Ahmadinejad nega asilo a Sakineh para demonstrar força, diz ativista de direitos humanos

Thiago Chaves-Scarelli

Do UOL Notícias<br>Em São Paulo

O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, descartou nesta segunda-feira (16) a hipótese de enviar ao Brasil uma mulher sentenciada à morte no Irã, em uma iniciativa que foi interpretada pelo ativista Mahmood Amiry-Moghaddam como uma demonstração de força de uma República Islâmica preocupada em manter um regime baseado no exercício do medo.

Mahmood Amiry-Moghaddam

  • O neurocientista iraniano Mahmood Amiry-Moghaddam mora atualmente na Noruega, onde é vinculado à Universidade de Oslo. Em 2007, recebeu um prêmio da Anistia Internacional pelo seu trabalho pelos direitos humanos.

    UOL Notícias: A mídia oficial iraniana não menciona o caso Sakineh. Por quê?
    Amiry-Moghaddam:
    Quando você está no Irã, é um pouco bobo isso, os canais oficiais fingem que isso não está acontecendo, mas todo mundo sabe que isso está acontecendo. De novo, é um regime de faz-de-conta.

    UOL Notícias: O governo iraniano alega que essa é uma questão doméstica. O que o senhor pensa a esse respeito?
    Amiry-Moghaddam:
    Não estamos falando de políticas locais, como construção de estradas ou organização de campeonatos esportivos, estamos falando de pessoas sendo apedrejadas até a morte. É tão doloroso para uma iraniana morrer apedrejada quanto é para qualquer outra mulher no mundo. A maioria dos iranianos tem a mesma opinião sobre isso do que o resto do mundo, só que a voz do povo iraniano não é ouvida, e por isso é importante a atenção internacional.

    UOL Notícias: O senhor hoje mora na Noruega. Seria possível fazer esse tipo de denúncia no Irã?
    Amiry-Moghaddam:
    Infelizmente não. A tolerância do governo está ainda mais baixa, porque ele está mais fraco e se sente ameaçado por qualquer crítica. Eu não poderia estar no Irã e falar essas coisas sem ser perseguido da mesma forma que foram muitas pessoas que eu conheço e que estão na prisão.

    UOL Notícias: O senhor considera que este governo se sente ameaçado?
    Amiry-Moghaddam:
    Este é um regime sem apoio popular. Se eles tivessem apoio, não se sentiriam ameaçados por essas críticas.

“A mensagem principal [na decisão de Ahmadinejad] é para o povo iraniano, porque o governo sabe que se o povo iraniano perder o medo do regime, o regime estará em perigo”, afirmou Amiry-Moghaddam em entrevista ao UOL Notícias, em referência ao recente anúncio de Ahmadinejad.

“A maior parte do poder deste regime está baseada na capacidade de criar medo entre as pessoas. E para criar medo, eles precisam mostrar que eles são poderosos e que têm autoridade”, analisa o porta-voz da organização Iran Human Rights.

“É muito importante para o governo deixar claro para os iranianos que eles é que estão no controle. Por isso que eles fazem tudo o que podem para mostrar que não são afetados por essa pressão internacional – o que é uma mentira, porque a essa altura, se não fosse pela pressão internacional, Sakineh já teria sido apedrejada”, acrescenta Amiry-Moghaddam.

“Sakineh é uma mulher pobre de uma pequena vila, e o fato de que o presidente tenha que mencionar o nome dela é uma prova de que o caso se tornou grande”, acrescenta Amiry-Moghaddam.

“E a participação do Brasil nisso é muito construtiva”, defende. “É moralmente importante que países ocidentais como Brasil demonstrem que se importam com os direitos humanos e que denunciem isso em qualquer país, mesmo com países amigos”.

“Até agora, o regime dizia que os países ocidentais criticavam o Irã de violações dos direitos humanos faziam isso porque eram inimigos do Irã e faziam isso de maneira política. Mas agora, quando países com os quais Irã mantém boas relações, como o Brasil, tomam parte nessa questão, o governo não pode dizer o mesmo”, afirma.

“Por isso eu gostaria de agradecer, em nome de meus colegas iranianos, o governo e o povo do Brasil pelo envolvimento nesse caso”, disse o ativista. “Sem dúvida, isso tem efeito positivo”.

Oferta brasileira

A viúva Sakineh Ashtiani, 43, mãe de dois filhos, foi condenada à morte por apedrejamento no Irã sob acusação de ter mantido “relações ilícitas”. O caso ganhou repercussão internacional e o a República Islâmica suspendeu temporariamente a execução da pena. Atualmente, autoridades iranianas respondem às críticas dizendo que a mulher também foi condenada por envolvimento no assassinato do marido, e sugerem que o apedrejamento pode ser trocado por morte na forca.

No dia 31 de julho, durante um comício eleitoral, Lula anunciou que o Brasil estava disposto a receber a iraniana, se isso fosse suficiente para evitar a morte dela. Nos dias seguintes, o Itamaraty confirmou que a oferta de asilo foi encaminhada ao Irã pelos meios diplomáticos e pediu que a República Islâmica considerasse essa iniciativa como um “ato humanitário”.

Hoje, em declarações à "Press TV", um canal estatal iraniano transmitido em inglês, Ahmadinejad afirmou que não via necessidade de enviar Sakineh ao Brasil, e disse esperar que o tema “seja resolvido”, sem oferecer detalhes.

Em nota, a embaixada iraniana no Brasil confirmou que o asilo foi negado, e questionou quais seriam as consequências de oferecer esse tipo de tratamento “aos criminosos e assassinos”.

"Em relação à presença ou ao exílio [da condenada] Sakineh Mohamadi no Brasil, é necessário considerar alguns pontos e questões significativas. Quais são as consequências desse tipo de tratamento aos criminosos e assassinos?", questiona o governo do Irã em seu comunicado.

"Esse ato não promoverá e não incitará criminosos a praticar crimes?", completou.

"Será que a sociedade brasileira e o Brasil precisarão ter, no futuro, um lugar para os criminosos de outros países em seu território?", questionou.

Segundo a lei islâmica, uma mulher condenada ao apedrejamento deve ser enterrada até o tórax, com os braços imobilizados, e receber pedradas até a morte.

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