólogo e coordenador de projeto do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-SP.

“Durante muito tempo, Roma acobertou vários casos [de abusos sexuais]. Isso é muito grave porque o papel de Roma é defender o mais fraco e o mais fraco, no caso, é a criança”, critica o religioso Frei Betto, um dos maiores expoentes da Teologia da Libertação no Brasil.

O papel de Roma é defender o mais fraco e o mais fraco, no caso, é a criança

Frei Betto

Em meio às críticas, o Vaticano publicou dois documentos para tentar responder as criticas que vem sofrendo. Há um mês, Bento 16 divulgou uma carta aos irlandeses dizendo que sentia "vergonha e remorso” e anunciando uma investigação formal das dioceses locais, envolvidas em casos de abuso sexual. Chamada de "Carta Pastoral", o documento foi o primeiro escrito por um papa sobre a pedofilia.

No começo da semana passada, o Vaticano divulgou um manual sobre o procedimento da Igreja Católica para os casos de abusos sexuais de crianças por padres. No documento, a Santa Sé pede que os casos de padres pedófilos sejam denunciados "sempre" à autoridade civil e que, nos casos mais graves, o papa pode reduzir os religiosos diretamente ao estado laical sem a necessidade de um julgamento canônico.

“A reação do Bento 16 [com relação aos abusos] foi muito tímida e tardia. Foi preciso uma grande pressão internacional para que, primeiro, ele escrevesse a carta aos bispos da Irlanda, quando o fato já tinha sido denunciado há muito mais tempo”, agurmenta Frei Betto.

Já para o sociólogo Ribeiro Neto, o documento põe fim a uma falta de articulação coesa por parte da igreja para tratar esses casos. “A carta do papa aos católicos da Irlanda é praticamente a primeira plataforma de ação que a igreja produz em relação a esses casos de pedofilia”, afirma Ribeiro Neto.

A igreja sempre foi cuidadosa com relação a esses escândalos de abuso sexual como todo mundo seria se fosse na própria família.

Luiz Felipe Pondé, professor

Para Luiz Felipe Pondé, professor do Departamento de Teologia da PUC-SP e da Faculdade de Comunicação da Faap, a carta é um reconhecimento por parte da igreja de que o problema existe. “A própria população católica pede uma atitude mais enérgica ou, pelo menos, mais transparente”, afirma.

Segundo Pondé, a igreja age "de forma humana" quando busca abafar os casos de abusos envolvendo sacerdotes. “A igreja sempre foi cuidadosa com relação a esses escândalos de abuso sexual como todo mundo seria se fosse na própria família. Imagina se na família o tio é acusado de cometer abuso sexual, provavelmente ninguém iria querer expor essa pessoa a execração pública. A igreja age dessa forma, ela age como se fosse uma família e isso muita gente não entende”, compara.

Você não pode acusar a igreja de tentar perdoar os padres pedófilos porque ela está obrigada a fazer isso

Francisco Borba Ribeiro Neto, sociólogo

De acordo com Ribeiro Neto, além do fator “família”, a igreja ainda tem a obrigação de perdoar. “A igreja, por obrigação, tem sempre de assumir uma posição de perdão e misericórdia. Isso é obrigatório. Você pode até acusar a igreja por não ter sido tão misericordiosa com pecadores que estavam fora dela quanto está sendo com os padres pedófilos. Mas você não pode acusá-la de tentar perdoar os padres pedófilos porque ela está obrigada a fazer isso”, justifica.

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