Sistema caduco faz vitória controversa de Bush nos EUA pairar sobre o Reino Unido

Maurício Savarese
Do UOL Notícias

Em São Paulo

  • Ken McKay/AFP

    Da esquerda para a direita, o liberal democrata Nick Clegg, o conservador David Cameron e o primeiro-ministro, o trabalhista Gordon Brown, durante o 1º debate televisionado no Reino Unido

    Da esquerda para a direita, o liberal democrata Nick Clegg, o conservador David Cameron e o primeiro-ministro, o trabalhista Gordon Brown, durante o 1º debate televisionado no Reino Unido

Cada um dos 650 distritos eleitorais indicarão um membro do parlamento. O mais votado é eleito – mesmo sem 50% do total – e tem direito de indicar o líder de seu partido como primeiro-ministro. Esse sistema sem maioria absoluta que lembra o norte-americano pode causar no Reino Unido o mesmo impasse vivido nos Estados Unidos após a disputa (eleitoral e judicial) entre o republicano George W. Bush e o democrata Al Gore, em 2000.

Há dez anos, o governo britânico sob o premiê trabalhista Tony Blair mudou limites de distritos eleitorais, como o país costuma fazer periodicamente. A ideia das alterações é refletir nas votações a vontade e as questões de um determinado território. O problema é que fluxos migratórios e imigratórios mexeram profundamente em quadros locais e não foram atualizados antes da votação de 6 de maio.

Isso impulsionou o poder dos conservadores em áreas que já dominavam e tornou a vantagem dos trabalhistas mais estreita, mas decisiva, em outros deles. Com isso, o premiê Gordon Brown pode se manter no poder mesmo que tenha menos votos que o oposicionista David Cameron ou que o liberal-democrata Nick Clegg. Projeções duas semanas antes da disputa indicam que os trabalhistas ficarão atrás dos dois rivais.

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Os conservadores, que lideraram a disputa 15 meses antes da votação, somariam 32%, com direito a indicar 251 parlamentares. Os liberais-democratas ficariam com 31% dos votos, mas a divisão atual só daria a eles 117 cadeiras. Os trabalhistas, com 26% dos eleitores, dominam em mais distritos (embora com menos eleitores vivendo neles): os governistas teriam maioria de 253 representantes. Os outros partidos, incluindo independentes, verdes e extremistas de esquerda e direita, teriam 29 assentos.

“Existe uma sombra de Bush sobre o Reino Unido. Os mercados financeiros, os analistas políticos, todos temem uma vitória que não seja decisiva. Já houve Parlamentos divididos antes, mas o momento atual, de tentativa de superação da crise econômica de 2008, torna o país mais vulnerável”, disse Paul Kelly, professor de Ciência Política da London School of Economics, ao UOL Notícias.

“Não haverá aqui disputa judicial como nos EUA, mas a política do bate-boca pode dominar e adiar por meses as soluções reais para o enorme déficit orçamentário que temos, por exemplo. Os EUA de 2001 ainda estavam na pujança econômica e se permitiram aquela loucura. Nós não podemos”, completou, ironizando o slogan do presidente Barack Obama. O buraco no orçamento britânico é de US$ 270 bilhões.

Em 2000, Gore foi derrotado por Bush graças ao colégio eleitoral que define o resultado: na preferência popular, o democrata ficou na frente do presidente republicano. A derrota no voto geral e a crise das urnas da Flórida – Estado que decidiu o vencedor - detonou uma crise de legitimidade do norte-americano, superada apenas depois dos ataques terroristas de 2001 a alvos em Nova York e Washington, quando a popularidade de W. Bush aumentou.

Até lá, o país se dividiu e o Congresso norte-americano se mostrou intransigente às propostas do então presidente Bush. O mercado financeiro oscilou pesadamente, duvidoso de que o mandatário teria condições de cortar impostos, promover reformas e iniciar negociações comerciais. Mandatários de outros países receavam encontrá-lo, por conta da disputa com o partido do popular antecessor na Casa Branca, o democrata Bill Clinton. A situação durou meses, até os atentados. No caso do Reino Unido, mergulhado nas turbulências econômicas, pode ser tempo demais.

Temor de coalizão
Não há governo de coalizão no Reino Unido desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A indefinição entre trabalhistas e conservadores poderá exigir uma gestão desse tipo com a ajuda do liberal-democrata Clegg. Historicamente distante da centro-direita, o próprio líder, no entanto, já adiantou que tampouco ajudaria Brown.

Quadro eleitoral britânico em 2005

  • ArteUOL

Por conta disso, muitos analistas britânicos vêem como mais provável um acerto não oficial – o chamado governo de minoria, que contaria com apoio tácito dos liberais democratas. Para que isso aconteça, a exigência principal diria respeito exatamente ao que pode levar os trabalhistas a seu inédito quarto mandato consecutivo: a reforma no sistema de votação de maioria simples nos distritos eleitorais.

Apesar disso, a anuência aos trabalhistas parece mais próxima do que aos conservadores, que, no fim das contas, obtiveram distritos que se tornaram seguros para eleição de seus representantes na última reforma eleitoral. A não ser que os centristas liberais-democratas aceitem uma guinada à direita, Brown terá, mesmo se perder, autorização constitucional de tentar formar seu governo.

O Reino Unido viveu essa situação pela última vez há 32 anos. Em 1978, o Partido Trabalhista, que formava um governo de maioria, teve de pedir apoio ao Partido Liberal – um dos fundadores do atual ajuntamento liberal-democrata. O acordo saiu, mas não foi oficializado em torno de uma coalizão.

A diferença entre aquela época e hoje é também no plano pessoal. O então premiê James Callaghan foi mais afável para atrair os liberais. Brown e Clegg já trocaram farpas nos últimos dois anos. Discordam sobre como combater a corrupção e como lidar com os EUA – em um dos temas mais sensíveis entre os dois países, o liberal-democrata se opôs à guerra do Iraque, enquanto o trabalhista ajudou a promovê-la.

Uma aproximação entre os dois partidos pareceria mais natural sob outros líderes. Esse movimento, dizem os jornais britânicos nas últimas semanas, poderia reconduzir Brown ao cargo de primeiro-ministro para pouco depois forçá-lo a deixar o cargo. Mas as peças só estarão todas no tabuleiro depois de 6 de maio na mais acirrada disputa eleitoral da história recente do Reino Unido. 

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