"Desarticulador" das Farc e filósofo excêntrico disputam eleição na Colômbia; veja os perfis

Do UOL Notícias*

Em São Paulo

  • AFP

    Os candidatos colombianos à presidência: o ex-prefeito de Bogotá Antanas Mockus (à esquerda), do Partido Verde, e o ex-ministro da Defesa Juan Manuel Santos, do Partido de La U

    Os candidatos colombianos à presidência: o ex-prefeito de Bogotá Antanas Mockus (à esquerda), do Partido Verde, e o ex-ministro da Defesa Juan Manuel Santos, do Partido de La U

Os eleitores colombianos vão às urnas neste domingo (20) para escolher, em segundo turno, o sucessor de Álvaro Uribe, que há oito anos ocupa a presidência do país e tem aprovação de mais de 70% da população. Disputam o pleito o governista Juan Manuel Santos, do Partido Social da Unidade Nacional, ex-ministro da Defesa, da Fazenda e do Comércio Exterior; e matemático, filósofo e ex-prefeito de Bogotá, Antanas Mockus, do Partido Verde.

De acordo com a última pesquisa eleitoral, Santos possui 67% das intenções de voto, contra 29% de Mockus. Entre os principais desafios do próximo presidente estão a segurança e a relação com os vizinhos sul-americanos, temais centrais no debate eleitoral.

Veja abaixo a biografia e o perfil dos dois candidatos

Santos, grande rival das Farc
O ex-ministro da Defesa Juan Manuel Santos, que obteve mais que o dobro de votos de seu principal rival, Antanas Mockus, no primeiro turno das eleições à Presidência, foi o estrategista dos maiores golpes contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

No entanto, sua recente ascensão política está marcada pela polêmica com Equador e Venezuela, cujo presidente Hugo Chávez afirmou que, caso Santos seja eleito presidente nas eleições do próximo domingo (20), isso apenas agravaria as deterioradas relações bilaterais.

Como ministro da Defesa de Uribe, Santos idealizou e autorizou a operação na qual foi abatido o número dois das Farc, Luis Edgar Devia Silva, conhecido como Raúl Reyes, em um bombardeio aéreo a um acampamento da guerrilha no Equador em março de 2008, que deixou outros 25 mortos.

Esse ataque fez com que Rafael Correa, presidente equatoriano, rompesse as relações com a Colômbia e que fosse aberto um processo judicial no Equador contra o candidato do Partido Social da Unidade Nacional. Também como titular da Defesa, Santos elaborou a operação pela qual oficiais do Exército enganaram as Farc, fazendo-se passar por uma missão humanitária, e resgataram 15 reféns da guerrilha, entre eles a ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt e três americanos.

Santos foi o responsável pelo início das negociações com os Estados Unidos sobre o acordo militar assinado em outubro passado, que permite a militares e assessores americanos usarem sete bases em território colombiano para a luta contra o narcotráfico e o terrorismo.

A assinatura desse acordo levou a Venezuela a congelar as relações diplomáticas e comerciais com a Colômbia por considerar que a presença de soldados americanos põe em perigo a segurança regional e, sobretudo, a de seu país.

A gestão de Santos no Ministério da Defesa foi marcada também pelo escândalo de jovens assassinados por militares, que os apresentaram como guerrilheiros mortos em combate para receber benefícios, tais como folgas nos finais de semana, no caso conhecido como "falsos positivos".

A Colômbia apresenta um questionável balanço em matéria de direitos humanos. Com mais de 3 milhões de pessoas expulsas de seus lares pela violência, a um ritmo de 150 mil por ano, este país é, junto com Iraque e Sudão, a nação com o maior número de refugiados no mundo.

Defensores dos direitos humanos questionaram o que consideram "pobres" ou "limitados" resultados da Lei de Justiça e Paz, de 2005, que concedeu benefícios a membros de esquadrões de ultradireita em troca de sua desmobilização, confissão de crimes e reparação das vítimas, destacando que até agora não foi dada a primeira sentença.

Ao lançar sua candidatura, Santos afirmou que a Colômbia está em um momento crucial na história e que é necessário "seguir caminhando no sentido do progresso" ou "arriscaremos mudar de rumo e ficarmos estagnados, ou, pior ainda: andaremos para trás".

Apesar de se beneficiar da alta popularidade do atual presidente, o ex-ministro da Defesa diz que possui um estilo próprio de governar: “É preciso levar em conta que não sou Uribe. E se os colombianos estão cansados de um determinado estilo de governo, nisso podem ficar tranquilos porque eu tenho o meu próprio”, afirmou o candidato, em entrevista ao jornal espanhol “El País”.

Nascido em Bogotá em 10 de agosto de 1951, Santos começou sua carreira política em 1972 ao representar durante nove anos a Colômbia na Organização Internacional do Café, em Londres. Ao retornar a seu país, assumiu o cargo de subdiretor do jornal "El Tiempo", propriedade de sua família e que recentemente vendeu a maioria das ações ao grupo espanhol Planeta.

O ex-presidente colombiano César Gaviria o nomeou, em 1991, ministro do Comércio Exterior, função pela qual impulsionou acordos comerciais com cinco países e com a Comunidade do Caribe (Caricom). Entre 1995 e 1997, ele fez parte da máxima direção do Partido Liberal, atualmente de oposição, e apresentou pela primeira vez sua candidatura à Presidência colombiana.

O ex-presidente Ernesto Samper (1994-1998) afirmou recentemente que, durante esses anos, Santos liderou um plano com os paramilitares para derrubá-lo durante seu governo, versão que coincide com declarações em 2007 do ex-chefe da extrema-direita armada Salvatore Mancuso, agora extraditado aos EUA.

Durante o Governo de Andrés Pastrana (1998-2002), Santos trabalhou como ministro da Fazenda e Crédito Público e teve de enfrentar uma grave crise econômica. Em 2004, se afastou do Partido Liberal para apoiar Uribe. Foi um dos criadores do Partido Social da Unidade Nacional, a força política que ganhou as legislativas de 2006 e as do último dia 14 de março.

Casado com María Clemencia Rodríguez e pai de María Antonia, Martín e Esteban, o candidato pró-Governo estudou Economia e Administração de Empresas na Universidade do Kansas (EUA). Ele também estudou Desenvolvimento Econômico e Administração Pública na Escola de Economia de Londres e na Universidade de Harvard. Tem doutorado em Direito.

O candidato fez alguns destes estudos graças às bolsas de estudos que ganhou das fundações americanas Fulbright e Newmann. Também trabalhou como professor de Ciências Econômicas na Universidade de Los Andes, em Bogotá.

É autor de vários livros, entre eles um sobre a Terceira Via, que escreveu junto ao ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. Além disso, criou a Fundação Bom Governo na Colômbia. Em sua última obra, "Jaque al terrorismo" ("Xeque ao terrorismo", em tradução livre), Juan Manuel Santos relata as grandes operações militares que dirigiu durante sua gestão como ministro da Defesa.

Excêntrico, Mockus quer liderar mudança
O candidato do Partido Verde, Antanas Mockus, é um matemático e filósofo que, impulsionado por uma grande mobilização social, se apresentou para liderar a mudança por meio da educação e da legalidade.

Nascido em Bogotá, no dia 25 de março de 1952, Mockus disputa pela terceira vez as eleições presidenciais. Ex-prefeito da sua cidade natal em dois períodos (1995-1997 e 2001-2003), o candidato verde surgiu como principal alternativa Santos, o candidato do presidente Álvaro Uribe e um dos personagens mais poderosos do país.

Portador de mal de parkinson, Aurelijus Rutenis Antanas Mockus Sivickas, de ascendência lituana e pai de quatro filhos, se lançou como "terceira via" frente a "segurança democrática" de Uribe e revolucionou as pesquisas, apoiado por uma impressionante resposta em redes sociais da internet, como Twitter e Facebook, onde é o sétimo político mundial com mais seguidores.

Além disso, sua decisão de formar chapa com o ex-prefeito de Medellín Sergio Fajardo multiplicou suas chances, pelo fato de o candidato a vice ter assumido essa cidade como uma das mais castigadas pela violência e a ter transformado em uma das mais modernas da América Latina.

Raio-x da Colômbia

  • Nome oficial: República da Colômbia
    Forma de governo: República (Poder Executivo domina a estrutura de governo)
    Capital: Bogotá
    Divisão administrativa: 32 departamentos e 1 distrito capital
    População: 43.677,372
    Idioma: Espanhol
    Grupos etnicos: Mestiços 58%, brancos 20%, mulatos 14%, negros 4%, cafuzos 3% e indígenas 1%
    Religiões: Católicos Romanos 90% e outros 10% Fonte: CIA Factbook 2009

O menino prodígio Mockus aprendeu a ler aos dois anos. Depois de adulto, formou-se em Filosofia e Matemática na Universidade de Dijon (França) e foi nomeado Doutor Honoris Causa pela Universidade de Paris 8 e a Universidade Nacional da Colômbia. Em 2004, foi professor visitante na Universidade de Harvard e, um ano depois, foi pesquisador em Oxford.

O candidato verde começou a ser conhecido quando, sendo reitor da Universidade Nacional, baixou as calças e mostrou as nádegas para um auditório em resposta ao barulho feito pelos estudantes que não permitia que seguisse com sua conferência.

Suas originais iniciativas, como se casar em um circo com sua atual mulher, a trabalhadora social Adriana Córdoba, foram aplicadas no governo de Bogotá, com criativas políticas de estímulo da cultura cidadã.

Mockus se transformou em um "cidadão perfeito" em Bogotá, saindo para trabalhar de bicicleta e aparecendo na televisão ensaboando-se no chuveiro com a torneira fechada para estimular a economia de água. Além disso, distribuiu milhões de cartões amarelos e vermelhos para a população, com o intuito de que se qualificassem entre si.

Ainda quando era prefeito cantou rap e colocou mímicos nas ruas de Bogotá para educar os motoristas. Também pendurou uma cenoura no pescoço para explicar aos moradores da capital a ordem para fechar cedo os bares. Segundo ele, a cenoura era uma alusão aos coelhos, animais decentes que vão para cama cedo.

Para o cientista político colombiano Gerson Arias, da Fundação Ideas para La Paz, Mockus tem, com isso, atraído a atenção dos jovens entre 18 e 25 anos, que tradicionalmente se abstêm de votar já que na Colômbia o voto não é obrigatório.

“Mockus tem conseguido fazer duas coisas. Por um lado, tem conseguido mobilizar um grupo de eleitores que normalmente se abstêm de votar. Por outro, ele traz um discurso muito diferente ao discurso intimidatório baseado no medo que proferem os candidatos uribistas”, afirma Arias. 

Embora faça críticas ao modo como seu adversário enfrenta as Farc, Mockus afirma que manterá a estratégia de enfrentamento militar à guerrilha. “O Estado pode colocar vidas em risco para salvar a vida de outros. Por isso o trabalho de policiais e soldados é tão delicado, pois podem usar a força. Um policial não só pode em algumas circunstâncias matar, como deve matar”, disse, em entrevista ao portal Opera Mundi.

O candidato verde ainda defende a aproximação com os Estados Unidos e a manutenção de bases militares norte-americanas em território colombiano para o combate ao narcotráfico, mesmo com as críticas e desconfianças dos países vizinhos.

“Os EUA são hoje nosso principal aliado na luta antinarcotráfico. Os países que criticam esta proximidade não têm oferecido uma ajuda similar nem têm a tecnologia suficiente. Enquanto encontramos outra maneira de eliminar o comportamento do narcotráfico do território da Colômbia, temos que ajudá-los com as bases. E sem as bases o país ficaria entregue às Farc, ou a uma aliança entre as Farc e os narcotraficantes”, afirmou.

Propostas

Área Juan M. Santos Antanas Mockus
Economia Defende o incentivo às exportações e aos investimentos estrangeiros Defende o incentivo às exportações e aos investimentos estrangeiros
Política externa Deverá adotar uma postura mais amena do a de Uribe com relação à Hugo Chávez (Venezuela) e Rafael Corrêa (Equador) para tentar reaproximar a Colômbia aos países sul-americanos; trabalhará para que seu país assine o tratado de livre-comércio com os Estados Unidos Quer reaproximar a Colômbia com os vizinhos sul-americanos, manter o alinhamento com os Estados Unidos e permitir que as bases militares norte-americanas permaneçam em território colombiano
Segurança Promete manter a mesma política de combate duro às Farc --conduzida por ele enquanto ministro da Defesa de Uribe-- até que a guerrilha seja completamente derrotada e não haja “um só refém” Propõe a política de “legalidade democrática”, em oposição à “segurança democrática” do governo Uribe; apesar de defender a manutenção do enfrentamento ostensivo às Farc, narcotraficantes e grupos paramilitares, Mockus afirma que o combate às Farc deve ser conduzido estritamente dentro da lei

*Com reportagem de Carlos Iavelberg, do UOL Notícias, e informações das agências internacionais e do Opera Mundi

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos