Venezuela se aproxima de eleições cruciais para governo Chávez com economia em crise

Do UOL Notícia*
Em São Paulo

O governo do presidente venezuelano, Hugo Chávez, vai enfrentar em 26 de setembro um teste crucial para seu futuro: pela primeira vez em uma década, o país terá uma eleição parlamentar com a presença de partidos de oposição, ameaçando o controle do governo sobre a Assembleia Nacional.

Entrevista de Hugo Chávez à BBC:
"Crise na Venezuela é consequência das políticas irresponsáveis dos EUA"

A expectativa é que as eleições sejam um inevitável avanço para a oposição, já que o Parlamento atual foi formado em 2005 por um pleito boicotado pelos grupos opositores. Na ocasião, as principais forças rivais a Chávez abandonaram a corrida eleitoral alegando falta de condições democráticas. A votação ocorreu na data programada, com a presença de observadores internacionais, e formou uma assembleia que há cinco anos aprova os planos do presidente sem dificuldade.

Desta vez, a oposição não parece disposta a perder outra oportunidade: uma coalizão formada por mais de vinte partidos concordou em indicar um candidato único para cada uma das 165 cadeiras na disputa com o bloco chavista, eliminando a concorrência dos opositores entre si. E a favor da oposição este ano está o argumento dos fracos resultados econômicos recentes do país.

Na primeira década da presidência de Chávez, o Produto Interno Bruto venezuelano passou de US$ 98 bilhões (1999), para US$ 337 bilhões (2009), triplicando de tamanho em um período em que o PIB mundial dobrou. Mas depois de um pico de crescimento de 18% em 2004, a economia venezuelana perdeu fôlego: o país foi atingido em 2008 pela crise mundial e está tecnicamente em recessão desde o último trimestre de 2009.

Segundo o Fundo Monetário Internacional, o PIB venezuelano despencou 3,28% em 2009, período em que a economia brasileira caiu 0,2%. Para 2010, as previsões desse organismo são de crescimento de 5,5% no Brasil, e nova queda de 2,6% na Venezuela.

Com isso, a Venezuela seria o único país sul-americano com retração do PIB em 2010. No continente americano, apenas o Haiti, atingido por um terremoto no início do ano, teria um resultado pior, nas expectativas do FMI.

 

Petróleo

Tanto nos momentos de euforia quanto na atual queda, a principal variável para os resultados da economia venezuelana ainda é o petróleo, como tem sido desde sua descoberta, em 1920, como explica o economista Luciano Wexell Severo, autor de diversos estudos sobre o tema, em entrevista ao UOL Notícias.

“O petróleo é o motor da economia venezuelana, e vai continuar sendo por muitos anos. Em raros momentos históricos ele representou menos de 90% das exportações do país”, afirma Severo.

Isso amplifica na Venezuela o impacto que a indústria petroleira mundial sofreu no último semestre de 2008, quando o preço do barril despencou de quase US$ 140, em junho, para menos de US$ 40, em dezembro.

De acordo com Severo, as altas reservas – nacionais e internacionais – acumuladas pela Venezuela nos últimos anos amorteceram este impacto, que poderia ter sido ainda mais grave. Contudo, não foi impedido o processo recessivo imposto pela queda da renda petroleira, o que reduz a arrecadação do Estado e o volume dos programas de estímulo à diversificação da produção interna.

Dados citados pela Confederação Venezuelana de Indústrias mostram o setor de manufatura registra cinco trimestres consecutivos de queda. A capacidade industrial utilizada, segundo a mesma fonte, já recuou para níveis de 2003, em um processo que contou também com um revés estrutural: do começo do ano até dia 10 de junho, o país viveu um racionamento de energia elétrica.

A recessão também agrava os efeitos de uma economia que convive com índices inflacionários de dois dígitos. Na estimativa do FMI, a inflação no preço ao consumidor na Venezuela atingirá a casa dos 34% este ano – uma taxa sete vezes maior do que o esperado na economia brasileira.

Nacionalizações

Nesse contexto, ganha vulto a crítica da classe empresarial venezuelana contra às ações de nacionalização movidas por Chávez, um ponto que também poderá ganhar destaque nos debates dos próximos três meses.

Na última semana, representantes do empresariado venezuelano Venezuela denunciaram que as nacionalizações estariam sendo “aceleradas” antes das votações, sem um “pagamento justo” pelas empresas, o que é negado pelas autoridades.

“Nas últimas duas semanas as expropriações foram publicadas quase que diariamente no Diário Oficial”, afirmou à imprensa local o presidente da Confederação Nacional de Industriais (Conindustria).

O diretor do Conselho Nacional de Comércio e Serviços (Consecomercio), Fernando Morgado, também argumenta que que 26 companhias foram “tomadas” recentemente.

Chávez responde que os capitais privados locais são “improdutivos” e “especuladores”, e argumenta que sua “revolução” procura instaurar um sistema produtivo socialista, no qual a população tenha o acesso aos bens e serviços básicos a preços justos.

Em busca de dois terços do parlamento

Mais de 17,7 milhões de eleitores podem votar no pleito de 26 de setembro para escolher os 110 deputados nominais, 52 deputados por listas e três representantes indígenas, para um total de 165 cadeiras da Assembleia Nacional.

A maioria necessária para aprovação de projetos é de dois terços, o que faz com que a meta do governo seja manter pelo menos 109 cadeiras para garantir o futuro da “revolução bolivariana”.

*Com informações das agências EFE e Ansa

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