Uribe só obteve sucesso no combate às Farc; em outras áreas, fracassou, diz pesquisador

Guilherme Balza

Do UOL Notícias <BR> Em São Paulo

  • William Fernando Martinez/AP

    O presidente colombiano, Álvaro Uribe, vota durante eleições presidenciais em Bogotá

    O presidente colombiano, Álvaro Uribe, vota durante eleições presidenciais em Bogotá

Após oito anos no governo, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, deixará o cargo em agosto com apenas um único legado relevante: o enfraquecimento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), resultado da política de combate ostensivo à guerrilha, colocada em prática por Uribe. Quem faz essa avaliação é Virgílio Arraes, doutor em história pela Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, na reta final da eleição que definirá o sucessor de Uribe.

No próximo domingo (20), os colombianos vão às urnas para escolher, em segundo turno, o novo presidente, que assumirá o cargo em agosto. Disputam o pleito o candidato do governo, Juan Manuel Santos, e Antanas Mockus, do Partido Verde. A última pesquisa de intenção de voto indica a vitória do governista com 65,1% dos votos, contra 28% do opositor.

Na disputa, está em jogo a capacidade do atual presidente, que goza de altíssima popularidade, em transferir votos. Analistas creditam a popularidade de Uribe à redução da violência e ao aumento da segurança na Colômbia, que durante anos foi o país com os piores índices de criminalidade do mundo.

Raio-x da Colômbia

  • Nome oficial: República da Colômbia
    Forma de governo: República (Poder Executivo domina a estrutura de governo)
    Capital: Bogotá
    Divisão administrativa: 32 departamentos e 1 distrito capital
    População: 43.677,372
    Idioma: Espanhol
    Grupos etnicos: Mestiços 58%, brancos 20%, mulatos 14%, negros 4%, cafuzos 3% e indígenas 1%
    Religiões: Católicos Romanos 90% e outros 10% Fonte: CIA Factbook 2009

Entre as ações exitosas no combate às Farc, está o resgate da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt, além de três cidadãos norte-americanos e onze policiais e militares colombianos em 2008. No mesmo ano, forças de segurança da Colômbia bombardearam um acampamento de guerrilheiros das Farc no Equador, em uma operação na qual morreram 25 pessoas, entre elas o número dois da guerrilha, Raúl Reyes.

Também em 2008, Santos anunciou, em primeira mão, a morte, por causas naturais de Manuel Marulanda , lendário fundador das Farc, demonstrando com isso a penetração dos serviços de inteligência na guerrilha, que dias depois confirmou a notícia. Todas as ações foram comandadas por Santos, então ministro da Defesa, com a participação do presidente.

Nesta semana, foram libertados quatro reféns que estavam em poder da guerrilha desde 1998 --o general Luis Mendieta, os coronéis Enrique Murillo e William Donato Gómez e o sargento Arbey Delgado. O governo colombiano acredita que o combate às Farc resultou na redução de mais da metade do efetivo da guerrilha, embora 19 militares e um número não informado de civis permaneçam seqüestrados.

A favor do atual governo, pesa também o declínio na produção e nas exportações de cocaína e a diminuição pela metade dos homicídios no país-- embora a Colômbia ainda seja o maior produtor mundial de cocaína e esteja entre os 10 países mais violentos do mundo.

Para Arraes, apesar de ter obtido sucesso na sua empreitada para reduzir a atuação das Farc, o presidente colombiano não foi capaz de diminuir a miséria e a desigualdade social no país. “Basicamente, a grande realização de Uribe foi reduzir a atuação dos chamados grupos de esquerda --que para alguns são grupos terroristas. No entanto, durante o seu governo a Colômbia teve um crescimento econômico muito baixo, em torno de 2% ao ano, e a desigualdade social se manteve. Mais de 40% da população colombiana vive em torno da linha da pobreza”, disse o pesquisador.

Indicadores
Os principais indicadores confirmam a afirmação de Arraes: o índice de Gini, que mede o nível de desigualdade social, na Colômbia era de 0,510 em 2000 --dois anos antes de Uribe assumir-- e saltou para 0,585, em 2008 (quanto mais perto do número 1, maior é a desigualdade). Entre 2002 e 2009, o país caiu oito posições no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), ocupando, atualmente, a 77ª posição, atrás de Brasil e Venezuela, que antes do governo Uribe estavam atrás da Colômbia nessa lista.

No mesmo período, o PIB (Produto Interno Bruto) colombiano cresceu num ritmo bem inferior ao brasileiro, peruano e venezuelano. Em contrapartida, o atual governo da Colômbia conseguiu reduzir o desemprego de 17% a 12% da população e permitiu que os investimentos estrangeiros no país quintuplicassem.

A principal razão para o aumento dos investimentos externos é a aproximação com os Estados Unidos, que participa ativamente das políticas colombianas de segurança e de enfrentamento dos grupos belicosos. Os norte-americanos, inclusive, possuem oito bases militares no país andino, o que rende críticas pesadas à Colômbia por parte de seus vizinhos.

Isolamento
A aproximação com os EUA trouxe como consequência à Colômbia um certo isolamento no cenário sul-americano. As trocas comerciais com a Venezuela despencaram desde meados de 2009, quando o presidente venezuelano Hugo Chávez criticou a participação militar norte-americana no território colombiano e, como resposta, foi acusado por Uribe de auxiliar as Farc na obtenção de armamentos. Também permanecem abaladas as relações com o Equador, desde a invasão do Exército colombiano ao território equatoriano no episódio do ataque às Farc, em 2008.

"Nesse sentido, Uribe soube explorar muito bem essa relação com os EUA. Ele vendeu a ideia de faz parte de um pólo democrático, reconhecido pelos EUA, ao passo que Venezuela, Equador e Bolívia integram um pólo populista, ditatorial", afirma Arraes.

Além de prejudicar a relação com os vizinhos, a forma como se deu o enfrentamento à guerrilha de esquerda é alvo de críticas de organizações não-governamentais, que acusam o governo colombiano de promover o assassinato de civis, espionar inocentes e influenciar o poder judiciário para conquistar o seu objetivo de acabar com as Farc.

Direitos humanos
Em relatório divulgado neste ano, a Anistia Internacional diz que “o conflito interno continua a ter consequências devastadoras para a população civil, em especial para comunidades indígenas”. “Todas as partes envolvidas --incluindo forças de segurança, grupos guerrilheiros e paramilitares-- são responsáveis por sérios abusos contra os direitos humanos e violações da lei humanitária internacional”, diz.

A ONG afirma também durante a chefia de Santos no Ministério da Defesa houve denúncias de diversas execuções de civis sob o pretexto de que seriam guerrilheiros, em casos que ficaram conhecidos como “falsos positivos”.

O pesquisador da UnB diz ainda que a política de enfrentamento às guerrilhas obrigou o deslocamento interno ou externo de aproximadamente 10% da população colombiana e provoca um número elevado de "desaparecidos", que seriam possíveis vítimas de grupos paramilitares de direita e do próprio Exército. "É uma situação sem paralelo na América do Sul. Estima-se que haja 50 mil desaparecidos e centenas de sequestrados. Isso ocorre em função da fragilidade que persiste no sistema político-administrativo e do Judiciário na Colômbia".

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