Roteiro africano de Lula coroa governo marcado por ofensiva diplomática no continente

Thiago Chaves-Scarelli
Do UOL Notícias
Em São Paulo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerra neste final de semana dez dias de visita à África, no último grande giro internacional de um governo marcado por uma ofensiva diplomática no continente. Para os analistas consultados pelo UOL Notícias, o saldo é um intercâmbio comercial crescente e a consolidação da diplomacia entre nações do sul, mas cuja realização provoca polêmicas no campo dos direitos humanos.

Oito anos e onze viagens depois, Lula é o presidente brasileiros que mais vezes foi até a África – segundo registros do Itamaraty, mais vezes do que todos os anteriores juntos. Outra conquista da política externa foi estabelecer relações diplomáticas com todos os países do continente, marca atingida no último mês de abril, quando Brasil e a República Centro Africana selaram oficialmente o início das relações bilaterais.

Países africanos que o presidente Lula visitou em oito anos de governo

  • Passe o mouse para saber o nome do país, quando Lula esteve lá e qual o volume do comércio bilateral com o Brasil, segundo dados consolidados de 2009

“Houve de fato uma grande ênfase na África durante a administração Lula”, afirmou Pio Penna, doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor da Universidade de São Paulo.

“A nossa rede de embaixadas no continente africano nunca teve uma extensão tão grande, nem no auge da política africana do período do regime militar. E o fluxo comercial entre Brasil e África teve um crescimento espetacular, subimos de US$ 5 bilhões em 2002 para US$ 25,9 bilhões em 2008”, argumenta Penna.

Para o pesquisador, é importante lembrar que Lula também encontrou do outro lado do Atlântico um quadro mais favorável para essa aproximação. “Nos anos 90 os africanos estavam numa situação muito mais aguda, muito mais crítica do que agora: havia uma série de guerras civis acontecendo em várias regiões do continente, Estados que virtualmente desapareceram, como foi o caso da Somália, de Serra Leoa, da República Democrática do Congo no final da década. Quando Lula assume, o cenário na África é outro. Sai de uma década de crise, para uma década com maior comércio, maior estabilidade, maior crescimento. Claro que alguns conflitos permanecem, mas a balança mudou: menos conflito, mais crescimento”.

“Então houve a convergência desses dois elementos: uma decisão política do governo Lula de dar atenção especial para a África e para as relações sul-sul, e do lado de lá existe um ambiente mais propício para essa aproximação”, descreve o professor Penna. “E as relações com a África vão além do comércio. A questão das cooperações técnicas também é um elemento muito importante, que ajuda a estabilizar as relações sul-sul.”

Multipolaridade

Com relação ao fluxo comercial, o pesquisador Paulo Edgar Resende destaca que não é apenas o volume que beneficia o Brasil, mas também as características deste comércio. “Do ponto de vista econômico, o Brasil corre o perigo de ser um exportador de commodities nas relações com os países mais desenvolvidos, mas com a África – assim como na América Latina – o Brasil tem chance de se fazer presente com produtos industrializados, de maior valor agregado, o que é muito positivo", explica o coordenador do Núcleo de Análise de Conjuntura Internacional da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Novas embaixadas

Nos últimos oito anos, foram inauguradas embaixadas brasileiras em 16 países africanos: São Tomé e Príncipe (2003); Etiópia (2004); Camarões, Tanzânia, Guiné Equatorial, Sudão, Benin e Togo (2005); Guiné, Zâmbia e Botsuana (2006); Congo, Mauritânia, Burkina Faso e Mali (2007); e Serra Leoa (2010).

Entre os países da lista acima, cerca de metade possui não mais do que 30 brasileiros residentes atualmente, segundo estimativas do ministério das Relações Exteriores.

Em Benin e Sudão, a presença estimada de cidadãos brasileiros não chega a uma dezena.

Ao mesmo tempo, a diplomacia sul-sul romperia a polarização de poder em torno das potências tradicionais. “Na medida em que estamos saindo de um contexto internacional em que os Estados Unidos se colocam como uma presença sem rivais, pouco a pouco vai surgindo um pluralismo que faz com que essas relações do Brasil com América Latina, com a África, com alguns países da Ásia construa, em parcerias, uma multi institucionalidade internacional”, descreve Resende.

Polêmicas

No roteiro que se encerra este final de semana, entre acordos políticos e documentos de cooperação, uma visita em especial motivou polêmica no noticiário. Em Guiné Equatorial, Lula se reuniu com o presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, que assumiu o poder há 31 anos, após um golpe de Estado.

Questionado pela imprensa sobre a aproximação de Lula com um governante acusado de autoritarismo, o chanceler Celso Amorim respondeu: “Negócios são negócios. Nós estamos em um continente em que os países ficaram independentes há pouco tempo. Isso é uma evolução que tem a ver com o social, o político”.

Para os analistas, essa aproximação não é louvável, mas deve ser entendida no contexto da relação entre Estados. “Não gostei da declaração do ministro Amorim de que ‘negócios são negócios’, uma vez que negócios podem ter significados que transcendem a economia. O fato é que o Brasil rege sua vida diplomática a partir do princípio de não intervencionismo em questões internas com os países com os quais se relaciona. Mas não é só o Brasil, os Estados Unidos abdicam de enfatizar alguns aspectos de direitos humanos nas suas relações com Israel, com relação à China”, argumenta Resende.

“E mesmo agora, quando lemos os comunicados de Lula com os governos africanos de uma maneira um pouco menos emocional, sobretudo com o governo da Guiné Equatorial, observamos que após o encontro houve uma nota afirmando que os dois governos renovam sua ‘adesão aos princípios de democracia e direitos humanos’. Essa declaração tem um significado, ela quer dizer que essas palavras ‘democracia’ e direitos humanos’ estiveram presentes, foram pronunciadas neste encontro. E em nenhum momento o governo buscou negar que exista ditadura na Guiné Equatorial”, acrescenta o professor.

Custo x benefício

Ao lado da questão dos direitos humanos, a própria preferência do governo por uma diplomacia sul-sul é criticada por parte dos analistas, que questionam os benefícios dessa política.

“O que a gente precisa ver é se esse esforço todo que foi feito nos últimos oito anos trouxe resultados concretos para o Brasil, do ponto de vista político, do ponto de vista diplomático, do ponto de vista comercial”, aponta o embaixador Rubens Barbosa.

“Do ponto de vista político e diplomático, eu acho que trouxe poucos resultados, porque quando se tratou de discutir temas que são muito relevantes para o Brasil, como Conselho de Segurança da ONU e agora essa questão do Irã, a África votou com posição diferente da posição do Brasil. Do ponto de vista comercial, a África continua a ser marginal para o Brasil, passou de quase 4% para cerca de 5% de toda a exportação brasileira”, acrescenta Barbosa.

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