Vídeos são 2º round do confronto entre Israel e ativistas, diz especialista

Maurício Savarese
Do UOL Notícias

Em São Paulo

O confronto em águas internacionais entre soldados israelenses e ativistas humanitários rumo à Faixa de Gaza terminou nas primeiras horas de 31 de maio. Mas a divulgação de vídeos de ambos os lados nos últimos dias demonstra a crescente importância das batalhas travadas na mídia. É essa a avaliação de Gabriel Priolli, crítico de televisão e coordenador de expansão e rede da Fundação Padre Anchieta.

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Após o incidente que terminou com a morte de nove ativistas turcos, Israel divulgou vídeos da ação para indicar que seus soldados foram recebidos com violência e corriam risco de morte. Na quinta-feira, imagens captadas pela brasileira Iara Lee sugeriam feridos que não teriam condições de se defenderem. Mais de 30 tiros foram disparados pelas tropas em uma iniciativa que o premiê Benjamin Netanyahu considerou legítima.

“A guerra moderna e os conflitos armados modernos são tanto militares quanto midiáticos. A dimensão midiática de qualquer incidente militar é tão importante quanto o próprio ato em si”, disse Priolli em entrevista ao UOL Notícias. “Independentemente do que aconteceu, as imagens são uma continuação da ação. São o segundo 'round' da luta porque essas mesmas imagens serão trabalhadas, analisadas ou até manipuladas.”

O crítico de TV afirmou que o início dessa percepção data dos anos 60, a partir da Guerra do Vietnã, travada entre os locais, com a ajuda da União Soviética, e os Estados Unidos. Mas o grande marco veio na primeira Guerra do Golfo, em 1991, com as transmissões ao vivo e aquilo que ficou conhecido como “guerra de videogame”, por conta das luzes no céu iraquiano à noite – eram, na verdade, mísseis americanos.

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Para o especialista, Israel certamente editou seu vídeo da ação militar antes de publicá-lo. “A chance de isso não ter acontecido, pelo que notei, é zero. No caso do vídeo da brasileira me parece que não é conclusivo sobre se o pessoal do barco estava armado. Mas pode ter sido editado para, assim como no primeiro caso, favorecer uma visão”, diz.

Suavização

“Esse uso intensivo da imagem com a ajuda da tecnologia é uma forma de desmaterialização da guerra, de ocultação da guerra real. Ela se transforma em um espetáculo televisivo, no qual o público tem dificuldade de localizar pessoas reais. Isso fica ocultado a partir de uma construção de imagem que é espetaculosa, mas não ressalta aspectos humanos. A imagem na guerra tem um papel de suavização”, disse.

Priolli destacou uma recente operação americana no Iraque entre muitos exemplos de imagens que causam embaraços para poderosos. Ao contrário do que dizia a Casa Branca até então, um vídeo demonstrou que soldados dos EUA mataram um fotógrafo da agência de notícias Reuters em uma ação de fogo indiscriminado contra alvos suspeitos.

“Aquilo teve impacto muito grande, repercutiu mundialmente e mostrou como um ataque poderoso pode ser perpetrado por uma máquina de guerra sem nenhuma responsabilidade”, afirmou. “Na ação midiática, os EUA perderam. Quem perde a disputa na mídia sempre corre risco maior de perder a batalha política.” 

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