Apesar de rompimento de relações, consulado venezuelano reabre na Colômbia

Do UOL Notícias*
Em São Paulo

Mesmo com o anúncio do ministro das Relações Exteriores venezuelano, Nicolas Maduro, que exigia a saída de todo o corpo diplomático da Colômbia em 72 horas a partir da última quinta-feira, o consulado da cidade fronteiriça de Cúcuta foi reaberto hoje (26).

Segundo fontes oficiais, o local está aberto para avançar os processos de imigração que tinham sido bloqueados após o rompimento das relações entre os dois países, decretado pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez.

O consulado está sob vigilância da Polícia Nacional da Colômbia.

Segundo o jornal “El Espectador”, não se sabe se os demais consulados da Venezuela serão reabertos no território colombiano.

Conflito

Hoje o ministro venezuelano da Energia, Alí Rodríguez, afirmou que a denúncia da Colômbia de que a Venezuela abriga guerrilheiros colombianos é um pretexto "vulgar e ofensivo" elaborado junto com os Estados Unidos para atacar seu país.

"É pretexto grosseiro, vulgar e ofensivo para atacar a Venezuela e para atacar os processos libertários em nosso continente", afirmou Rodríguez, no ato pelo 57° aniversário do ataque ao Quartel Moncada, a principal festa da revolução cubana, presidido por Raúl Castro.

"Segundo eles, protegemos o narcotráfico e protegemos o terrorismo", acrescentou Rodríguez, ao destacar que seu país é "amante da paz".

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, que deveria participar na comemoração, anunciou a suspensão de uma viagem a Cuba, afirmando contar com "informação de inteligência" que sugere que há riscos de uma "agressão" ao seu país por parte da Colômbia.

Chávez acusou Washington de ser "o grande culpado" e "o grande instigador" de preparar uma "força de contenção" para apoiar esta eventual agressão, e ameaçou suspender a venda de petróleo aos Estados Unidos caso ocorra um conflito armado.

Os Estados Unidos afirmaram que descartam qualquer ação militar contra a Venezuela, através da porta-voz do Departamento de Estado, Virginia Staab, depois que o presidente Hugo Chávez ameaçou cortar o fornecimento de petróleo, se Washington apoiar um ataque contra seu país.

"Como fizemos no passado, os Estados Unidos não têm intenção de iniciar ação militar contra a Venezuela", informou a porta-voz.

Estados Unidos e Venezuela desfrutaram por muito tempo de "relação energética mutuamente benéfica" e Washington deseja "que essa relação continue", assinalou Staab.

Os Estados Unidos, principal comprador de petróleo venezuelano, recebe 1,4 milhão de barris diários, com o que a Venezuela se posiciona no quinto lugar entre seus fornecedores de óleo.

"Incentivamos a Colômbia e a Venezuela a trabalharem através do diálogo e da diplomacia para garantir a paz e a segurança em sua fronteira comum", indicou a porta-voz do Departamento. Segundo ela, Washington considera que as denúncias da Colômbia "merecem investigação minuciosa".

Semana passada, o Departamento de Estado qualificou de resposta "infeliz" da Venezuela a ruptura de relações, frisando que as denúncias da Colômbia, sobre a presença de 1.500 guerrilheiros refugiados no país vizinho, em dezenas de acampamentos, devem ser levadas "muito a sério".

Rompimento

Na semana passada, o representante colombiano, Luis Alfonso Hoyos, levou à OEA (Organização dos Estados Americanos), em Washington, uma série de mapas e fotos que comprovam, segundo a Colômbia, a presença de guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) refugiados em território venezuelano.

Em resposta às acusações de que guerrilheiros estariam abrigados em território venezuelano, Chávez anunciou o rompimento das relações diplomáticas com a Colômbia.

“Não nos resta outra opção, por dignidade, a não ser romper totalmente as relações diplomáticas com a irmã Colômbia, e isso me produz uma lágrima no coração”, afirmou o presidente da Venezuela, em transmissão ao vivo pela televisão.

Chávez também ordenou “alerta máximo” na fronteira e advertiu sobre o risco de que o presidente colombiano, Álvaro Uribe, movido por seu “ódio contra a Venezuela”, pudesse realizar uma ação militar na região.

"Uribe é capaz de mandar montar um acampamento falso do lado venezuelano só para poder atacá-lo e causar uma guerra", afirmou. "A uma guerra com Colômbia teríamos que ir chorando, mas iríamos."

Em 2009, Chávez já havia "congelado" as relações com a Colômbia por causa de denúncias do país vizinho de um suposto desvio de armas venezuelanas às Farc, o que afetou enormemente o comércio bilateral.

A tensão aumentou depois de a Colômbia assinar no final de 2009 um acordo com os Estados Unidos para o uso compartilhado de bases militares colombianas.

A nova escalada é um revés para o anunciado propósito do presidente eleito colombiano, Juan Manuel Santos, que assume a presidência em 7 de agosto, de recompor as relações com a Venezuela.

Entenda a cronologia dos momentos mais críticos nas relações bilaterais entre os dois países:

2009

- 28 julho: A Suécia confirma que vários lança-foguetes produzidos no país e apreendidos com as Farc foram vendidos à Venezuela no final dos anos 80. Chávez ordena a "retirada" de seu embaixador de Bogotá, congela as relações diplomáticas e comerciais e adverte que romperá laços diante de uma "nova agressão" do presidente colombiano, Álvaro Uribe.

- 8 novembro: Chávez convoca os venezuelanos a "se prepararem para a guerra".

- 13 novembro: A Colômbia entrega à OEA um protesto pelas "ameaças" bélicas da Venezuela.

- 20 novembro: O secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, pede que os dois países mantenham a "máxima prudência".

- 25 novembro: A Venezuela entrega a Insulza um documento no qual qualifica o pacto militar dos EUA com a Colômbia como "uma ameaça de guerra".

- 2 dezembro: Uribe denuncia que a Venezuela mantém um "embargo ilegal" contra seu país.

2010

- 22 fevereiro: Uribe e Chávez protagonizam uma forte discussão durante a Cúpula do Grupo do Rio, no México, mas depois aceitam a mediação de "países amigos", liderados pelo líder dominicano, Leonel Fernández.

- 31 março: Denunciada a detenção na Venezuela de oito colombianos residentes nesse país, acusados de espionagem.

- 8 abril: Uribe pede à Venezuela que respeite os direitos dos cidadãos da Colômbia que vivem nesse país.

- 9 abril: A Venezuela acusa a Colômbia de "destruir" as relações bilaterais, e o Governo colombiano responde dizendo que "o embargo" que afeta o comércio bilateral foi imposto pelos venezuelanos.

- 25 abril: Presidente venezuelano diz que a eleição de Juan Manuel Santos à Presidência poderia "gerar uma guerra" na região.

- 26 abril: A Colômbia denuncia a "inaceitável" intervenção venezuelana na campanha eleitoral.

- 20 junho: Santos vence as eleições presidenciais em segundo turno.

- 21 junho: Presidente eleito convida Governos do Equador e Venezuela a "abrir caminhos de cooperação rumo ao futuro". O Governo venezuelano o parabeniza por sua vitória.

- 24 junho: Santos escolhe a ex-embaixadora na Venezuela María Ángela Holguín como sua futura chanceler.

- 25 junho: Holguín menciona a recomposição das relações com a Venezuela como um de seus "grandes desafios" em matéria diplomática.

- 14 julho: Chávez diz que "avalia" a possibilidade de assistir à posse de Santos e que autoriza Maduro a se reunir com Holguín.

- 15 julho: Governo colombiano anuncia que tem provas da presença de chefes guerrilheiros na Venezuela.

- 16 julho: A Venezuela denuncia uma "nova investida" contra as relações bilaterais e convoca seu embaixador em Bogotá, enquanto a Colômbia solicita à OEA uma sessão extraordinária do Conselho Permanente para investigar a presença de "terroristas colombianos" em território venezuelano.

- Chávez anuncia que não assistirá à posse de Santos porque deve "cuidar" de sua vida, e adverte que "poderia romper as relações" com o país vizinho, após acusar Uribe de querer "gerar um grande conflito" bilateral.

- 18 julho: Chávez relaciona a nova disputa com a Colômbia com a "doutrina imperial americana".

- 19 julho: O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, lembra a Colômbia e Venezuela que o diálogo é a melhor ferramenta para resolver qualquer diferença "entre vizinhos", e coloca à disposição dos dois países "toda a ajuda técnica" desse organismo para resolver a crise bilateral.

- O Governo colombiano assegura que apresentará à OEA evidências "claríssimas" e "recentes" da presença de chefes guerrilheiros na Venezuela.

- 20 julho: Chávez afirma que as acusações da Colômbia de que seu país é refúgio de líderes guerrilheiros colombianos obedecem "à luta pelo poder" entre o presidente em fim de mandato e o eleito, Juan Manuel Santos.

- Uribe assegura que para "falar sinceramente de irmandade" com as nações vizinhas "não pode haver criminosos envolvidos", em alusão à Venezuela.

- 21 julho: O embaixador do Equador na OEA, Francisco Proaño, que exerce a Presidência rotativa do Conselho Permanente do organismo, anuncia sua renúncia por divergências com o chanceler de seu país a respeito da convocação de uma reunião dessa instância para avaliar as denúncias da Colômbia sobre a presença de chefes das Farc na Venezuela.

- O embaixador de El Salvador na OEA, Joaquín Alexander Maza Martelli, assume como presidente do Conselho Permanente após a renúncia do embaixador equatoriano e convoca para a quinta-feira 22 de julho a sessão extraordinária solicitada pela Colômbia.

- O embaixador da Colômbia na OEA, Luis Alfonso Hoyos, assegura que seu país não pretende que o governo da Venezuela seja condenado pelo organismo com seu pedido de uma reunião extraordinária do Conselho Permanente.

- 22 julho: A Colômbia denuncia em uma sessão extraordinária do Conselho Permanente da OEA uma presença "consolidada", "ativa" e "crescente" das guerrilhas na Venezuela, a quem pede que atue sem "demoras" para que não se agrave a situação. Além disso, solicita a criação de uma comissão internacional que verifique nos próximos 30 dias a presença de acampamentos das Farc em território venezuelano.

-22 julho: Chávez anuncia a ruptura das relações diplomáticas com a Colômbia e ordena "alerta máximo" na fronteira, diante da "gravidade do ocorrido" na sessão da OEA pedida pelo Governo colombiano para denunciar a presença de chefes guerrilheiros na Venezuela.
 
*Com agências internacionais

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