Pirataria em Xangai tem endereço e alvará de funcionamento

Luciana Lima
Enviada especial da Agência Brasil
Em Xangai (China)

Não há pudores para a pirataria em Xangai. O endereço onde se pode perceber a convivência nada pacífica entre grandes lojas das marcas mais famosas e seus similares chineses é a Nanjing Road, bem no centro da cidade. O imenso calçadão com prédios superiluminados fica lotado de turistas e chineses, que vendem de tudo: lanterninha, rodas para se adaptar aos calçados e patinar sem ser preciso comprar um patins.

Os vendedores travam uma verdadeira batalha pelos clientes com um inglês focado em fazer negócio: good friend, good price, ou seja, bom amigo, bom preço. É assim que um dos vendedores insiste para iniciar a negociação, que conta com a ajuda de uma calculadora para expor os valores.

No início da barganha, um bonequinho mascote mal-acabado da Expo 2010, o Haibao, sai pelo mesmo preço do produto certificado. Mas é só conversar que é possível levar dois pela metade do preço pedido. Isso acontece bem do lado da loja oficial da Expo.

A pirataria na Nanjing Road não é feita só pelos ambulantes. Tem marca registrada e alvará de funcionamento. Há shoppings inteiros com imitações das marcas mais famosas. O Shangai Land Mark é um exemplo disso. Podem ser comprados cosméticos, calçados e camisas por um preço bem mais em conta.

Para facilitar a identificação, os nomes sofrem adaptações ao gosto de quem ainda não educou o maxilar para a pronúncia ocidental. Assim, a japonesa Shiseido, vira Shicedo, com direito a modelo oriental na mesma pose das tops internacionais que estrelam a campanha da gigante no ramo de cosméticos.

A francesa L'Occitane vira L'Occitown e vende o creme de castanha brasileira, o Brazil Nut, uma das estrelas da marca. A L'Oreal fica L'Oreal mesmo, e ainda carrega a identificação de sua “origem” parisiense.

A Nike tem um imensa loja de quatro andares na rua, que chega a cobrar 1300 yuãs por uma camisa, cerca de R$ 320, mas o similar mais barato pode ser encontrado em uma loja da Anta, no mesmo calçadão, por 90 yuãs.

A loja da Anta é praticamente igual à da Nike, com algumas modificações de cunho patriótico: em vez de usar o slogan da Nike de apoio à Liga Americana de Basquete, a NBA – I love NBA - a Anta inventou o apoio à CBA, o correspondente na China e estampou no imenso painel da entrada o “I love CBA”, com direito a foto de “craques” orientais de basquete.

Toda essa pirataria não afasta as grandes marcas, pelo contrário. A Adidas já cercou um imenso prédio histórico da Nanding Road, próximo de um dos lugares mais bonitos da cidade, The Bund. O imóvel que ocupa quase um quarteirão será a sua loja na rua.

Chanel, Dior, Armani, Rolex, também mantêm lojas na Nanding Road, onde também é possível comprar “similares” ao longo do calçadão. A Lacoste chega a cobrar 1.380 yuãs por uma camisa, pouco mais de R$ 340, 00 e seu similar pode ser comprado por 90 yuãs, cerca de R$ 22 em uma loja a 300 metros. No aplique do produto falsificado, no entanto, faltam os olhos e as pintinhas do jacaré.

As falsificações não são novidade e ocorrem desde que o governo começou a fazer as reformas econômicas na década de 80. As empresas chinesas passaram a produzir de tudo e “aproveitar” a tecnologia das grandes marcas que transferiram para o país asiático suas linhas de produção, atraídos pela mão de obra abundante e barata. A China produz de tudo: peças de carro, bolsas de marca e até imitações baratas de Viagra, o medicamento contra a impotência sexual.

A China é pressionada pelos países desenvolvidos para combater a pirataria mas, por se tratar de uma indústria, emprega milhares de pessoas e movimenta uma montanha de dinheiro, o governo adota dois discursos: um para fora, reprovando a prática e outro internamente, de tolerância.

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