Decisão do Campeonato Inglês ofusca reta final das eleições britânicas

Maurício Savarese
Do UOL Notícias
Em Londres

A quatro dias da votação que indicará o próximo primeiro-ministro britânico, os políticos trabalhistas, conservadores e liberal-democratas disputam atenção não apenas entre si nesta segunda-feira (3), mas também com o esporte mais popular do mundo. A acirrada temporada do futebol inglês definirá o título e uma vaga para a principal competição europeia somente na última rodada, que acontece dois dias depois da eleição que decidirá o destino do país.

Há cerca de um mês, quando o premiê e candidato trabalhista Gordon Brown anunciou a data da votação, acertada por conta de uma outra votação marcada para o mesmo dia, especialistas alertaram para o risco de os políticos atraírem menos interesse do que o esporte – uma vez que em maio acontecem as retas finais do campeonato inglês e da Liga dos Campeões.

A alternativa seria realizar o pleito no início de junho, mas nesse momento os preparativos para a Copa do Mundo já estariam a todo o vapor e afastariam o público da decisão sobre os novos 650 parlamentares que indicarão o próximo primeiro-ministro. O avanço da data eliminou esse problema, mas coincidiu com as vésperas da decisão da “Premier League”. Até os principais candidatos estão envolvidos com a corrida entre o líder Chelsea e o Manchester United, um ponto atrás.

“Esse é o pior cenário para a eleição: uma disputa futebolística que é assunto de todos os bares e no trabalho, esvaziando o debate sobre o que acontecerá”, disse Paul Kelly, professor de Ciência Política da London School of Econmics (LSE), ao UOL Notícias. “Nesta semana não há debates. Não devem aparecer fatos novos. E existe expectativa de um Parlamento sem maioria clara. Tudo isso é afetado pelo futebol, que ajuda a dispersar a possibilidade de mudança no nosso cenário de impasse legislativo.”

As pesquisas britânicas apontam que o Partido Conservador deveria obter maioria no Parlamento, mas sem que seja o bastante para governar sozinho. O Partido Liberal-Democrata, segundo na intenção de voto geral, mas com menos chances de vencer em seus distritos, promete ser essencial para a governabilidade, ao menos cedendo apoio tácito aos oposicionistas atuais.

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Preferências boleiras

Em termos de preferência clubística, Brown e o conservador David Cameron, cujos partidos devem ter o maior número de assentos no Parlamento, fizeram escolhas incomuns. O premiê, nascido na Escócia, torce para o frágil Raith Rovers, que tem cinco títulos nacionais de menor expressão e nada da tradição dos gigantes Celtic e Rangers. O oposicionista torce sem muito entusiasmo para o Aston Villa, time de Birmingham que foi campeão europeu de 1982.

Na reta final da liga inglesa, no entanto, os dois já decidiram por quem vão torcer: o trabalhista Brown dará apoio ao Manchester United, do técnico escocês sir Alex Ferguson, que já declarou seu apoio a ele. Já o conservador Cameron ficará com o Chelsea, que tem mais chances de ficar com o campeonato porque depende apenas de uma vitória em casa contra o frágil Wigan, 16º colocado. O Manchester enfrenta o Stoke City, 12º lugar.

O liberal-democrata Nick Clegg, que ascendeu nas últimas semanas, ainda não declarou para quem torcerá nas rodadas decisivas. Maldosamente, analistas britânicos dizem que ele torcerá para quem vencer, assim como faria no Parlamento. Outros preferem excluí-lo da reta final do campeonato nacional e compará-lo ao pequeno e surpreendente Fulham, quem chegou à decisão da Europa League, segundo campeonato mais importante do continente.

Para ofuscar ainda mais a eleição, na véspera haverá a partida entre Manchester City e Tottenham, pela penúltima rodada do Campeonato Inglês. Separados por um ponto, ambos buscam uma vaga na Liga dos Campeões, principal torneio do continente, na próxima temporada. Nesse confronto, Cameron já disse preferir o Tottenham, outro tradicional clube londrino.

Futebol em campanha

Por conta da importância do tema futebol nas eleições, o Partido Trabalhista sugeriu levar à Câmara dos Comuns (análoga à Câmara dos Deputados brasileira), a ideia de que grupos de torcedores adquiram até 25% das ações de seus clubes na bolsa de valores. O alvo são as classes média e baixa, que criticam a venda de grandes clubes como Manchester United e Liverpool a norte-americanos que não entendem sobre o esporte.

Cameron ridicularizou a proposta dos rivais, mas usa o futebol para fazer alusão ao déficit orçamentário de US$ 270 bilhões que o país contraiu. Os principais clubes britânicos têm grandes dívidas e neste ano nenhum deles se classificou para as semifinais da Liga dos Campeões.

“Dezoito dos 20 times da liga inglesa deviam em 2008 mais de US$ 5 bilhões, segundo estimativas da UEFA, entidade que rege o futebol no Velho Continente. “Vejam esse exemplo e notem como não podemos repetir isso para o nosso país”, repetiu ao longo da campanha.

Uma discussão importante. Mas que até o dia da eleição, este país onde o voto não é obrigatório se perguntará: é melhor sair de casa para votar ou ficar para acompanhar tudo sobre a decisão futebolística? As pesquisas que indicam comparecimento perto dos 60%, um dos menores níveis da história britânica, indicam que Chelsea e Manchester United terão mais torcida do que Cameron e Brown.

  • Assista ao vídeo, em inglês, divulgado pelo jornal "Daily Telegraph", que mostra gafe de Brown

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