Voz de Saramago fará muita falta, diz biógrafo do escritor

Thiago Chaves-Scarelli
Do UOL Notícias

Em São Paulo

Durante anos, João Marques Lopes se debruçou sobre tudo o que José Samarago escreveu, e sobre tudo o que foi escrito sobre ele: livros, entrevistas, artigos de jornal. E depois de tanta convivência, depois de escrever e publicar uma história da vida do escritor, quando lhe chegou a notícia de que Saramago havia falecido nesta sexta-feira (18), aos 87 anos de idade, a impressão de Lopes foi que durante todo esse tempo nunca teve uma decepção com o autor que diminuísse seu apreço por ele.

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"Ele representa literária e civicamente uma voz dos explorados e oprimidos contra a lógica concentacionista e guerreira do sistema capitalista, e em prol de um outro mundo possível para lá do lucro, da concorrência e do individualismo desenfreados. Nesse sentido, a sua voz fará muita falta, sobretudo por se atrever a denunciar as fragilidades e imperfeições de uma democracia usurpada pelo poder financeiro mundial", afirmou o biógrafo de Saramago, em entrevista ao UOL Notícias.

Saramago, primeiro e único escritor lusófono a receber um Prêmio Nobel de Literatura, morreu nesta sexta-feira, em Lanzarote (Ilhas Canárias, na Espanha), onde morava desde 1993. Seu corpo é velado este sábado em Lisboa, e depois será cremado.

Sua primeira biografia, escrita por Lopes, foi lançada este ano e chegou no Brasil no último mês. "Saramago: uma Biografia" (Editora Leya) acompanha a trajetória do autor desde seu nascimento em Azinhaga até sua última obra, Caim, lançada no ano passado.

Qual a importância deste escritor para o nosso tempo? Para Lopes, "é a sua capacidade de oralizar a escrita, de contar uma história como se estivesse no meio de uma roda de comparsas aberta a várias vozes, rompendo com as regras da pontuação e da sintaxe portuguesas".

Para os leitores brasileiros que ainda não estão familiarizados com a obra do Nobel, a dica do biógrafo é começar por Levantado do Chão ("tematiza a luta pela posse da terra") ou Ensaio sobre a Cegueira ("alegoriza situações comuns a todas as latitudes").

Confira abaixo a entrevista completa.

  • Armando Franca/AP

UOL Notícias: Qual era sua relação com Saramago e como o senhor recebeu a notícia da morte?

João Marques Lopes: Enquanto leitor muito atento e admirador de boa parte da intervenção cívica de Saramago, recebi a notícia com grande pesar. Maior ainda foi o meu pesar, por ter convivido durante anos a fio com a sua obra e o seu percurso existencial sem nunca ter tido nenhuma desilusão capaz de reverter o juízo altamente positivo que sempre fiz acerca dele.

UOL Notícias: Qual a importância do escritor para o nosso tempo? O que ele representa? Em que sentido ele fará falta?

Lopes: Por um lado, creio que é a sua capacidade de oralizar a escrita, de contar uma história como se estivesse no meio de uma roda de comparsas aberta a várias vozes, rompendo com as regras da pontuação e da sintaxe portuguesas; ele trouxe algo de profundamente original à literatura contemporânea.

Por outro lado, provavelmente o fato de tais vozes corresponderem prioritariamente aos setores dominados e marginalizados pelo poder político-econômico (desde os trabalhadores rurais à mulher, desde o pequeno amanuense ao artesão vivendo apenas da sua força de trabalho), recolhendo aqui o escritor a influência do marxismo e da nouvelle histoire de [Fernand] Braudel e Jacques Le Goff. Reescrevendo assim a história (por exemplo, em Memorial do Convento), valorizou tal originalidade.

Ele representa literária e civicamente uma voz dos explorados e oprimidos contra a lógica concentacionista e guerreira do sistema capitalista, e em prol de um outro mundo possível para lá do lucro, da concorrência e do individualismo desenfreados. Nesse sentido, a sua voz fará muita falta, sobretudo por se atrever a denunciar as fragilidades e imperfeições de uma democracia usurpada pelo poder financeiro mundial.

UOL Notícias: Como foi o processo de escrever a biografia?

Lopes: Foi um trabalho que levou vários anos, pois foi necessário dar vários passos e cada um levou bastante tempo a ser eficientemente feito. O primeiro passo foi ler e reler tudo quanto Saramago publicou, e arranjar múltiplas entrevistas que o autor tem dado, sobretudo desde que se tornou conhecido com Levantado do Chão (1980). Depois tornou-se necessário consultar vasta bibliografia secundária sobre a obra do autor e constituir "dossiês" da imprensa literária e generalista (desde fins dos anos 60 até aos dias de hoje). A seguir, entrevistei algumas pessoas próximas de José Saramago. Por fim, redigi a obra.

UOL Notícias: Quais foram os momentos mais surpreendentes?

Lopes: A informação de que o escritor chegara a ponderar a hipótese de emigrar para o Brasil em 1963 surpreendeu-me bastante, pois não fazia a mínima ideia de tal situação e por a mesma coincidir com o período da história brasileira em que esteve mais iminente uma transformação socialista do país.

UOL Notícias: Saramago leu a biografia antes da publicação? Qual foi a posição dele?

Lopes: A biografia foi enviada antes de ser publicada em Portugal, mas ele só respondeu cerca de dez dias depois de a mesma sair a público. Fez uma apreciação bastante positiva, quer no site oficial da Fundação José Saramago, quer em mensagem particular que me enviou.

UOL Notícias: De que forma a obra de Saramago poderia ser considerada imortal?

Lopes: O fato de ter trazido um inusitado estilo de oralização da escrita e o fato de ser até agora o único escritor de língua portuguesa a ter ganho o Prêmio Nobel poderão ajudar a perpetuar a sua obra, mas é muito díficil fazer futurologia e saber o destino de uma obra a muito longo prazo. Creio que a excelente penetração da obra no mercado estado-unidense também poderá ajudar a tal perpetuação.

UOL Notícias: Para os leitores brasileiros que ainda não conhecem a obra, que conselho o senhor daria? Por onde começar?

Lopes: Talvez Levantado do Chão seja uma boa entrada para os leitores brasileiros, pois tematiza a luta pela posse da terra por parte de trabalhadores rurais e este é ainda um tema candente no Brasil. Por outro lado, Ensaio sobre a Cegueira também é uma boa opção, pois alegoriza situações comuns a todas as latitudes e até já foi levado ao cinema pelo brasileiro Fernando Meirelles.

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