Uzbequistão fecha fronteira a refugiados do Quirguistão; mortos no conflito chegam a 170

Do UOL Notícias*

Em São Paulo

  • Victor Drachev/AFP

    Um uzbeque se desespera ao ver os destroços de sua casa que foi queimada, em Och, no Quirguistão

    Um uzbeque se desespera ao ver os destroços de sua casa que foi queimada, em Och, no Quirguistão

O Uzbequistão fechou sua fronteira nesta terça-feira (15) aos refugiados provenientes do Quirguistão, onde os enfrentamentos étnicos dos últimos dias deixaram pelo menos 170 mortos, informou o Ministério de Situações de Emergência uzbeque.

"Não temos mais lugar para acolhê-los", declarou o vice-primeiro-ministro uzbeque, Abdullah Aripov, ao explicar a medida.

Aripov assinalou que já foram registrados oficialmente como refugiados cerca de 83 mil cidadãos quirguizes de origem uzbeque, que cruzaram a fronteira e estão instalados em centenas de acampamentos nas regiões de Andijan, Namangansk e Fergana, onde recebem a assistência necessária, incluindo atendimento médico.

Aripov afirmou que as autoridades do Uzbequistão precisam de ajuda das organizações internacionais para acolher os refugiados.

Segundo fontes da Cruz Vermelha Internacional, os choques étnicos no sul do Quirguistão provocaram a fuga de mais 150 mil uzbeques da região.

Investigação

A ONU (Organização das Nações Unidas) está investigando denúncias de assassinatos e estupros sistemáticos contra a população de origem uzbeque no sul do Quirguistão.

Dezenas de milhares de pessoas da etnia uzbeque tiveram que deixar suas casas desde que a violência étnica explodiu na região próxima à fronteira com o Uzbequistão, na sexta-feira.

A população acusa gangues de quirguizes de atear fogo em casas e matar moradores de origem uzbeque nas cidades de Osh e Jalalabad, no sul do país.

Testemunhas nessas cidades contaram ter vistos filas de casas queimadas e corpos jogados nas ruas.

A comissária de Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, disse que há provas de assassinatos indiscriminados - inclusive de crianças - e de estupros. O porta-voz da comissária de Direitos Humanos da ONU, Rupert Colville, disse à BBC que há indicações de que esses estupros e assassinatos teriam sido planejados.

"Temos informações de que não é acidental, têm sido orquestrados, têm um alvo, foram planejados... não podemos provar isso ainda neste estágio, mas esta parece ser a indicação - o que é particularmente repreensível, dado que a região é altamente inflamável." Segundo as autoridades, 170 pessoas foram mortas desde sexta-feira.

A população uzbeque, no entanto, afirma que o número é mais alto e está fazendo sua própria contagem.
 

Histórico

O Quirguistão, com uma superfície de 198,5 mil quilômetros quadrados, tem uma população de 5,3 milhões de habitantes, dos quais cerca de 14% são uzbeques, que residem majoritariamente no sudoeste do país, a região afetada pela onda de violência.

Nesta segunda-feira (14), o Conselho de Segurança da ONU condenou a violência no sul do país, que desde sexta-feira (11) está em estado de emergência.

Em comunicado, o Conselho disse que apoia esforços do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e de organizações regionais "para gerenciar a situação de forma apropriada". O conselho reforçou também a necessidade de apoiar a entrega de ajuda humanitária "urgente".

Essa é a pior onda de violência em vinte anos no Quirguistão e líderes comunitários uzbeques afirmam que ao menos 200 uzbeques já foram enterrados, e muitos corpos ainda não foram resgatados de casas e comércios incendiados. Embora a contagem oficial apresente apenas 138 mortos, a Cruz Vermelha Internacional afirma que esse número pode ser ainda maior.

Jallahitdin Jalilatdinov, que chefia o Centro Nacional Uzbeque, disse à Associated Press que ao menos 100 mil uzbeques esperam para entrar no Uzbequistão, enquanto outros 80 mil já cruzaram a fronteira.

Os refugiados estão em cerca de 30 acampamentos, segundo Pascale Meige Wagner, chefe de operações na Ásia Central e Europa do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. "As condições são muito difíceis. As autoridades estavam preparadas para cerca de 20 mil a 30 mil pessoas, mas já estamos bem acima desses números."

A maioria são mulheres, crianças e idosos, assustados e já passando fome, indicaram autoridades locais, que temem uma possível crise humanitária caso estes refugiados não recebam assistência rapidamente.

Ajuda

A situação preocupa a Rússia, os Estados Unidos e a vizinha China. Washington usa uma base aérea no país, em Manas, a cerca de 300 km de Och, como um importante entreposto para suas operações no Afeganistão. A Rússia também opera uma base militar no país.

Os EUA e a Rússia estão apoiando com ajuda humanitária, assim como faz a ONU. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tem recebido atualizações constantes sobre a onda de violência no Quirguistão.   De acordo com a Casa Branca, as autoridades americanas estão em contato permanente com seus colegas russos sobre a situação no país centro-asiático.

"O presidente tem recebido notícias constantes, e nosso pessoal no governo tem estado em contato direto com os colegas russos sobre a situação na região para garantir que estejamos sempre atualizados", disse o porta-voz da Casa Branca, Bill Burton.

Ex-URSS
A Organização do Tratado Coletivo de Segurança (CSTO) - composta pela Rússia, Belarus, Uzbequistão, Cazaquistão, Tadjiquistão, Armênia e Quirguistão - se reuniu nesta segunda-feira em Moscou para discutir a situação do país centro-asiático e considerou o envio de tropas de paz.

"A CSTO tem à sua disposição tudo que precisa para agir em tais situações, incluindo um contingente de paz, [composto de] forças de reação rápida e forças coletivas de envio rápido para a região da Ásia Central", disse o secretário-geral da CSTO, o general Nikolai Bordyuzha, citado pela imprensa russa.

Após o encontro, a aliança militar formada por seis ex-repúblicas soviéticas mais a Rússia, que a lidera, deixou claro que considera a ideia de enviar tropas de segurança ao sul do Quirguistão, mas ainda não há conclusão definitiva.

"Deve-se pensar muito antes de usar estes meios, e a coisa mais importante é usá-los como parte de um conjunto de medidas", disse o secretário-geral da CSTO, o general Nikolai Bordiuzha.

Presidente deposto

O ex-presidente quirguiz Kurmanbek Bakiev, retirado do poder em um levante popular violento em abril, disse que somente com o envio de tropas estrangeiras será possível restaurar a paz no país.

Exilado em Belarus, Bakiev pediu que as comunidades cheguem à uma solução, e aproveitou para tecer críticas ao governo que o depôs do cargo.

"Eu peço aos dois povos irmãos - os quirquizes e os uzbeques - que cessem as lutas sangrentas, já que o governo interino é incapaz de fazer isto", disse numa entrevista coletiva em Minsk, capital de Belarus.

Bakiev disse que as tropas da CSTO poderiam "trazer a situação de volta ao normal".

O ex-líder negou qualquer envolvimento nos confrontos étnicos do sul do país e afirmou não ter planos de fazer um retorno à cena política quirguiz.

Apesar da situação caótica, o governo interino anunciou ter prendido "uma pessoa muito conhecida", suspeita de incitar a violência, sem dar maiores detalhes. Suspeitos do Tadquijistão, Afeganistão e do próprio Quirguistão também estão detidos e dizem ter sido contratados por defensores do ex-líder quirguiz Kurmanbek Bakiyev, deposto em abril, informou o porta-voz Farid Niyazov. De seu exílio em Belarus, o ex-líder nega qualquer envolvimento nos confrontos.

União Europeia

Diversos países mostram preocupação com a deterioração da situação no sul do Quirguistão. A dificuldade de envio de ajuda humanitária aos refugiados, além de uma possível intervenção para deter a violência estão entre as ações que provavelmente serão tomadas com mais urgência.

A Alta Representante de Política Exterior da União Europeia (UE), Catherine Ashton, disse estar muito preocupada e anunciou que enviará seu emissário para a Ásia Central.

"É uma situação muito difícil e perigosa. É muito importante deter a violência", informou. Ashton disse ainda que vai falar com o primeiro-ministro do Quirguistão e com o presidente da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

A Comissão Europeia (órgão Executivo da UE) anunciou no sábado o envio de um especialista em ajuda humanitária ao Quirguistão para avaliar as necessidades humanitárias diante da intensificação das lutas étnicas no país.

*Com informações das agências internacionais e da Folha.com

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