Britânicos votam nesta quinta-feira na mais acirrada eleição em décadas

Maurício Savarese
Do UOL Notícias

Em Londres

Parlamento a céu aberto rechaça conservadores; brasileiros temem mudanças

Ingleses, escoceses, galeses e norte-irlandeses irão às urnas nesta quinta-feira (6) para decidir quem será o próximo primeiro-ministro britânico na mais acirrada eleição desde os anos 70, conforme indicam as pesquisas de intenção de voto. A expectativa é de que nenhum partido terá maioria na Câmara dos Comuns (análoga à Câmara dos Deputados) e que o vencedor precisará negociar para ocupar o cargo.

De acordo com as sondagens divulgadas na véspera da votação, o líder conservador David Cameron emerge como o favorito para ocupar Downing Street 10, sede do governo. Mas o Partido Trabalhista, do premiê Gordon Brown, pode triunfar se tiver ajuda dos eleitores do liberal-democrata Nick Clegg no Parlamento, formado por 650 assentos. Mesmo assim, o atual primeiro-ministro poderia ter que se afastar. 


A pesquisa YouGov divulgada na quarta-feira (5) indicou que os conservadores devem ter entre 300 e 310 assentos. Os trabalhistas teriam entre 230 e 240 cadeiras, enquanto os liberal-democratas obteriam entre 75 e 85 parlamentares. Outros partidos –que se dividem entre os temáticos, como o verde e a extrema-direita, e os nacionalistas galeses, escoceses e norte-irlandeses– teriam cerca de 30 representantes.

“Se isso estiver certo, David Cameron deverá ser o primeiro-ministro na noite de sexta-feira, na chefia de um governo de minoria”, disse o presidente da YouGov, Peter Kellner, em seu site.

No Reino Unido, não há um governo de minoria desde a década de 70, quando os trabalhistas governavam com apoio tácito de um dos partidos que fundou os liberais-democratas. A expectativa de analistas políticos e do mercado financeiro é que o mesmo aconteça desta vez –se os números forem confirmados.

Os conservadores passaram 15 meses na liderança nas pesquisas de intenção de voto. A campanha acirrou o confronto com os governistas do Partido Trabalhista, mas o efeito Clegg tornou a corrida sucessória imprevisível. A recente gafe de Brown, que chamou uma eleitora de “intolerante” por meio de um microfone que não percebeu estar ligado, pode desequilibrar o jogo em favor dos oposicionistas.
 

Guerra de personalidades
Brown, um escocês de 59 anos, tenta conseguir um inédito quarto mandato consecutivo para os trabalhistas. Ele conseguiu nas últimas semanas reduzir sua fama de turrão e ácido –mas o comentário captado nos bastidores expôs novamente um homem que é famoso dentro de seu próprio partido pela inflexibilidade e pela dureza com que debate com seus adversários.

Mesmo que evite uma vitória clara da oposição, como indicam as pesquisas de intenção de voto, a tendência é de que ele deixe de ser líder de seu partido –condição necessária para ser primeiro-ministro– depois da votação. Os trabalhistas já discutem o pós-Brown, indicando que o novo homem forte poderá ser o atual responsável pela diplomacia britânica, David Miliband.

Já o conservador Cameron briga nestas eleições para levar seu partido de volta ao poder pela primeira vez em 13 anos. Ele tenta afastar a imagem de partido antiquado, já que a última liderança poderosa que a legenda teve foi a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher, governante ao longo dos anos 80.

O estreitamento da vantagem de seu líder jovial –Cameron tem apenas 43 anos–, pode também detoná-lo internamente: integrantes influentes acreditam que a campanha dele foi amena com os trabalhistas. Se Cameron não se tornar premiê, corre risco de levar o partido conservador de volta à direita mais dura, dizem analistas.

A principal novidade das eleições britânicas se aproveitou de outra inovação para ameaçar os partidos tradicionais. Clegg subiu nas intenções de voto com base nos primeiros debates televisados da história britânica entre candidatos. O problema para ele é que seus eleitores se concentram em áreas já dominadas por conservadores ou trabalhistas, dando a ele a chance de influir no próximo governo, mas dificilmente de chefiá-lo.
 

  • Assista ao vídeo, em inglês, divulgado pelo jornal "Daily Telegraph", que mostra gafe de Brown

Sistema eleitoral
Cada um dos 650 distritos eleitorais do Reino Unido –composto por Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte– indicará um membro do Parlamento. O mais votado é eleito (mesmo sem 50% do total) e tem direito de apontar o líder de seu partido como primeiro-ministro. Se não houver consenso, o premiê tem direito de tentar formar um novo governo, mas só o faz com minoria parlamentar se as condições políticas assim permitirem. Não parece ser o caso atual.

Não há governo de coalizão no Reino Unido desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A indefinição entre trabalhistas e conservadores poderá exigir uma gestão desse tipo com a ajuda de Clegg. Historicamente distante da centro-direita, o próprio, no entanto, já disse que se recusaria a ajudar Brown a se manter no cargo.
O que pode mudar a balança, de um lado ou de outro, é um apoio expresso a uma reforma eleitoral. Os liberal-democratas têm sido prejudicados pela divisão distrital defasada no Reino Unido e poderiam apoiar um governo conservador ou trabalhista contanto que haja garantia de uma distribuição menos desigual das zonas eleitorais.

Os conservadores, que preferem manter a divisão de distritos feita dez anos atrás porque isso lhes favorece, parecem mais refratários à ideia. Trabalhistas indicaram que estudariam a possibilidade de mudar essa distribuição, mas não se comprometeram publicamente com nenhum acordo.

Partidos menores
Além dos partidos tradicionais, as eleições britânicas também decidirão lideranças e Parlamentos locais, o que estimula a participação de partidos menores, alguns deles defensores até da separação em relação ao Reino Unido. Há também os independentes e o Respect, espécie de Partido Verde britânico, concentrado em Londres.

Entre os separatistas, que não têm pretensão de atingir todo o país, estão o Partido Nacionalista Escocês, o galês Plaid Cymru e os norte-irlandeses do Partido Social-Democrata Trabalhista e do Sinn Féin –muitos anos braço político do grupo terrorista IRA (Exército Republicano Irlandês).

Há também partidos unionistas, que defendem a integração com o Reino Unido. Essas siglas são movidas especialmente por interesses religiosos, uma vez que contam com grande influência da Igreja Anglicana, enquanto os separatistas são próximos aos protestantes. Os defensores da Coroa Britânica são ambos da Irlanda do Norte: os Unionistas Democráticos e o Partido Unionista do Ulster.

Há ainda candidatos independentes, que acabaram fundando em 2004 um partido com atuação na Inglaterra e no País de Gales para defender o meio ambiente. O Respect – antes chamado de Coalizão da Unidade– surgiu para criticar o apoio britânico à invasão do Iraque. Por conta disso, acabou atraindo apoio em Londres e em 2005 elegeu seu primeiro parlamentar: o ex-trabalhista George Galloway.

Nestas eleições, o partido sofre com uma crise interna e com a diminuição da importância da agenda antiguerra, uma vez que o Reino Unido vive sua pior crise econômica em 60 anos. Em meio ao desencanto dos britânicos com a política, no entanto, o Respect espera ao menos eleger mais dois parlamentares em 2010.

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