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"Somos dois homens que se amam, nada mais", diz noivo às vésperas do casamento na Argentina

Thiago Chaves-Scarelli<br>Do UOL Notícias

Em São Paulo

30/07/2010 08h00

Às 9h da manhã do próximo sábado (31), Giorgio Nocentino e Jaime Zapata vão confirmar diante de Justiça da Argentina a intenção de oficializar sua vida conjugal, tornando-se um dos primeiros casais a usufruir da reforma que estendeu aos gays o mesmo direito ao matrimônio que heterossexuais sempre tiveram.

Argentina já celebra os primeiros casamentos gays após reforma legal. Qual sua opinião?

"Nunca imaginamos que isso fosse acontecer", confessou Nocentino, em conversa ao UOL Notícias por telefone, em meio à correria do trabalho e dos preparativos para o casamento.

Os dois noivos são chilenos, mas moram na Argentina há mais de dez anos, e a residência já é suficiente para que possam se casar neste país, que desde o dia 23 de julho se tornou o primeiro na América Latina a reconhecer o casamento gay em todo seu território.

De acordo com a reforma aprovada pelo Parlamento e assinada pela presidente, Cristina Kirchner, o texto do Código Civil argentino simplesmente eliminou os termos "homem" ou "mulher" no trecho referente ao casamento.

Para Nocentino e Zapata, o reconhecimento legal vai oficializar uma união de 23 anos que tem "exatamente" os mesmos problemas e as felicidades de qualquer outra. "A única diferença é que somos dois homens que se amam, nada mais".

Confira abaixo na íntegra a entrevista concedida ao UOL Notícias.

  • Arquivo pessoal/UOL

    Juntos há 23 anos, Jaime Zapata e Giorgio Nocentino (dir.) serão um dos primeiros casais a oficializar matrimônio na Argentina, depois da reforma que estendeu aos gays o direito ao casamento

UOL Notícias: Depois de tantos anos juntos, o que significa se casar agora?

Giorgio Nocentino: A decisão de nos casarmos sempre esteve latente. Sempre quisemos casar. A questão é que antes não se podia. A partir do momento que sai a lei, nos é aberta a possibilidade de regularizar legalmente todos os 23 anos de convivência que temos.

UOL Notícias: E na prática...

Nocentino: Na prática não fará muita diferença. Na vida cotidiana, vamos continuar sendo exatamente os mesmos. Ou seja, vamos continuar trabalhando, porque essa é nossa vida, trabalhar todos os dias. Inclusive no sábado, dia do casamento, teremos que trabalhar nesse dia, igual.

UOL Notícias: Há 23 anos, quando se conheceram, imaginavam que um dia haveria a possibilidade de se casarem?

Nocentino: Para ser sincero, a verdade é que não. Nunca imaginamos que isso fosse acontecer, e nem que iria acontecer tão rápido. Essa chance nós víamos muitíssimo mais longe em nossas vidas.

UOL Notícias: O senhor acredita que essa é uma tendência, que os homossexuais conquistem seus direitos?

Nocentino: É uma tendência mundial. No final das contas, são direitos. Direitos igualitários. A igualdade é o que vai prevalecer. Cedo ou tarde, todo mundo vai fazer valer seu direito.

UOL Notícias: Para os críticos do casamento gay, que não querem que uma lei assim seja aprovada no Brasil, o matrimônio deveria ser preservado como direito exclusivo dos heterossexuais.

Nocentino: E por que nós não somos iguais a qualquer outra pessoa? Respeito a opinião de quem não está de acordo com o que estamos fazendo, respeito que as pessoas pensem distinto, mas o fato de que eu pense diferente deles não faz com que eu esteja errado. Tenho os mesmos direitos que tem qualquer outro ser humano. Não tenho vergonha do que eu sou. O que eu sou? Eu sou uma pessoa que compartilha sua vida com outro igual. Para mim, o amor não tem sexo.

UOL Notícias: Quais são os fatores que atrasam a conquista desses direitos, no Brasil, por exemplo? Ou que atrasaram até agora na Argentina a possibilidade do casamento?

Nocentino: Eu diria que é o egoísmo de certas pessoas, que ao desconhecerem o que é a vida em casal de um homossexual, têm medo. E normalmente contra aquilo que se tem medo, as pessoas atacam. Mas eu não sei por que se teme tanto, já que minha vida pessoal, privada, não interfere nem um pouco na vida pessoa de nenhuma outra pessoa.

  • Arquivo pessoal/UOL

    Jaime Zapata e Giorgio Nocentino, em uma viagem que fizeram ao Rio há mais de 10 anos

UOL Notícias: Como imagina sua vida daqui para frente?

Nocentino: Trabalhar, seguir a vida normal. E a razão desse trabalho árduo é para que possamos passar férias no seu país [risos]. Todos os anos viajamos ao Rio de Janeiro.

UOL Notícias: E como o senhor é tratado no Rio?

Nocentino: É meu segundo lugar na Terra. Eu amo Mendoza, amo a Argentina, que se transformou na minha pátria, mas para mim o lugar de descanso é o Rio de Janeiro. São muito amáveis.

UOL Notícias: O que sua família pensa do seu casamento?

Nocentino: Para ser sincero com você, a nossa família não tem nada que pensar. Eles nos apoiam, mas é essa uma decisão pessoal, minha e de Jaime, nada mais. Eu já sou uma pessoa da família de Jaime, e Jaime é uma parte da minha família. Isso não muda. Nenhuma família vai se desfazer por causa disso.

UOL Notícias: O senhor diria que os problemas e as felicidades que compartilha com Jaime são parecidos com os problemas e com as felicidades de um casal heterossexual?

Nocentino: Exatamente iguais. As pessoas que nos conhecem veem que temos os mesmos problemas, as mesmas inquietudes que tem qualquer casal. Nada mais. A única diferença é que somos dois homens que se amam, nada mais.

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