Aliança incomum e abstenção limitam vitória da oposição no México

Maurício Savarese
Do UOL Notícias

Em São Paulo

  • Gerardo Garcia/Reuters

    Eleições regionais mexicanas transcorreram sob forte segurança em Ciudad Victória

    Eleições regionais mexicanas transcorreram sob forte segurança em Ciudad Victória

O oposicionista PRI, partido que mais presidentes mexicanos elegeu, terá nove dos 12 governos regionais que disputou no domingo, mas perdeu em três redutos históricos por conta de uma aliança entre a direita governista do PAN e os rivais do esquerdista PRD. Analistas ouvidos pelo UOL Notícias dizem que isso deixa ainda mais confuso o cenário da sucessão do presidente Felipe Calderón, em 2012.

Na votação – que foi realizada sob temor de ataques do narcotráfico -, Estados governados pelo PRI há 80 anos e hoje fortemente afetados pelo banditismo, como Oaxaca, Puebla e Sinaloa, caíram nas mãos da oposição do PAN, do presidente Calderón, e do PRD, do candidato derrotado nas turbulentas eleições de quatro anos atrás, Andrés Manuel López Obrador. Uma união improvável.

Além disso, a jornada eleitoral foi marcada por acusações mútuas entre PRI e PAN de compra de votos e de intimidação de eleitores. Nenhum dos ataques foi endossado pelas autoridades eleitorais mexicanas, mas isso pesou para uma abstenção de 60% em alguns Estados. Estavam em disputa 14 dos 31 Estados mexicanos, o Distrito Federal e cadeiras em assembleias regionais.

Analistas interpretaram esses movimentos como novos sinais de que as eleições presidenciais podem voltar a dividir a sociedade mexicana, como aconteceu em 2006 na disputa entre Calderón, preferido do então presidente Vicente Fox, e o esquerdista Obrador – que promoveu protestos semanas depois da contestada derrota nas urnas. No México os mandatos presidenciais têm seis anos, sem direito a reeleição.

“Foi o processo eleitoral mais lamentável em tempos de alternância de poder”, disse o cientista político Pablo Hiriart, colunista de jornais mexicanos. “Quatro anos depois das eleições que dividiram, amanhecemos de novo com um México polarizado, desta vez entre o PRI e uma oposição dura, gestada pelo PAN do presidente Calderón. Com isso, o cenário de 2012 é bastante incerto”, afirmou.

“O que vimos ontem e em todo o processo, com essas acusações, pode ser o anúncio do que virá em 2012. Quando as eleições são enlameadas de maneira premeditada, como ocorreu no domingo, o ambiente político do país se enlameia junto e tudo fica mais confuso para o eleitor”, afirmou.

A oposição em termos nacionais se inclina para ter dois candidatos em 2012: o governador Enrique Peña Nieto (PRI) e o prefeito da Cidade do México, Marcelo Ebrard (PRD). Pela situação, o favorito para a disputa é Santiago Creel, presidente do Senado. Nas pesquisas de intenção de voto, Peña Nieto aparece com ampla vantagem sobre Ebrard, cujo partido se aliou ao PAN de Creel nestas eleições.

“Ebrard já negou a possibilidade de aliança PRD-PAN, mas as eleições regionais, nas quais esses partidos se uniram, só serviram para aumentar a confusão”, disse Michael Shifter, presidente do instituto Diálogo Interamericano, com sede em Washington. “Mas essas eleições certamente mostram que o PRI é o partido a ser batido. Não fosse assim, a direita e a esquerda não se uniriam somente para bater os candidatos do PRI.”

Os Estados onde o PRI venceu - Tlaxcala (1 milhão de habitantes), Aguascalientes (1,1 milhão) e Zacatecas (1,3 milhão) - têm população menor do que os perdidos pelo partido oposicionista, como Oaxaca (3,5 milhões), Puebla (5,4 milhões) e Sinaloa (2,6 milhões).

Influência da violência

Em um dos seus redutos históricos, o Estado de Sinaloa, o PRI caminhava para a primeira derrota em décadas porque os arquirrivais PAN e PRD se uniram. A disputa seguia voto a voto horas antes do encerramento da apuração. Ali, quase mil pessoas morreram apenas neste ano por conta da violência gerada pelo narcotráfico.

No Estado de Chihuahua, o PRI venceu, mas a abstenção foi alta: apenas 36% dos electores votaram. Na Cidade do México, o comparecimento também foi menor, segundo autoridades que não divulgaram números para a capital, também por conta do assassinato de 10 pessoas apenas durante o domingo.

Durante a campanha em Estados, o governo de Calderón enviou reforços para evitar a ação de traficantes nos Estados de Chihuahua, Durango, Sinaloa e Tamaulipas. No dia da votação, não houve incidentes relatados à Justiça Eleitoral, mas, segundo líderes locais, houve intimidação a eleitores.

“É a primeira vez que a violência do narcotráfico e do crime afeta os processos eleitorais”, disse Luis Carlos Ugalde, ex-presidente do Instituto Federal Eleitoral (IFE) mexicano, que organiza as votações. “Nunca tinha havido interferência nas eleições, nunca tinham impedido a instalação de urnas, nunca o Instituto Eleitoral tinha tido problemas para capacitar mesários.”

Embora a relação como narcotráfico não seja clara, o candidato do PRI ao governo de Tamaulipas, Rodolfo Torre Cantú, foi assassinado em uma emboscada. O irmão dele, Egídio, concorreu em seu lugar e venceu. Para os mexicanos, trata-se do mais grave caso de crime político desde a morte do candidato presidencial Luis Donaldo Colosio, em 1994.

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