Dinheiro, repressão e "jeitinho" chinês fazem parte da vida em Xangai

Luciana Lima
Enviada especial da Agência Brasil
Em Xangai (China)

A ostentação capitalista de Xangai, a sanha comercial e, principalmente, seu caráter cosmopolita quase encobre o controle exercido pelo governo chinês em todos os níveis. Em Xangai, o consumo pulsante e a abertura para a relação com todas as outras nacionalidades convivem o tempo inteiro com a privação das liberdades individuais. Não é à toa que a cidade foi escolhida para sediar a Expo 2010, feira mundial que tem o objetivo de propor mudanças para se ter cidades melhores no futuro. Xangai é o que a China quer ser, ou o que a China quer mostrar ao mundo que é.

Sob uma “maquiagem” que escondeu casas pobres, mal conservadas, por trás de outdoors com propaganda da feira, canteiros recém plantados com flores inacreditavelmente coloridas, Xangai recebeu visitantes de todo o mundo.

A população não respeitou a proibição de pendurar as roupas e os edredons em varais do lado de fora das casas, certa de que em tempos de festa, o governo não teria como reprimir residência por residência. O resultados são edredons, peças íntimas e roupas estendidos do lado de fora dos minúsculos apartamentos e até em espaços públicos, utilizando as grades de ferro que servem para organizar as constantes e imensas filas.

O governo chinês investiu pesado para receber a feira, oportunidade de mostrar ao mundo o poder econômico da China. Foram US$ 4 bilhões na promoção do evento. A malha do metrô foi ampliada: cerca de 90 estações foram construídas na linha que serve a área da feira, que tem mais de 5,28 quilômetros quadrados.

“Estalando de novas”, as estações ainda têm cheiro de tinta. Algumas entradas para o metrô, como a de Madang, ainda parecem um imenso estacionamento cimentado pois não houve tempo de receber o revestimento em granito.

Para receber a feira, o governo construiu dois aeroportos com dimensões chinesas, além de vias expressas, sobre viadutos que levam direto quem chega à parte central da cidade. No trajeto não se consegue ver os bairros periféricos.

A repressão, no entanto, acaba aparecendo no dia a dia da cidade. Policiais são treinados para vigiar de forma minuciosa qualquer movimentação dos que levam câmeras e filmadoras profissionais.

Em um dos bairros mais ocidentalizados de Xangai, Xintiandi, onde se concentra o consumo de luxo, com lojas e restaurantes de todo mundo, um cinegrafista foi impedido de registrar a imagem de duas chinesas que tocavam violino na rua com o objetivo de entreter centenas de turistas que circulavam pelo local.

Ao sacar a câmera, cinco policiais o abordaram, dizendo em chinês que não se podia gravar imagens sem autorização expressa do governo. Ao mesmo tempo, os policiais se comunicavam por rádio com seus superiores pedindo apoio para resolver a questão. A música acabou, as chinesas recolheram os instrumentos e os superiores ainda não haviam chegado a uma conclusão sobre a permissão de se filmar.

Controle da imagem que sai e controle da imagem que chega. Na cidade em que se veem celulares nas mãos de qualquer habitante, onde empresários pequenos, médios e grandes se jogam para as negociações com parceiros de todos os países, no país que produz componentes eletrônicos de telecomunicações para todo o mundo, ainda vigora a proibição de assistir televisão via satélite para o cidadão comum.

Esse “luxo” é permitido apenas para empresas, hotéis que conseguem a autorização do governo. Também permanece a proibição para conteúdos classificados de pornográficos, violentos ou que ameacem interesses do Estado.

Uma parte da população só não permanece alheia ao que se fala da China e ao que se fala com a China, graças ao lucrativo e crescente mercado ilegal de receptores via satélite. Mesmo contrariando regras do governo, em 2008, foram vendidas no país mais de 10 milhões de antenas parabólicas com receptores de sinais internacionais.

Um exemplo de outro “jeitinho” chinês se revela na venda de antenas e receptores permitidos apenas para áreas rurais, que passaram a ser adquiridos pela população urbana. Essas antenas recebem programação chinesa doméstica gratuita e permitem aos moradores das cidades receber todos os canais sem ter que pagar taxas de assinatura. O famoso “gato”. Cerca de 40 milhões dessas antenas foram vendidas em 2009.

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