Parlamento a céu aberto rechaça conservadores; brasileiros temem mudanças no Reino Unido

Maurício Savarese
Do UOL Notícias

Em Londres

O Parlamento britânico fica à beira do rio Tâmisa, indicado pelo relógio Big Ben. Mas dentro do Hyde Park, o maior parque da cidade, há um local onde qualquer um que tenha um banquinho pode falar e ser ouvido. Entre os progressistas que frequentam o chamado Speaker’s Corner, o principal temor é que nesta quinta-feira (6) o conservador David Cameron se eleja premiê e restrinja a entrada de estrangeiros que fazem a multiculturalidade do país.


Há mais de 150 anos, figuras ilustres e simples populares vão a esse lugar para fazer discursos e angariar apoio a suas ideias. Esse foi o caso do fundador do socialismo científico, Karl Marx (1818-1883) e do escritor George Orwell (1903-1950). Ou de pessoas menos conhecidas, como o jardineiro brasileiro Reginaldo Souza, 38, que vive em Londres desde 2004 e se diverte ali com amigos da escola onde trabalha.

“Todos os brasileiros e estrangeiros estão com receio de os conservadores vencerem e dificultarem a vinda de estudantes e de gente que quer trabalhar. Desde o início da campanha, no mês passado, venho com o pessoal uma vez por semana e sempre falam sobre o risco de sermos deportados, de sofrermos mais preconceito, de termos mais dificuldade para ter emprego. Falo também”, disse ele ao UOL Notícias.

Colega de trabalho de Souza, o polonês naturalizado britânico Richard Weichman, 30, diz que votará nos liberais-democratas do popular Nick Clegg, apesar de ter votado pelos trabalhistas do premiê Gordon Brown nas eleições de 2005. O motivo: evitar a vitória dos conservadores. “Onde eu moro o candidato ‘lib-dem’ tem mais chance de vencer o dos conservadores. Eu tenho que defender o emprego dos meus amigos”, diz.

Candidatos cruzam a Grã-Bretanha na reta final das eleições


A maioria dos britânicos que frequenta o lugar, dizem eles, votará pelos trabalhistas ou pelos liberais-democratas. “Os conservadores não conseguem falar muito por aqui, sabem que há muitas etnias diferentes, muita gente da esquerda e acabam se manifestando mais na hora de votar do que aqui no Corner”, diz Souza. “Sem contar que muitos são preconceituosos contra estrangeiros”, afirmou Weichman.

Regras do jogo
Até horas antes da votação, as pesquisas indicavam maior possibilidade de um Parlamento sem maioria clara. Exceto por uma pesquisa, as sondagens indicam que os conservadores de Cameron teriam mais assentos na Câmara dos Comuns (análoga à Câmara dos Deputados) do que os trabalhistas de Gordon Brown. Os liberais-democratas de Clegg ficariam em terceiro no número de cadeiras.

Apesar disso, a maioria das críticas no Corner é endereçada aos conservadores. “Grupo de saqueadores” e “bastardos xenófobos” são duas das ofensas mais repetidas contra o partido que governou com Margaret Thatcher na década de 80 e que assumiu uma posição mais centrista sob a liderança de Cameron recentemente. Os conservadores são mais populares no interior da Inglaterra do que em Londres.

Sabendo disso, os oradores do Speaker’s Corner ousam usar linguagem mais pesada contra o candidato que dificilmente será defendido naquele local. Evitam, no entanto, palavrões –em especial em relação ao povo e à família real, o que poderia causar sua prisão. Policiais rodeiam os oradores ao longo de suas exposições.

Para dificultar o trabalho dos policiais, os oradores usam banquinhos, caixotes ou algum objeto que os permita ficar suspensos no ar. Dessa forma, não diriam nada ofensivo em solo britânico e não estariam sujeitos a prisão. “Na verdade isso não faz diferença nenhuma. Mas estamos aqui para garantir a segurança do público e evitar extremismos. Temos de ser tolerantes”, disse o policial Thomas Cockney.

Enquanto há um orador, até 50 pessoas podem se reunir em torno dele. Outros preferem fazer isso preguiçosamente, em uma das cadeiras de praia alugadas no Hyde Park. Como o voto não é obrigatório no Reino Unido, há também pedidos para que as pessoas compareçam a suas zonas eleitorais.

“Compareçam por aqueles que não podem eleger seus representantes”, bradou Weichman em seu discurso. O público das cadeiras de praia não parece comovido. “É direito deles”, lamenta Weichman. “Mas ao menos eles saberão o que os progressistas sentem em relação à possibilidade de mudar de governo. Fazer política não é só ganhar eleições, é também ter a chance de dizer.”

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