Aliado de Lula e crítico de Israel, Erdogan aproxima Islã da Turquia secular

Maurício Savarese
Do UOL Notícias

Em São Paulo

  • Rafael Andrade/Folhapress

    Premiê turco, Recep Tayyip Erdogan (D) cumprimenta presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva: de olho em uma nova ordem, mais distante dos Estados Unidos e da União Europeia

    Premiê turco, Recep Tayyip Erdogan (D) cumprimenta presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva: de olho em uma nova ordem, mais distante dos Estados Unidos e da União Europeia

Desde que Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938) transformou os resquícios do Império Otomano na Turquia moderna, em 1923, a tensão entre seculares e religiosos toma conta do país. Mas sob o governo do premiê Recep Tayyip Erdogan, iniciado há sete anos, a balança já pende para o lado dos muçulmanos e preocupa a comunidade internacional, em especial depois do recente esfriamento das relações com Israel.

Ex-prefeito de Istambul e visto como um conservador moderado, Erdogan, 46, é presidente do partido Justiça e Desenvolvimento, ameaçado de fechamento há dois anos sob a acusação de promover o anti-secularismo – uma ação proibida pela Constituição turca. Mesmo ciente do risco, o primeiro-ministro se aproxima de países da região, como o Irã, ao mesmo tempo em que toma distância do Estado judeu.

Analistas locais afirmam que, além do afastamento em relação ao principal aliado dos EUA na região, Erdogan estreitou laços com líderes religiosos ao aprovar a indicação de islâmicos para altos cargos do governo e ao criticar países que tentaram abolir símbolos como lenços e minaretes. Embora isso possa ter objetivo meramente eleitoral – próxima votação é em 2011 –, os seculares têm motivos para temer.

“Erdogan está tentando transformar a Turquia em uma potência regional, um contrapeso a europeus e americanos, como foi nos tempos de Atatürk”, disse Hakan Ozoglu, professor de História da Universidade Central Florida, ao UOL Notícias. “Isso preocupa os seculares porque ao se afastar de Israel e das potências, ele também se afasta da adesão à União Europeia. E abre canais com vizinhos polêmicos.”

Embora já existissem sinais de tensão entre Turquia e Israel, o ápice se deu após a morte de nove ativistas humanitários turcos que ocupavam um barco rumo à Faixa de Gaza. Alvejados por soldados israelenses, eles tentavam furar um bloqueio imposto pelo Estado judeu, que os acusou de buscarem armar terroristas islâmicos na região palestina. “Foi um massacre sangrento”, resumiu o premiê. Um resumo incomum.

Desde sua fundação, em 1948, Israel tem na Turquia um ponto de equilíbrio com o mundo árabe e o Ocidente. Os dois países já fazem intercâmbio de armas e de tecnologia e cooperam abertamente, apesar de críticas públicas. Mas a recusa da União Europeia em aceitar um país que sofreu vários golpes militares e que tem mais de 90% de muçulmanos parece ter feito Erdogan mudar de ideia.

Erdogan e Israel

“Os turcos também tinham problemas com os árabes, que criaram seu nacionalismo patrocinados pelos britânicos. Os turcos sempre foram mais retraídos. Até por conta das dificuldades internas, Erdogan viu que podia mudar isso”, disse o cientista político Christian Lohbauer, do Gacint – Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo.

“Fazendo esses movimentos em relação ao Irã, atraindo outras potências regionais com o Brasil e defendendo a causa palestina de alguma maneira, o primeiro-ministro da Turquia angaria apoio das forças islâmicas moderadas e mantém os militares sob o seu comando. Ele está sendo pragmático por um lado, mas é compreensível que levante preocupações entre os defensores do Estado laico no país”, afirmou.

Os analistas também indicam que Erdogan está jogando com o papel estratégico do país. Membro da Otan, a aliança militar liderada pelos Estados Unidos, a Turquia teria de ser defendida de Israel no caso de um ataque. “O primeiro-ministro se equilibra em uma linha fina, mas não é um aventureiro. A questão parece um pouco com a do Brasil: querer respeito em foros internacionais, alguma independência”, diz Ozoglu.

No caso de um ataque de Israel a alvos turcos, incluindo navios em águas internacionais, os norte-americanos formalmente teriam de apoiar a Turquia. Erdogan já sinalizou que cobraria essa demonstração dos EUA. A embarcação alvejada pelos israelenses recentemente usava bandeira norte-americana.

Apesar da preocupação com o novo papel da Turquia na região, Ozoglu diz que a participação do Brasil na negociação do acordo com o Irã ajuda a indicar que Erdogan quer diplomacia sem obrigação de vínculo com o Islã. “Ele escolheu para ajudar um país com prestígio internacional e que não disputa a liderança regional com a Turquia. A relação com o Islã é importante. Mas não é maior que o interesse regional.”

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