Coalizão britânica depende de lei sobre mandatos para sobreviver, dizem especialistas

Maurício Savarese
Do UOL Notícias

Em São Paulo

  • Lefteris Pitarakis/AP

    Premiê conservador David Cameron e vice liberal-democrata, Nick Clegg, se preparam para conversar com jornalistas em Londres

    Premiê conservador David Cameron e vice liberal-democrata, Nick Clegg, se preparam para conversar com jornalistas em Londres

O acordo que deu o cargo de primeiro-ministro britânico ao conservador David Cameron e colocou como vice seu ex-rival liberal-democrata Nick Clegg só sobreviverá se for aprovada pelo Parlamento uma mudança constitucional para garantir mandatos de cinco anos, disseram especialistas ao UOL Notícias.

Com seu primeiro governo de coalizão em 70 anos, os líderes dos partidos poderiam romper por conta de alguma de suas diferenças – obrigando a convocação de novas eleições. Esse movimento também poderia ser feito se, com base em pesquisas de opinião, os conservadores entenderem antes de 2015 que podem obter maioria absoluta no Parlamento, composto por 650 membros.

Se a popularidade de um governo despenca ou o apoio interno começa a minguar, o primeiro-ministro pode pedir à rainha que dissolva o Parlamento e convoque eleições. Pode ainda abrir mão da liderança de seu partido, consequentemente deixando o cargo em Downing Street 10, sede do governo britânico em Londres. A fixação de mandato de cinco anos impediria a dissolução da Casa dos Comuns (análoga à Câmara dos Deputados brasileira) antes do fim do mandato de cinco anos.

Membros do Partido Trabalhista, que até ontem ocupava o governo sob o comando de Gordon Brown, prometem se esforçar para impedir essa manobra. Eles entendem que terão o monopólio da oposição depois da adesão dos liberal-democratas aos conservadores. Em tempos de dificuldades econômicas, a popularidade de Cameron poderia despencar e reconduzir o grupo de centro-esquerda ao poder.

“Esse governo pode soluçar um pouco e precisa de credibilidade – porque os dois aliados eram antagonistas no começo da semana”, disse Tony Travers, diretor da London School of Economics. “Por isso essa proposta de mandato fixo seria um garantidor de longo prazo, algo que acalmaria a oposição depois de aprovado e que reformularia o jogo de 2015. Mas é difícil e o governo pode acabar aí”, disse.

Para Jonathan Hopkin, professor de Ciência Política da mesma universidade, “o novo governo terá dificuldade de se legitimar e precisará de outros elementos em curto prazo para se fazer viável”. Para ele, a aprovação da fixação de mandatos é improvável e “arriscada”. “Se eles apostarem todas as fichas nisso para terem estabilidade, terão problemas sérios antes do previsto”, avalia.

Dificuldades com coalizão
“A coalizão formada interpreta o resultado como se tivéssemos um sistema bipartidário, no qual um partido derrotado automaticamente dá a vitória ao outro”, diz Hopkin. Os trabalhistas certamente perderam, mas os liberais-democratas também perderam. Os conservadores não venceram a eleição. O critério para formar o governo não garante sua longa sobrevivência.”

Alex Callinicos, professor de Teoria Social do King’s College e um dos organizadores do Fórum Social Mundial, é sintético: “Sem garantirem essa reforma, a coalizão não se sustenta. Essa reforma não sairá. A questão é se os conservadores farão a nova eleição quando tiverem certeza de uma maioria no Parlamento ou se a votação acontecerá a despeito do momento ideal para eles. É simples assim”.

Para receber os liberais-democratas, os conservadores cederam o cargo de vice-premiê a Clegg e outros quatro postos importantes no governo – dois deles na área econômica. Nesta quarta-feira (12), o primeiro-ministro Cameron deu entrevista ao lado do ex-rival para dizer que a gestão deles pretende durar cinco anos.

Cameron e Clegg disseram que confiam em metas de longo prazo para os partidos, apesar das discordâncias entre eles em questões chave para o eleitorado, como imigração, relacionamento com a União Europeia e formas de atacar a pior crise econômica da história recente do país.

Questionado sobre o risco de rompimento, Cameron respondeu: “O governo vai vingar se fizer sucesso. Se demonstrarmos que é um bom governo, que tem objetivos longos, as pessoas de qualquer ala de qualquer partido verão um bom governo”, resumiu. O conservador é visto como um político que trouxe seu grupo para uma posição mais moderada. O liberal-democrata é visto como novidade – seu partido foi fundado em 1988.

A falta de uma maioria decisiva no Parlamento, composto por 650 membros, levou os conservadores a buscarem o apoio dos liberal-democratas. Os trabalhistas, do ex-premiê Gordon Brown, tentaram o mesmo, mas um acordo que antes parecia provável, por conta do alinhamento mais progressista dos dois partidos, fracassou.

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