África tem que acordar e dar menos atenção a organismos internacionais, defende especialista

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África
Em Maputo (Moçambique)

É hora de a África acordar e deixar de ouvir com tanta atenção as receitas dos organismos econômicos internacionais. A opinião é de Tomaz Salomão, secretário executivo da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC, sigla em inglês para Southern Africa Development Coordination Conference), que engloba a África do Sul, Angola, Botsuana, República Democrática do Congo, Lesoto, Madagascar, Malawi, Maurício, Moçambique, Namíbia, Suazilândia, Tanzânia, Zâmbia e Zimbábue.

Para Salomão, a África não deve sujeitar-se a modelos criados por intelectuais que “não sabem que a África é um continente com mais de 50 países com realidades socioculturais diversas”. Para ele a crise internacional surgida nos Estados Unidos em 2008 ajudou a provar que o formato de ajustamento estrutural imposto pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e por outros organismos não responde aos desafios dos países em desenvolvimento. Para ele, as política adotadas pela China, Índia e pelo Brasil servem de exemplo na atual crise.

Moçambicano, Salomão foi ministro das Finanças, Transportes e Comunicações de seu país. É doutor em economia pela Universidade John Hopkins, de Maryland, nos Estados Unidos. Leia a seguir os principais trechos da entrevista exclusiva à Agência Brasil.

Agência Brasil: Como é a crise econômica afetou e ainda afeta a África?
Tomaz Salomão: Em 2009, os mercados começaram a colapsar, nossos produtos perderam acesso e nossas exportações caíram drasticamente. As receitas fiscais também caíram e os governos se viram na obrigação de adotar planos de contingência para fazer face a isso, pelo menos não adiando aquilo que são as despesas urgentes e prioritárias, então começamos a sentir isso na pele. Obviamente que países com economias dependentes, sobretudo [os setores] de minerais, turismo e manufatureira, em particular a indústria têxtil, ressentiram-se. E julgo que até hoje, e nos próximos tempos, vamos continuar a sentir esses efeitos, que ainda não passaram. Basta ver o que acontece na Europa.

ABr: A Grécia precisou pegar dinheiro emprestado, a Espanha fez um corte drástico no orçamento, Portugal teve que aumentar impostos. Algo do gênero aconteceu na África?
Salomão: Os países estão tomando medidas extraordinárias. Botsuana teve que aumentar impostos, por exemplo. Não há qualquer tipo de dúvida de que as reformas que alguns países fizeram criaram alguma robustez para fazer face ao problema. O fato de alguns terem tido a capacidade de criar alguma reserva também ajudou-nos a aguentar isso, mas por quanto tempo? É a questão. É preciso olhar para as causas do problema. Nós estamos lidando com um modelo econômico que mostra claramente que não resolve os problemas de África, não resolveu no passado. Fizemos programas de ajustamento estrutural penosos do ponto de vista social para as nossas economias, sob o pretexto de que iriam criar condições para um desenvolvimento mais rápido. Tal coisa não aconteceu. E, pelo contrário, estamos agora a pagando um preço por problemas cuja origem é estranha e desconhecida. Somos economias mais frágeis, mais débeis e os mais afetados. Estamos pagando um preço elevadíssimo por isso.

ABr: Qual foi essa “receita que não deu certo”?
Salomão: Eu estou falando do modelo de ajustamento estrutural que está sendo aplicado na África, o apoio aos programas de ajustamento decorrentes das negociações feitas no quadro do Artigo 4 do Fundo Monetário Internacional e todos os entendimentos subsequentes. As pessoas vão sempre dizer 'olha, vamos fazer ajustamentos aqui, ajustamentos acolá, vamos emendar aqui, emendar acolá', mas, no essencial, tudo fica na mesma [condição]. Eu penso que está chegada a hora de os africanos despertarem. E não temos outra opção. O continente é rico em recursos e estamos a criar – e devemos criar – adicional capacidade humana para fazer face aos nossos desafios, em particular aos aspectos que se prendem com tecnologias de informação, investigação e empreendedorismo.

ABr: “Acordar” significa romper exatamente com o quê?
Salomão: Romper com o estigma e com o pensamento de dependência de ajuda. E passar para um modelo em que mobilizemos recursos para transformar nossa agricultura de subsistência em agricultura comercial, que nos transforme de “pedintes” ou importadores de produtos alimentares em grandes exportadores. Um modelo que nos ajude a mobilizar os recursos disponíveis para a modernização das nossas economias, em particular nos aspectos relacionados com a infraestrutura, porque vão gerar recursos que nos vão permitir pagar.

ABr: E como é que se sai dessa condição, que o senhor mesmo chamou de “pedinte”?
Salomão: É chegada a hora de os intelectuais, economistas, empresários e políticos deixarem as diferenças à parte, assentarem um modelo de boa governança, criar consensos onde é possível e dizer 'este é o caminho que vamos seguir'. Seguir bons exemplos.

ABr: Quais?
Salomão: Temos a referência do Brasil, da Índia. Há países africanos que se encontram onde a China se encontrava há 20, 25 anos, e hoje todo mundo fala da China como um modelo. Então não devemos temer partir para esse desafio. Devemos preparar-nos com o necessário arcabouço técnico e científico, criando consensos onde for necessário. E eu estou seguro de que vamos mudar isso, e, seguramente, vamos ter amigos e países que apoiem esae novo pensamento, essa nova maneira de estar do continente.

ABr: Quando o senhor fala de amigos, está pensando no Brasil?
Salomão: O presidente Lula é um dos grandes apoiantes desse novo pensamento, que os africanos pretendem pôr em cima da mesa. E seguramente haverá o mesmo nos Estados Unidos, na Europa, na Grã-Bretanha... Pessoas que simpatizarão com esse novo posicionamento e o apoiarão. Cabe a nós ousar partir para esse desafio.

ABr: Como vai o relacionamento Brasil-África e como ele está comparado com outros momentos?
Salomão: Eu penso que está bem melhor. Nós podemos olhar para o Brasil como um parceiro que tem consciência dos desafios que a África enfrenta e está preparado a apoiar os países africanos para eles saírem, em longo prazo, da situação em que se encontram. Não há qualquer tipo de dúvida de que lidamos com um Brasil completamente diferente, que percebeu que uma das suas responsabilidades é apoiar a África a sair da situação em que se encontra. O Brasil, a África, Índia e China são fundamentais, porque todos nós sabemos o que é subdesenvolvimento. Mas alguns, como o Brasil, souberam adotar as políticas e estratégias corretas para sair da situação em que se encontravam.

ABr: O Brasil vai passar por eleições presidenciais este ano e o presidente Lula deixará o cargo. Isso pode afetar as relações Brasil-África?
Salomão: Acredito que é algo que os brasileiros devem assumir como uma responsabilidade. É uma conquista que os brasileiros fizeram. Cabe a eles consolidar, saberem que não há outra opção senão olhar para África como um parceiro, como um amigo com quem se pode estabelecer uma relação econômica para novas bases.

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